Unidos do Viradouro 1994 – a volta de Joãosinho Trinta à Sapucaí com a saga de Tereza de Benguela

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O carnaval carioca de 1994 trouxe como uma de suas grandes novidades um novo desfile arquitetado pelo gênio Joãosinho Trinta, desta vez a frente da Unidos do Viradouro que desde 1990 estava sob a batuta do também carnavalesco Max Lopes, primeiramente em trabalho solo e a partir do carnaval de 1991 até 1993 em conjunto com Mauro Quintaes.

Assumindo como carnavalesco da Viradouro, Joãosinho Trinta apresentou para a diretoria da agremiação o enredo “Tereza de Benguela, uma rainha negra no Pantanal”, enredo este autoral do carnavalesco.

Com este enredo a Viradouro se dispôs a levar para a pista da Marquês de Sapucaí a saga da princesa africana nascida em Benguela – nação de Angola, que foi trazida para nosso país escravizada, levada para Vila-Bela de Santíssima Trindade, primeira capital do Estado de Mato Grosso.

Houve uma revolta na ocasião da mudança da capital de Vila-Bela para a atual Cuiabá e nesta ocasião Tereza de Benguela liderou a fuga de negros escravos e mais ao norte fundou o conhecido quilombo do Quariterê.

No quilombo, como uma verdadeira rainha Tereza governou através mediante um parlamento. Nesse quilombo ela protegeu, além dos negros, índios, mestiços, brancos revoltados e descendentes dos antigos povos pré-colombianos fundadores do Império Inca.

Fora do carnaval carioca desde que tinha sido dispensado da Beija Flor de Nilópolis, Joãosinho Trinta não havia apresentado nenhum trabalho no carnaval carioca de 1993, daí a grande expectativa com relação a este novo trabalho em uma nova agremiação carioca.

A Viradouro vinha de um sétimo lugar no carnaval anterior e a aposta na contratação de Joãosinho era justamente no sentido de que a escola viesse para concorrer por melhores classificações, já que desde que iniciou a desfilar entre as grandes agremiações na Sapucaí, não havia conseguido melhor classificação do que o sétimo lugar.

Para este desfile da Viradouro, a grande promessa do carnavalesco era trazer para a escola de Niterói o luxo característico de seus desfiles, uma forma opulenta de apresentação dos enredos criados por Joãosinho Trinta.

Mestre Paulinho Botelho comandava os ritmistas da agremiação que tinham a frente da bateria Patrícia Costa como rainha, reinado este que já durava por três carnavais.

Numa época em que os critérios de julgamento e regulamento eram bem diferentes daqueles empregados atualmente na avaliação das escolas, a Viradouro trouxe 4500 componentes divididos em 35 alas e 11 alegorias.

Rico Medeiros foi o grande intérprete que sustentou o samba da escola de sua autoria e dos compositores Cláudio Fabrino, Paulo César Portugal e Jorge Baiano.

“… Vai clarear, vai clarear
Um sol dourado de quimera
A luz de Tereza não apagará
E a Viradouro brilhará na nova era… “

(Refrão do samba de enredo da Unidos do Viradouro – Carnaval carioca de 1994)

Ainda na concentração o esquenta da bateria e da escola aconteceu com o samba do ano anterior “Amor, sublime amor”.

Já desde o primeiro momento em que a escola entrou na pista de desfile da Sapucaí, não houve nenhuma dúvida de que aquele desfile era realmente uma obra criada pelo genial Joãosinho Trinta, pelo luxo apresentado, alegorias imponentes cheias de componentes sobre elas, fantasias deslumbrantes, tanto de alas, quanto de composições e destaques, um desfile de fato com caráter claramente competitivo.

Como não poderia ser diferente, à frente da escola vinha o carnavalesco Joãosinho Trinta, a personificação da alegria e realização, ainda mais que no ano anterior tinha ficado de fora da festa, coisa que não acontecia há muitos carnavais.

Joãosinho Trinta a frente da Viradouro em 1994

Com toques de modernidade na concepção deste desfile, Joãosinho ao mesmo tempo retornou a coisas tradicionais dos desfiles do passado, que outras agremiações já haviam deixado no passado, como foi a presença de um pede passagem logo após a comissão de frente da escola.

Unidos do Viradouro – Carnaval de 1994

Já no carro abre alas havia a presença de uma mulher de nome Inês, descendente direta de Tereza de Benguela, conforme anunciado pela agremiação.

No primeiro setor do desfile foram retratadas as memórias de Tereza de Benguela, desde a distante África, onde foi escravizada e trazida para nosso país. As baianas traziam as relíquias do quilombo do Quariterê.

Como era tradição na época o primeiro casal de mestre sala e porta bandeira da agremiação, André e Patrícia, vinham próximos a bateria frente protegidos por grupo de guardiões, os quis garantiam o espaço para a evolução do casal.

Logo após a bateria vinha a segunda alegoria, o carro das três raças, já que o grande sonho de Tereza era proteger e juntar brancos, negros e índios no quilombo por ela fundado.

Na terceira alegoria destaque para a figura da modelo Lilian Ramos, de seios desnudos, que posteriormente viria a participar da polêmica daquele ano, quando apareceu e foi fotografada ao lado do Presidente Itamar Franco sem roupa íntima, apenas com uma camiseta cobrindo seu corpo, polêmica esta que rendeu naquele carnaval.

Unidos do Viradouro – Carnaval 1994

Além da história de Tereza de Benguela, a Viola-de-Cocho, que é um instrumento musical de cordas dedilhadas, variante regional da viola brasileira, comum nos estados de Mato Grosso e Mato grosso do Sul, no centro-oeste do Brasil, também teve destaque no enredo e no desfile da Viradouro, já que serviu como fio condutor na narração do enredo apresentado pela agremiação.

Na sexta alegoria a representação do quilombo do Quariterê e seu parlamento, representado como um reino de muita fartura e abundância, onde a justiça era administrada de uma forma justa e positiva.

O último setor do desfile trouxe a representação da destruição do quilombo do Quariterê pelos portugueses, que tinham como objetivo recuperar os escravos negros e obriga-los a trabalharem na mineração.

Realizada a apuração dos resultados na quarta-feira de cinzas, a Viradouro ficou com medalha de bronze, já que ficou com a terceira colocação na classificação geral daquele ano, atrás somente da Imperatriz Leopoldinense, campeã e do Acadêmicos do Salgueiro, vice-campeã em 1994.

No desfile das campeãs retornaram ainda à passarela da Sapucaí, União da Ilha do Governador, Beija Flor de Nilópolis e Tradição.

Após esse desfile de 1994, Joãosinho Trinta ainda permaneceu na escola de Niterói até o carnaval do ano 2000, tendo sido campeão em 1997 com o enredo “Trevas! Luz! A explosão do Universo”.

Unidos do Viradouro -Carnaval 1997

Mas por aquelas coisas que só os deuses do carnaval podem explicar, no carnaval paulista de 2020, Tereza de Benguela, sua vida e sua história, voltou a ser enredo de escola de samba, desta vez na Barroca Zona Sul em seu retorno ao grupo de elite das escolas de samba de São Paulo, tendo conquistado a décima colocação, num trabalho do trio de carnavalescos Rodrigo Meiners, Rogério Sapo e Yuri Aguiar.

Barroca Zona Sul – Carnaval 2020

Por Sidnei Louro Jorge Júnior

 

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