SP – Cacique do Parque apresentará no próximo desfile o enredo “A Periferia Poética de Sérgio Vaz”

0
36

 

Desfilando pelo grupo de Acesso de Bairros 2 da Uesp a escola de samba Cacique do Parque, para seu próximo desfile anunciou o enredo “A Periferia poética de Sérgio Vaz” do carnavalesco Bruno Laurato.

Cacique do Parque – Logo Carnaval 2021

A agremiação realizou sua primeira participação no carnaval da cidade de São Paulo no ano de 2017, pelo Grupo 4 da UESP e desde o carnaval de 2019 desfila no grupo de acesso de bairros 2.

SINOPSE DO ENREDO:

“A PERIFERIA POÉTICA DE SÉRGIO VAZ”

Cacique do Parque – Carnaval 2021

“O Sarau da Cooperifa é quando a literatura desce do pedestal e beija os pés da comunidade.”

Ao contrário do que a obra imortalizada conta, “o alquimista” em questão não frequenta os vales de Andaluzia, na Espanha. Ele anda aqui mesmo. Aqui na quebrada, no Parque Santo Antônio, de pé no chão entre “flores de alvenaria”, e ruas mal pavimentadas que, como um fio de lã, costura toda a periferia da Zona Sul de São Paulo. Nosso alquimista não é pastor de ovelha, ele quer é jogar bola e ganhar o mundo todinho, reconhecido como craque, como a maioria dos meninos daqui.

Ao contrário também do alquimista do autor, o nosso não está dentro da literatura. A literatura é que está dentro dele. E, para ele, esse sim é o tesouro maior. Ele identificou isso desde pequeno, nos primeiros anos de um “regime indigesto” que o país passava, quando, de sílaba em sílaba, ele viajou o mundo todo através de páginas. No começo, doces fábulas, mais pra frente, os mais complexos que o chegavam a questionar se “Eram deuses os astronautas?”

O Alquimista daqui não só foi ao “Inferno” com Dante, mas também se encontrou nele, ao compreender que a arte pela qual ele, sempre “amador”, se apaixonou, não tinha muito espaço para quem nasceu onde ele nasceu. Ainda menino, o alquimista entendeu que para ele e todos os outros que ali moravam, a arte lhe era negada, esquecida, pouco falada. Era “coisa de fresco”. E ele queria o além, queria mais, mais do que o ensino público poderia oferecer, queria “Literatura, pão e poesia”.

Neste cenário, ele não teve muita escolha. Recolheu tudo o que lhe era de direito e lhe cabia dentro do seu “quarto de despejo”, pôs a perna no mundo e partiu com “Um sol lindo lá fora, outro dentro do peito”. Taí a semelhança entre os dois alquimistas. Eles precisavam ir atrás do tesouro. Eles precisavam ir atrás do chamado que o pulsava, “agarrando o sonho” que o tinha escolhido. E o nosso, inspirado pelas andanças corajosas de Dom Quixote, se jogou na rua, sem um rocinante para o carregar, mas como o cavalheiro, enfrentando os seus moinhos.

Já rapaz e longe do lugar que lhe pariu, entre andanças e “pensamentos vadios”, ele encontrou o que fazia seus olhos brilharem. A arte caminhava pelas grandes avenidas centrais. Elitizada, ela tomava um táxi no Bixiga com direção à Consolação, passando por todos os elegantes bairros que, como um mosaico, monta o grandioso centro paulistano.

Lá, a arte corria nua pelas ruas e bares. Ela ria alto e dançava ao léu com os boêmios até o alvorecer. E não parecia, nem de longe, que ela teria tempo de prolongar o passeio até os bairros mais afastados, que estão à margem do que é considerado cartão postal na capital. Ela não queria vir? Nós não queríamos que ela viesse ou não deixavam ela se aproximar?

Na mesma medida em que se encantou, o alquimista também se enfureceu. “Cada qual com sua poesia, cada qual com sua fúria”. Era discrepante que àquela mesma arte que neste endereço fazia festa até altas horas, em poucos quilômetros de lá, pouco dava as caras. A arte não tomava ônibus? Ela não calçava sapatos para andar no chão de terra? Ela não tinha interesse em conhecer os vizinhos, as mães, as Marias e “Ediths”? Ela não poderia acompanhar uma pelada na várzea? “Vem cá, dona arte, qual é a sua?”, questionou o alquimista armado com uma caneta.

Mesmo sob a ira que a compreensão da desigualdade tivera lhe causado, o alquimista flertou com a arte, bebeu com ela e lhe beijou a boca. Ele tinha fome daquilo tudo e, por isso, a devorou como num “banquete” que, ora lhe dava prazer, ora lhe causava a indigestão por tanto conhecimento, mas nada que dois goles de cerveja não resolva. Como num movimento antropofágico, ele decidiu mastigá-la, saboreá-la e engoli-la, e, depois, regurgitar tudo aquilo para que todos na periferia pudessem conhecer, entender, e, enfim, compreender o que ele falava tanto.

Na volta, não é possível identificar quem estava mais cheio: a barriga ou o ônibus que lhe trazia. Mas ele estava saciado. Ele volta repleto de tudo aquilo que viveu por lá. De volta, foi colocando aos poucos para fora, numa verdadeira “antropofagia periférica”. Dia a dia, semana a semana – muito mais que 22, em galpões abandonados, entre “becos da memória” sem iluminação e botequins mal frequentados até chegar naquele que foi a sua primeira senzala, que ele fez questão de transformar em quilombo.

O alquimista, portanto, rodou todos os lugares na busca do seu tesouro. “Colecionou pedras”, histórias, sonhos, angústias, superações e resistências. Na volta, viu que o tesouro estava lá e sempre esteve. Entre ônibus lotados e tênis sob fios, entre muros pichados e partidas de várzea. Entre Capão Redondo e Parque Santo Antônio, entre saraus e batucadas, entre RAP e Samba, entre terças e quartas.

Na quebrada, ao lado de valiosos parceiros, ajudou a transformar o cenário caótico, fazendo o povo acreditar que o “sol é para todos” e a arte também. Nas terças, no alto do Jardim Guarujá, é possível ouvir de longe vozes de resistência que declamam versos. São vozes pretas, vozes de mulheres, professoras, empregadas domésticas e tantas outras. São vozes que estão acostumadas a serem caladas todos os dias, mas não lá. Lá, “o silêncio é uma prece”.

Lá, também é comum ver balões no céu levando poesia para outros costados, cinemas que flutuam, tempestade de livros. Lá dá pra ver a autoestima do autor independente crescer, lá se vê os blacks florescerem, a “magia negra” acontecer, a resistência se impor e o local de fala se fazer presente, rompendo qualquer “sistema” que insiste, sem sucesso, ofuscar o brilho que a cerimônia apresenta.

O alquimista possibilitou tantos encontros no seu lugar que a arte, que outrora só era vista nas grandes galerias, começou a também correr livre pelos becos, conquistando novos bares, espaços, galpões e escolas – de samba. Tanto que hoje, dentro da maior manifestação de cultura popular brasileira, que é o cortejo de uma escola de samba, ele é o tema principal.
Nós, do Cacique do Paque Santo Antônio, que estamos fincados onde toda a história começou, assumimos o local de fala que nos pertence e vamos contar e cantar a história do cara que, assim como nós, sabe as dores e delícias de estimular cultura na periferia.

Ah, o alquimista é Sérgio Vaz, que é poeta, pai, marido, boêmio e sonhador. O seu tesouro é o sarau da cooperifa que há mais de duas décadas faz com que a “literatura desça do pedestal e beije os pés da comunidade” da Zona Sul de São Paulo.
Nós somos o Cacique do Parque, escola de gente aguerrida, do Parque Santo Antônio que entende a importância que a cultura tem na formação da nossa gente e que, sobretudo, sabemos bem como contar histórias de superação no nosso cortejo.

Viva a Literatura!
Viva a arte periférica!
Viva Sérgio Vaz!

“A poesia é uma arma de ataque e defesa”
Sérgio Vaz

Bruno Laurato – Carnavalesco

No carnaval passado a escola apresentou o enredo “Joga-se Búzios” também do carnavalesco Bruno Laurato.

Nenhuma descrição de foto disponível.
Cacique do Parque – Logo Carnaval 2020

Por Sidnei Louro Jorge Júnior

 

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui