Um desfile exuberante com a cara da primitiva Terra Brazilis

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Desfiles inesquecíveis já foram apresentados na Marquês de Sapucaí por muitas agremiações do carnaval carioca, mas poucos ficaram gravados na alma de nós sambistas como aqueles onde as comunidades das escolas de samba utilizaram-se verdadeiramente de superação absoluta para pisarem forte na pista de desfiles e reverterem uma situação desfavorável a favor de suas entidades carnavalescas.

Um destes desfiles verdadeiramente marcantes aconteceu na Marquês de Sapucaí no carnaval de 1999, meu primeiro ano assistindo aos desfiles ao vivo, situação esta que considero como verdadeira dádiva ao ter podido assistir a um desfile que foi arrebatador desde o seu início até o último portão se fechar, deixando todos aqueles que na Sapucaí estavam com a certeza de terem sido presenteados pelos deuses do carnaval com um cortejo carnavalesco perfeito.

Assim foi “O Dono da Terra” apresentado pela Unidos da Tijuca, naquele ano de 1999 desfilando no grupo de acesso A do carnaval carioca.

Em 1998, a escola do Boréu com seu tema de enredo “De Gama a Vasco a Epopéia da Tijuca”, optou por homenagear o Club de Regatas Vasco da Gama, que na época completava o seu centenário. Uma conjugação de fatores desfavoráveis, desde a preparação do desfile, no período pré carnavalesco, levou a Unidos da Tijuca para a penúltima colocação, tendo ficado a frente somente da Unidos do Porto da Pedra e por conseqüência foi rebaixada para o grupo de acesso A.

Esse carnaval de 1999 também ficou marcado por ter sido o último com transmissão realizada pela TV Manchete e pelo empate entre a Beija Flor de Nilópolis e a Estação Primeira de Mangueira na primeira colocação.

Mas a redenção da Unidos da Tijuca seria concretizada no seu desfile de 1999, no grupo de acesso A do carnaval do Rio de Janeiro, quando sob a batuta do carnavalesco Oswaldo Jardim escolheu como tema de enredo o índio brasileiro, sua cultura, mitos e lendas, dentre outras coisas, enredo este que recebeu o título de “O Dono da Terra” e que ao final da apuração dos resultados, deu a escola todas as notas dez possíveis e constantes da avaliação feita naquele desfile do grupo de acesso A.

Foi um desfile arrebatador desde seu início, uma explosão de ritmo e cores onde a comunidade da escola do Boréu pisou na Sapucaí como que bradando que o lugar da escola não era ali e sim no grupo onde estavam as grandes escolas de samba. O samba de enredo da Tijuca naquele ano até hoje é considerado por muitos especialistas do meio carnavalesco como “antológico”, tendo a Tijuca sido ao final daquele carnaval reconduzida ao Grupo Especial.

O samba da escola era de autoria dos compositores Vicente das Neves, Carlinhos Melodia, Haroldo Pereira, Rono Maia e Alexandre Alegria. Esse samba, que é um dos clássicos da Unidos da Tijuca, apresenta trechos de pura poesia, melodia agradável, um verdadeiro hino do carnaval brasileiro, considerado o melhor do ano 1999. Naquele ano, a Unidos da Tijuca foi a sexta escola a adentrar a pista de desfiles, naquele sábado, dia 13/02/1999.

O título dado ao enredo, “O Dono da Terra”, deixou muito claro o objetivo da escola e aquilo que de fato queria mostrar naquele desfile, nosso país antes da aculturação européia, onde o nosso indígena era de fato o “dono” da “Terra Brazilis”.

A plástica do desfile apresentado surpreendeu a muitos, pela extrema criatividade desenvolvida, com alegorias de uma beleza ímpar demonstrando o que de extasiante havia no habitat tropical e ainda era ignorado do Velho Mundo, e mais tarde despertou a atenção e a pretensão pelas riquezas desse lugar, hoje nosso Brasil.

À frente de sua bateria a Tijuca contava com a inesquecível Fábia Borges, ícone da escola na época que vinha como rainha dos ritmistas.

Por arremate, concluo que “O Dono da Terra” é daqueles desfiles para nunca serem esquecidos e para ser revisto sempre que se sentir saudades daqueles carnavais verdadeiramente de raiz e superação.

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