Todo Dia Era Dia De Índio – A Figura Indígena no Carnaval das Escolas de Samba – Algumas Pinceladas

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Desde que pela primeira vez assisti ao vivo o desfile das escolas de samba na Marquês de Sapucaí, e isso aconteceu no já distante ano de 1999, foi muito fácil observar de lá para cá que figuras repetem-se nesses desfiles de uma forma mais do que frequente, já que a grande maioria dos enredos apresentados pelas agremiações carnavalescas, não só cariocas, mas também pelo carnaval do resto do Brasil, abrem suas descrições para lá nos primórdios de suas narrativas poderem encaixar figuras indígenas.

As fantasias de índio são das mais frequentes nas manifestações carnavalescas não apenas do Rio de Janeiro, mas do nosso país e também do mundo, estando presentes até mesmo nas manifestações carnavalescas não oficiais e negras de Nova Orleans, nos Estados Unidos, que não são comandadas por reis, mas por caciques à moda americana.

O 19 de abril é conhecido nacionalmente como Dia do Índio.

Quem não se recorda de na escola comemorar esta data construindo cocares indígenas multicoloridos? Ou ver nesta data os conhecimentos serem aprofundados sobre a cultura indígena e as contribuições desses povos que perduraram até os dias atuais?

A civilização indígena, muito rica em lendas e costumes, sempre gerou grandes desfiles, parecendo muitas vezes um assunto inesgotável, podendo ser ponto de partida para muitos desfiles ainda, bastando a criatividade dos profissionais do carnaval para que não fique monótono e repetitivo.

O objetivo deste texto é destacar alguns desfiles carnavalescos onde a figura do indígena brasileiro foi exaltada, dando sua real importância para a formação do nosso povo e de nossa identidade enquanto nação soberana.

No carnaval carioca de 1994, através do trabalho da carnavalesca Rosa Magalhães, foi a vez da Imperatriz Leopoldinense trazer a figura do indígena como protagonista mais uma vez, quando trouxe para a Sapucaí o enredo “Catarina de Médicis na corte dos Tupinambôs e Tabajères”.

Em sua narrativa para construção deste enredo a carnavalesca foi buscar na França do século XVI, uma festa oferecida por Henrique II e Catarina de Médici onde cerca de 50 indígenas brasileiros foram transportados para aquele país europeu com o objetivo de representarem na festa seus hábitos e costumes.

Foi um desfile de luxo e primor em sua realização, tendo a escola alcançado o campeonato daquele ano.

O corpo de jurados do Estandarte de Ouro pelo desfile da Imperatriz, premiou a agremiação nos segmentos de melhor ala de baianas, melhor ala de crianças e a porta bandeira Maria Helena também recebeu este prêmio do Jornal O Globo.

O samba de autoria dos compositores Alexandre D’Mendes, Alvinho, Aranha e Márcio André, reunia termos em francês, como no verso:Mon amour c’est si beau! Esse jogo, essa dança, Tabajer, Tupnambôs”.

Na apuração a “Certinha de Ramos” só recebeu três notas diferentes de dez, tendo garantido o campeonato daquele ano com tranquilidade.

A Imperatriz ainda voltou à temática do índio brasileiro no carnaval de 2017 com o enredo “Xingu – O Clamor que vem da Floresta” do carnavalesco Cahê Rodrigues.

Neste desfile a escola de Ramos trouxe inclusive para a pista da Sapucaí grandes lideranças indígenas da atualidade, lutando pelos direitos dos povos indígenas e pela preservação da natureza e suas áreas demarcadas, contra a ação de grilheiros e criticando o agronegócio, que não respeita a natureza mas devastações que promove para a instalação de grandes plantações e usinas hidroelétricas, afetando os eco-sistemas dos lugares onde isso ocorre.

Com este desfile a agremiação terminou com um sétimo lugar na classificação geral.

Sendo minha primeira vez na Marquês de Sapucaí em 1999, fui brindado já no grupo de acesso daquele ano pelo desfile da Unidos da Tijuca, com o seu inesquecível “O Dono da Terra”, desfile este para nunca mais esquecer.

Já desde a comissão de frente da escola a figura do índio brasileiro vinha em destaque, passando por alegorias e alas da escola, com predominância do azul pavão e do amarelo, cores da agremiação do Morro do Borel.

Foi algo avalassador, embalado pelo samba de autoria dos compositores Vicente das Neves, Carlinhos Melodia, Haroldo Pereira, Rono Maia e Alexandre Alegria, obra esta que até hoje é celebrada pelos amantes do carnaval como um dos grandes sambas que a Sapucaí já ouviu passar nos muitos desfiles já realizados naquela pista.

 

Hoje a Tijuca canta

Sacode e balança esta cidade

Viaja no conto do índio

O dono da terra, que felicidade

No cantar do Uirapuru

Tantas lendas pra contar

Sob as ordens de Rudá

(Trecho do samba enredo – Unidos da Tijuca – carnaval RJ de 1999)

 

O carnavalesco Oswaldo Jardim, mordido com o rebaixamento da escola para o grupo de acesso depois do desfile de 1998, utilizou-se da figura do indígena, sendo a força desse povo, aquela que a escola precisava para superar-se e voltar à elite carioca das escolas de samba e essa fórmula funcionou tão maravilhosamente bem, que a escola recebeu todas as notas dez possíveis de serem atribuídas pelos julgadores naquele ano, voltando então a Unidos da Tijuca ao grupo especial no carnaval seguinte, de onde nunca mais saiu até os tempos atuais.

No carnaval carioca de 2004 foi a vez da Beija Flor de Nilópolis trazer a cultura indígena brasileira de novo para o sambódromo do Rio, quando apresentou o enredo “Manõa, Manaus, Amazônia, Terra Santa: alimenta o corpo, equilibra a alma e transmite a paz”, desfile com o qual a comunidade nilopolitana comemorou mais um campeonato para a escola.

A comissão de carnaval responsável pelo carnaval da escola para aquele ano, trouxe um enredo falando da Amazônia e obviamente não teria como deixar de fora a figura do indígena brasileiro, suas lendas e costumes.

Na sinopse apresentada pela escola naquele ano havia clara menção à Tupã, às lendas indígenas, à tribos e às bravas guerreiras, chamadas de amazonas, conforme trecho abaixo:

“…Tupã liberou então a Cobra Rio Honorato para proteger a floresta. Atordoados e delirantes, os navegadores se viram atacados ferozmente por uma tribo composta somente por mulheres, vestidas completamente de ouro…”

“…Tendo os índios Maués como guardiões protetores, ganhou o fruto o nome de guaraná e traz ao homem, com sua energia, o ideal da redenção…”

No samba enredo da escola daquele ano, de autoria dos compositores Cláudio Russo, José Luis, Marquinhos e Jessey, clara era a citação às lendárias guerreiras amazonas, ao Deus Tupã e inclusive denominando a escola como uma grande tribo.

Com 388 pontos a agremiação da Baixada Fluminense conquistou assim um bicampeonato, já que havia sido a campeã no carnaval anterior.

Anteriormente a Beija Flor de Nilópolis já havia trazido  figura do índio brasileiro para a Sapucaí no enredo “Margareth Mee, a Dama das Bromélias”, no carnaval de 1994, desfile planejado e executado pelo carnavalesco Milton Cunha, que no final alcançou um quinto lugar para a escola nilopolitana.

 

 

No carnaval paulista de 2019, foi a vez da Mocidade Alegre trazer como enredo uma lenda amazônica “Ayakamaé – As águas sagradas do sol e da lua”, onde mais uma vez a figura do índio foi destaque na apresentação da escola na pista do Anhembi.

A agremiação veio contando a lenda do sol e da lua, que na realidade eram um casal de índios que eram amantes e que foram amaldiçoados. Como nunca conseguiam se encontrar, das lágrimas da lua nasceu o rio Amazonas.

Já na comissão de frente as figuras do sol, da lua, índios e de um pajé mostravam o tom do desfile da agremiação, multicolorido e de muita garra. Esculturas de grandes figuras indígenas ornamentavam o carro abre alas da escola, e nas alas da escola sucediam-se uma infinidade de tribos indígenas, ricamente fantasiadas.

O grupo de carnavalescos da agremiação composto por Neide Lopes, Carlinhos Lopes, Paulo Brasil e Márcio Gonçalves soube com maestria representar majestosamente os primitivos habitantes de nosso país e suas diversas tribos ocupantes de terras no Amazonas, tendo o cuidado de nunca permitir o encontro das figuras centrais do enredo, o sol e a lua.

Seres fantásticos das lendas indígenas relacionados ao surgimento do rio Amazonas também foram representados com muito luxo e requinte neste desfile da Mocidade Alegre, assim como a flora e a fauna daquelas terras.

O samba da escola, de autoria de Biro Biro, Turko, Gui Cruz, Maradona, Imperial, Portuga, Rafael Falanga, Rodrigo Minuetto e Vitor Gabriel foi perfeito para embalar o desfile, dando o ritmo necessário ao contingente da agremiação para realizar um desfile empolgante.

 

“…Eu sou… o verdadeiro dono dessa terra

Mareja em meu olhar, todo o encanto dessas águas

Ayakamaé… um rio de amor

Deságua em ti, das lágrimas de prata do luar

Em noite proibida de amar

O brilho que aquece a manhã

Um santuário de vida floresceu

Na proteção de bravos Manaós

Yara seduz ao cantar

Na correnteza a caminho do mar…”

(trecho do samba enredo – Mocidade Alegre – carnaval SP de 2019)

 

Esse desfile rendeu à Morada do Samba apenas um oitavo lugar.

Por fim Portela no carnaval de 2020 trouxe para a Marquês de Sapucaí o enredo “GUAJUPIÁ, TERRA SEM MALES”, onde a figura do indígena foi de novo mostrada como protagonista num desfile de escola de samba.

O casal de carnavalescos Renato e Márcia Lage encheram a Sapucaí de índios ricamente representados, multicoloridos e com seus grafismos característicos, respeitando a natureza e seu semelhante.

Desta vez o cenário era a Baía da Guanabara em tempos remotos, onde a poluição e as mazelas da atualidade não eram nem imaginadas para aquele ambiente puro e respeitado pelos índios tupinambás que ali habitavam.

O samba da escola, de autoria dos compositores Valtinho Botafogo, Rogério Lobo, José Carlos, Zé Miranda, Beto Aquino, Pecê Ribeiro, D’Sousa e Araguaci, serviu perfeitamente para sustentar um desfile com ótima evolução.

 

“…Índio é Tupinambá

Índio tem alma guerreira

Hoje meu Guajupiá é Madureira

Voa águia na floresta

Salve o samba, salve ela

Índio é dono desse chão

Índio é filho da Portela…”

(Trecho do samba enredo da Portela – carnaval 2020)

 

Desde a comissão de frente até a última alegoria índios representados das mais diversas formas, assim como fauna e flora da primitiva região da baía da Guanabara.

Tribos de índios Tupinambás sucederam-se num desfile harmonioso, com destaque para a ala de baianas da escola com diversos tons de azul, numa composição monocromática, trazendo na saia os abundantes golfinhos que haviam no lugar.

Por aquelas coisas muitas vezes sem explicação razoável, mesmo com um belíssimo desfile, a Portela ficou apenas com a sétima colocação, tendo dessa forma ficado fora do desfile das campeãs, situação muito lamentada pelos amantes do carnaval brasileiro.

Assim, claro fica que a figura do índio, de uma forma positiva e majestosa em muitas ocasiões foi apresentada em desfiles carnavalescos, mostrando sua importância para a formação do povo brasileiro e seus costumes muito valiosos que até hoje nos chegam cotidianamente.

Como cantou Baby Consuelo…

 

Por Sidnei Louro Jorge Júnior

 

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