Sou Samuel Abranches mas podem me chamar de Samile Cunha

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Foto Jr Travassos

Frequentar quadras de Escolas de Samba no Rio de Janeiro e não conhecer a “Embaixatriz da alegria”, Samile Cunha, é quase impossível. Porém muitos destes frequentadores não imaginam que por trás daquela figura emblemática existe um dos mais respeitados professores e mestre em figurino do Brasil, Samuel Abranches.

‘Pode me bater a vontade, quando crescer quero ser Destaque’

O pequeno Samuel Abranches

Filho do borracheiro Sebastião Marques Abrantes e da doméstica Sebastiana Sampaio Abrantes, Samuel Abranches é figurinista, artista plástico e professor da UFRJUniversidade Federal do Rio de Janeiro. O respeitado mestre em indumentária, de 60 anos, é a pessoa por trás da fabulosa Samile Cunha, figura famosa no carnaval carioca por aparecer em diversos eventos de quadra e desfiles de escolas de samba.  A mãe foi a responsável por levar o pequeno Samuel a tomar o gosto pela festa, quando fantasiava os três filhos da família que residente, na época, em Campo Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro.

O futuro Professor acadêmico em 1970

O primeiro carnaval de rua, para Samuel ainda criança, chegou através do misto de medo e fascínio personificados na figura dos Bate Bolas, personagens mascarados tão comuns no subúrbio carioca de outrora, também conhecidos como Clóvis. O colorido dos tecidos usados nas fantasias destes palhaços causavam encantamento, e as assombrosas máscaras, o medo. De origem humilde, o lar era dividido entre diversas pequenas moradias sublocadas pela a avó para os artistas de rua, parentes e gente da arte que foram responsáveis por aguçar a mente criativa de Samuel Abranches.

Controladora, precisando trabalhar e preocupada com criação dos filhos naquele ambiente, a mãe Sebastiana, recorria ao instinto materno para aplicar a estratégia de deixar os filhos trancados sem roupa alguma, para que assim, cobertos de vergonha, eles não saíssem de casa no período de ausência da mesma.

Samuel Abranches – Foto Reprodução

O primeiro contato visual de Samuel com uma agremiação carnavalesca ocorreu em 1968 em desfile no centro de Bangu. Na ocasião, assistindo o desfile do Bloco Unidos da Vila Kennedy (hoje escola de samba). Na época, influenciado pela revolução salgueirense no final dos anos sessenta, para o garoto Samuel, confundido com a massa vermelha, branca e prata do bloco, ele estava assistindo a Academia do Samba. Encantando, só tinha olhos para as fantasias dos Destaques, e foi ali que Samuel decidiu contar para a mãe que queria ser igual aqueles personagens.

Samuel aos 18 anos

Levei um cascudo e um tapa. Minha mãe falou assim: ‘Imagina se estou criando veadinho. Você não vai ser nada no carnaval. Ela me puxou pelo braço. E aí falei: ‘Pode me bater a vontade, já disse que quando crescer eu quero ser aquilo ali’. E aquilo ali era um destaque. Ela vinha me batendo porque no caminho para casa eu vinha catando os paetês que caiam das fantasias. Ela pedia para eu parar de juntar lixo, que não queria lixo em casa. Tomava da minha mão, jogava fora, eu disfarçava, ia pegando de novo” – relembra.

‘Não me levem a mal, mas hoje é Carnaval’

O tio de Samuel, Natam Sampaio, desfilava na Avenida Rio Branco com a Império de Campo Grande (Escola de samba extinta em 1983). Já adolescente, Samuel passa a desfilar nesta agremiação com o tio. No final dos anos setenta, o jovem Samuel fazia escola técnica e tinha facilidade com desenhos. Sabendo disso, a esposa do Presidente da Império de Campo Grande convidou Abranches para confeccionar a roupa da bateria da escola. Além dos desenhos das fantasias, ajudava na confecção das alegorias daquela pequena escola de samba situada na Zona Oeste Carioca.

Anos 80 – Samuel em desfile na extinta Império de Campo Grande

Na minha cabeça, eu sabia fazer o que mandassem. Nunca disse que não sabia. Para aprender, ia para baixo do viaduto onde tinham três barracões das agremiações que saiam lá em Campo Grande. Entrava e saía daqueles barracões onde aprendi tudo como autodidata. Era muito enriquecedor, através do olhar do menino que estava se formando. Lembro de um senhor trabalhando em um grande fogão de lenha, onde ele colocava folha de zinco em cima, aquecendo para modelar. Eu ajudava com a argila. Tirava o molde de gesso e empastelava aquilo com cola de farinha de trigo”

Neste mesmo período, Samuel conhece a atriz Dill Costa, que dava aula de jazz (Dança) no Grêmio de Realengo, também na zona Oeste. Já próximos, convida a atriz e bailarina para fazer parte da comissão de frente da Império de Campo Grande. Esta parceria duraria muitos anos. Mais à frente, os dois amigos fariam memoráveis comissões de frente no Grupo Especial das escolas de samba do Rio de Janeiro.

Comissão de frente da Estácio em 1991

No inicio dos anos oitenta, Samuel Abranches decide fazer faculdade de licenciatura em Língua Portuguesa. Logo depois, vem o estágio em uma escola no bairro da Tijuca, Zona Norte do Rio. Neste escola conhece a Professora Nilda Salgueiro, neta de fundadores do Acadêmicos do Salgueiro, que leva Samuel para desfilar em alas na vermelho e branco da Tijuca. Como o noivo da professora Nilda era componente da Unidos de Vila Isabel, Abranches passou a desfilar nas duas escolas. Inclusive, na escola de Martinho da Vila, o futuro professor desfilava na ala de Dona Neide, mãe de Wagner Araújo, famoso diretor de carnaval da Imperatriz Leopoldinense. Nilda Salgueiro também era Carnavalesca e Porta bandeira do antigo Bloco Xuxu do engenho de Dentro. Muito amigo de Nilda, Samuel passa a fazer parte da equipe artística do bloco no ano em 1985.

Me considerava aderecista. Acho que eu me achava já um carnavalesco, embora eu não fosse. O meu artista já que sabia colocar as plumas na barra da saia da Porta Bandeira. Saia de Campo Grande até a Tijuca para ajudar. A Nilda me chamava para desenhar os enredos. Era a época de ouro dos Blocos de Enredo“.

Recebendo prêmio Molière, melhor figurinista de Teatro em 1991

‘Uma Professora, uma inspiração, um novo irmão e uma decisão’

Em 1987 Samuel vai estudar no SENAI e a professora dele era ninguém menos que Rosa Magalhães, que mais à frente seria a grande responsável pela mais importante decisão na carreira do, até então sonhador, Samuel Abranches. Experiente na arte de criar indumentária, o artista passa a assinar vários figurinos de Teatro. Nos anos noventa Abranches foi indicado aos principais prêmios de figurinos em Teatro, vencendo inclusive os disputados Premio Shell, Moliere e o prêmio Prêmio SATED do Sindicato dos Artistas e Técnicos de Artes.

Samuel com a amiga carnavalesca Rosa Magalhaes em 1999

Rosa Magalhaes foi a grande responsável na mudança de rumo na vida profissional de Samuel Abranches. Em 1992, a professora e carnavalesca buscou o figurista dentro de um atelier de teatro para que o mesmo fosse preencher uma vaga de professor substituto na EBA – Faculdade de Belas Artes da UFRJ. Dali em diante uma nova parceria se formava, em quase todos os desfiles da Carnavalesca lá estava, o agora acadêmico, Samuel Abranches. Sendo inclusive assistente em vários projetos da mestra Rosa Magalhães.

Em noventa e quatro, faço o concurso para me efetivar na EBA e passei. Trabalhava no barracão da União da Ilha fazendo a comissão de frente para o Chico Espinosa. Em uma determina noite, a Rosa meio que invadiu o barracão da Ilha e disse: ‘Chico, não estou fazendo espionagem de barracão, o Samuel esta aí? O Chico: ‘Oi Rosa, pode entrar’ e ela respondeu: ‘Não, eu preciso falar com o Samuel’. Eu estava lá no fundo do barracão e ela foi lá para me entregar a inscrição do concurso que terminaria no dia seguinte. Estava com uma oportunidade de viajar para trabalhar em um filme no exterior. Acabei não indo para o cinema e estou na UFRJ até hoje

Nos anos noventa Samuel Abranches, ao lado de Dill Costa, ganhou a confiança do Carnavalesco Chico Spinoza, passando a comandar os figurinos das comissões de frente do carnavalesco. Paralelamente desfila, e ajuda Rosa de Magalhaes, na Imperatriz Leolpoldinese. Na Rainha de Ramos leva seus alunos e atores das companhias de teatro para integrar o time de aderecistas de fantasias.

Comissão de 92 (Paulicéia Desvairada – 70 anos de Modernismo)Foto Wigder Frota

Trabalhei com Chico na Estácio de Sá em 91 (Brasil, brega e kitsch), 92 (Paulicéia Desvairada – 70 anos de Modernismo) e 93 (A dança da lua). Depois acompanhei ele na União da Ilha, onde fiz a comissão de 94 (Abrakadabra, O despertar dos mágicos), 95 (Todo dia é dia de Índio) e 96 (A Ilha faz uma viagem a pintada encantada). Neste ultimo, decido desistir das comissões de frente

O ator Miguel Falabella em suas experiências como carnavalesco contou com a ajuda de Samuel Abranches

Miguel Falabella, que se aventurou como carnavalesco nos anos 90, estava à frente do projeto em homenagem aos cem anos da Confeitaria Colombo no Império da Tijuca (No sassarico da Colombo)“. Samuel Abrantes ajudou naquele carnaval que levou a escola do Morro da Formiga, após vários anos na segunda divisão do Rio de janeiro, ao Grupo Especial. Em 1997, Samuel se aproximou de Milton Cunha, que fazia o enredo “A Beija-flor é festa na Sapucaí” para a Soberana de Nilópolis. Na ocasião, o carnavalesco pediu para que Samuel criasse uma fantasia de Oxumaré para o setor em homenagem ao orixá naquele enredo sobre festas. Dali em diante Samuel figurou em vários desfiles do Carnavalesco.

Falei que eu tinha vontade de voltar a estar presente em um carnaval da Beija-Flor. Tinha desfilado em 1989 naquele grupo dos mendigos de Joãozinho trinta. Aí o Milton Cunha aceitou e me pediu para desenhar uma roupa e participar. No ano seguinte vou  com ele para a União da Ilha, onde desenvolvo um grupo de guardiões do casal de mestre sala e porta bandeira para o enredo Fatumbi de 1998. Pude contar com a participação da minha amiga Dill Costa naquele grupo“.

‘Aquele que nunca viu a tristeza, nunca reconhecerá a alegria’

No ano de 2003, Samuel foi o responsável por todas as fantasias da Mocidade Independente de Padre Miguel. O enredo era “Para sempre no seu coração – Carnaval da doaçãode Chico Spinoza. Para este projeto, Abranches levou vários  alunos seus para ajudar na confecção dos figurinos, entre eles, o hoje carnavalesco, Jack Vasconcelos. O conjunto de fantasias para o enredo, que chamava atenção para a importância na doação de órgãos, recebeu as quatro notas máximas possíveis e elogios da carnavalesca Maria Augusta, então comentarista dos desfiles daquele ano pela Rede Globo de Televisão. No entanto a experiência não foi das melhores para o figurinista. Com criticas na fase pré carnavalesca, Samuel saiu da agremiação de Padre Miguel antes do projeto de confecção terminar.

Barracão da Mocidade de Padre Miguel em 2003

Naquela época os grupos de internet estavam surgindo e nestes grupos tinham muitos torcedores. Eles detonam a gente, mesmo sabendo que as fantasias estavam dentro do enredo e bem feitas. Um dia o Chico Espinosa me chamou no barracão. Ele imprimiu os posts e me demitiu porque a escola tinha pedido a minha cabeça. Geralmente eles falam que o dinheiro acabou e que não tem como te manter. Isso me magoou muito. Na apuração a escola ficou super bem. No ano seguinte fui chamado para retornar, mas recusei pois não tinha interesse em reviver o que passei naquele carnaval

A boa relação com Spinoza voltaria em 2005, quando o carnavalesco, agora na Caprichosos de Pilares, convidou Samuel para estar no desfile em homenagem aos vinte anos de  sambódromo.

Samile (Samuel) com o carnavalesco Chico Spinosa

Neste ano ele (Chico Spinoza) fez uma homenagem a Rosa Magalhães e me chamou. Falou para esquecermos aquelas coisas e que gostava do meu trabalho. Aí fizemos uma recriação dos leques de 1994. Depois ele fez o enredo sobre o Espirito Santo mas não desfilei com ele porque optei em estar com o Louzada que foi campeão na Vila Isabel”

‘Do desencanto nasce uma Estrela – Surge Samile Cunha’

A transgressora Samile Cunha – Foto Reprodução

O episodio de 2003 poderia ter afastado Samuel Abranches do carnaval de forma definitiva. Porém algo inusitado aconteceu naquele ano. Das cicatrizes, nasceu ela, Samile Cunha. O médico e pensador suíço Carl Jung disse certa vez que “Todos nós nascemos originais e morremos cópias”. Samile Cunha nasceu de Samuel Abranches para mostrar que ser simplesmente cópia da sociedade vigente, como argumenta Jung, existiria apenas no plano teórico. Ela chegou, e aos poucos, foi ocupando seu espaço e quebrando paradigmas na vida de um professor acadêmico.

Um dos primeiros registros do surgimento da Samile Cunha, em 2003.

O alter ego surgiu na quadra da São Clemente entre Outubro e Novembro de 2003. Após incentivar Milton Cunha a fazer mestrado na Faculdade de Letras da UFRJ, os dois ficam muito amigos e próximos. O atual comentarista da Rede Globo teve papel importante no nascimento da personagem que Samuel Abranches personifica na Avenida Marques de Sapucaí. O fato ocorreu na fase do pré carnaval para o enredo Boi voador sobre o Recife: O cordel da galhofa nacional“, que Milton Cunha desenvolvia para o carnaval de 2004 da São Clemente.

Em uma noite na quadra, Milton Cunha me chamou e falou assim: ‘Sam quero que você desenvolva dez chacretes para o desfile, uma espécie de comissão de fundo para abrir ou encerrar um setor aqui da escola’. Aí eu falei assim: ‘Eu faço se você deixar eu desfilar como uma delas’. Ele respondeu que eu desfilaria do que quisesse que seria maravilhoso. O Milton ficou próximo e tenho participação em vários trabalhos dele. Sempre me convida para ir nos eventos. Eu era meio que irmã dele. Tinha evento que ele dizia que eu era a esposa e tinha evento que ele dizia que era uma chacrete mesmo. Daí a Samile caiu no gosto da São Clemente, das pessoas da escola e no meu gosto mesmo“.

Foto Guilherme Camilo

Algumas das figuras mais importantes e distintas da história criaram personagens pelos mais diversos propósitos. Na fantasia, um bom alter ego pode ser vital para ajudar um super-herói esconder sua verdadeira identidade ou como na literatura, onde um escritor subversivo protege a sua reputação da reação da sociedade para atingir seus objetivos. Assim surgiu Samile Cunha, para proteger o Professor acadêmico daquilo que ele não soube processar enquanto artista.

Foto Marcelo O Reilly

Nos anos 2000 a temática do transformismo e do travestismo estava na ordem do dia no ShowBussines Brasileiro. O sobrenome Cunha, que difere das escolhas das famosas Drags que preferem nomes americanizados ou de Divas internacionais, é uma homenagem ao amigo e carnavalesco Milton Cunha por este ter possibilitado o nascimento da personagem.

Seja nos ensaios ou desfile, a passagem de Samile Cunha pela Avenida é um acontecimento

Não queria, por exemplo, um ‘Vogue’, ou uma ‘Fontenele’, porque os transformistas buscam sempre um nome rebuscado. Eu quis ‘Cunha’ como uma marca por trazer brasilidade. É claro que, às vezes, me inspiro em alguns looks da moda internacional, mas acho que o colorido é a forma de expressão do meu trabalho enquanto figurinista e  artista plástico. A Samile pertence ao ideário do Nordeste do Brasil. Pertence os folguedos populares, o folclore nacional e a ordem carnavalesca. Ela também vai até a Idade Média, vai até os bufões e aos seres errantes lá no final do renascimento”.

Com o surgimento da personagem, o professor Samuel perdeu o interesse pelos holofotes dos desfiles. Desfilando como folião desde o final dos anos noventa, o professor não tem mais vontade de vestir fantasias de carnaval, mesmo as criadas por sua ex professora e amiga Rosa Magalhaes. Seu alter ego Samile Cunha está pronta assumindo este papel.

Quase um patrimônio da São Clemente, Samile Cunha posa ao lado do, até então, carnavalesco da escola Jorge Silveira em 2019

Em 2003 a Rosa fez uma alegoria que tinha um Rei Sol que seria eu, estava meio desencantado com o Carnaval e coloquei o Jack Vasconcelos lá. Meses seguintes a Rosa descobriu e ficou um pouco chateada. A  partir deste episodio não desfilei mais com ela. Meio que fiquei na geladeira eu só volto a desfilar com a Rosa quando ela vai para Vila Isabel em 2011. Ela tem um encontro desta vez com a Samile, passando a desenhar para meu alter ego. Quando a Rosa foi para São Clemente em 2015, o presidente Renato, que estava magoado porque eu tinha saído de lá pra destilar em outra escola, tinha tirado a Samile da escola e avisou a Rosa que ela não seria mais destaque. A Rosa, meio chateada, me comunicou. No ano seguinte houve uma conversa e o presidente me chamou de novo para desfilar no enredo ‘Mais de Mil Palhaços no Salão’. Em 2017 em ‘Onisuáquimalipanse’, a Rosa Magalhães me colocou na famosa alegoria dos jardins de Versalhes

São Clemente 2017

Como nem tudo foram flores na surgimento de Samile Cunha, um fato ocorrido em 2003 quando o carnavalesco Renato Lage fazia seu retorno ao Academicos do Salgueiro também ficou marcado como aprendizado na bela trajetória da vedete. Ao saber que Samuel estava fora da Mocidade naquele carnaval, o mestre da cenografia convidou o artista para ajudar no enredo “Salgueiro, minha paixão, minha raiz – 50 Anos de glórias“. Abranches ficou responsável pelas roupas de composições de carro. A parceria com o casal Lage durou até 2012, quando uma lamentável decisão fez com que a famosa personagem se afastasse dos desfiles da academia do samba até os dias de hoje.

Fiz alguns trabalhos com o casal Marcia e Renato Lage até o ano do ‘Cordel Branco e Encarnado’, em 2012. A carnavalesca Marcia Lage me cortou daquele carnaval. Ela pediu para me avisar que não tinha personagem para Samile. Até ali, estava muito feliz na Escola. O João Gustavo Melo, que naquela época era Diretor, me avisou pela rede social que não havia personagem para meu alter ego. Entrei em contato com a Márcia pelo facebook mesmo, e ela me responde assim: ‘Qual foi a parte da frase que você não entendeu? Não há personagem para você’. Mandei ela para aquele lugar e desde então não desfilei mais com os Lajes“.

Adotada como irmã, sempre que pode Samile Cunha desfila com os Carnavalescos Cid Carvalho e Alexandre Louzada

Amada por todos, hoje Samile Cunha é assumidamente uma personagem símbolo das Escolas de Samba Unidos de Vila Isabel e Paraiso Tuiuti. Adotada como irmã dos carnavalescos Cid Carvalho e Alexandre Louzada, sempre que pode, desfila nas escolas onde estes artistas estão. Quando seu ex aluno Jack Vasconcelos esteve à frente dos enredos da Paraiso do Tuiuti, Samuel Abranches, muito mais envolvido e comprometido com a confecção da festa, levava seus alunos para praticar o trabalho coletivo de construção artística.

Convidados do carnavalesco Leonardo Bora, Samile Cunha no Desfile da Cubano em 2019 com seu ex aluno Jack Vasconcelos,- Foto Reprodução

Enquanto presente avenida, Samile Cunha cumpria seu papel de ajudar a abrilhantar a festa até de escolas fora do grupo Especial. A personagem também integrou oficialmente o quadro de Destaques da Estácio de Sá na série A do carnaval carioca.

Lançamento do livro Transconexões, Memórias e Heterodoxia – Foto Jonas Maia

Em 2014, Samuel Abranches publicou o livro Transconexões, Memórias e Heterodoxia pela editora Rio Book’s. Trata-se de uma revisão da personagem Samile Cunha. Uma tentativa de entendimento de coisas como identidade e como ele, o professor, lida com uma figura que toma conta de doze horas diárias da sua vida. Nos dias atuais, ele tem aprendido conviver com a personagem. Ainda faz alguns trabalhos de barracão, enquanto Samile tem convicção que vai desfilar na avenida por muitos carnavais.

Não é crise indenitária, não é crise de gênero, não é crise com o meu corpo. Mas a construção da personagem toca nestes pontos. Estou relendo a Samile e percebo que ela é representação. Ela foi a possibilidade conseguir administrar uma decepção dentro da festa. O Samuel já não sentia mais prazer em participar dos desfiles. É claro que o figurinista ama os bastidores da festa, ama o chão de barracão, trabalhar com sucata, com reaproveitamento. Nos últimos anos tenho ajudado o Edson Pereira (Carnavalesco) com participação dos meus alunos. Fiz o ballet da segunda alegoria da Viradouro em 2018 e uma ala de duzentos escravos em 2019 na Vila Isabel“.

Samile Cunha com Edson Pereira, carnavalesco da Unidos de Vila Isabel

Samile Cunha ganhou os palcos dos teatros, o cinema e a TV. Em 2009, o diretor Felipe Herzog montou o peça “Agora Inês é morta” que rodou casas de espetáculos no Estado do Rio de Janeiro e contou com Samile no papel denominado “A Morte“. Também fez parte do Acadêmicos do RJTV, um quadro comandado por Milton Cunha no diário RJ1 da Rede Globo de Televisão.

Samuel dá vida a Samile, empresta o corpo e a voz. Ela recebe o que há de melhor no Samuel. Ele, por ser um pouco mais retraído, se esconde, olha para Samile e enxerga o dom do humor e da ironia. A Samile não é acadêmica, pode falar errado, pode inclusive dar opinião adversa do Samuel. É nesse sentido que ela transborda em descontração e o Samuel fica preso na figura do professor acadêmico que não pode errar. Samile é a possibilidade do riso, da descontração, e principalmente a possibilidade do erro.

Samuel Abrantes no trabalho da exposição “Sertão Reinventado”, resultado das investigações teóricas e estéticas no universo do Auto da Compadecida de Ariano Suassuna,

Na avenida (Samile) não é apenas um folião que bota uma peruca, uma roupa. Há um redesenho do corpo do Samuel no corpo da Samile. Isso se dá ao forçar um seio que eu não tenho ou de modelar uma curva feminina. Uso espartilhos extremamente apertados para simular uma cintura. Na maquiagem tem a coisa de afinar o nariz com contrates fazendo a face mais feminina. Tenho uma outra questão nessa construção identitária, que é a maneira como a Samile reage ao desconhecido. A possibilidade de se perceber é refletido no olhar do outro. A Samile age no imaginário das pessoas. Elas ficam esperando qual a roupa que ela vai usar. Cria-se expectativa em torno da personagem. Diferente dela, o Samuel sempre vai chegar de calça jeans e camiseta

Samile vive as experiências e experimentações artísticas do professor Samuel Abranches.

Naturalmente os desfiles das escolas de samba passam por constantes mudanças estéticas  A festa, que sofreu sua primeira mudança no final dos sessenta, atualmente é dominada justamente por artistas plásticos oriundos das Belas Artes. Muitos torcem o nariz para a nova onda dos ditos “artistas acadêmicos”, inseridos naquela manifestação que possui origens e características populares. Samuel não vê por este lado e acredita que a renovação é necessária.

Foto Marcelo O Reilly

Não sou refém do saudosismo no sentido de achar que tem que voltar alguma coisa do passado, acho que a vida é cíclica, que o tempo todo a gente retoma coisas do passado. Mas em nome da festa, da instituição escola de samba, acho que a mudança é fundamental. A chegada de um Paulo Barros com um novo olhar sobre a festa, criticado por alguns e aplaudido por outros mesmo assim tem sua importância. Depois a chegada do Leonardo Bora com o Haddad, o Marcos Ferreira com o Tarcísio, e o próprio Jack Vasconcelos, é o movimento de transformação e ele precisa continuar. A festa é movimento, sempre“.

Foto Diego Mendes

Com a chegada da pandemia do Covid-19 no ano passado, o carnaval de 2021 não pode ser realizado. Confiante no avanço da vacinação, a Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro dá como certa a realizar os próximos desfiles em 2022. O professor de artes Samuel Abranches ainda enxerga de forma cética qualquer possibilidade de algum evento que envolva tantas pessoas aglomeradas nos próximos meses.

O meu pensamento, dentro desse novo normal, é em função de qual será saída para esta crise? Fico muito atento ao que se especula na internet e acho que vai chegar um momento que vão encontrar uma solução. Tenho pensado muito ao longo dessa clausura, me readaptando com a linguagem do computador, com o virtual. Não peguei minha máquina de costura nesses últimos meses para construir figurinos“.

Colecionador de bonecas, Samuel possui em torno de 600 exemplares de vários países, além de outras regionais. O professor aproveitou a quarentena para organizar seu acervo.

Passei esses últimos meses fazendo vitrine para minhas bonecas. Estou catalogando e fazendo inventário da minha coleção, assim saio da tensão e de pensar em carnaval neste momento. Converso quase que diariamente com Rosa Magalhães por WhatsApp, mas não tocamos em desfile, como se tivesse um sentimento de interdição. Tenho um compromisso com a vida e eu sou extremamente contra a as aglomerações. Não consigo uma figura de linguagem que possa traduzir o sentimento de vazio da falta de poder exercitar a construção das minhas fantasias. Uma tensão por saber que os próprios administram a festa, não sabem o que será até o próximo ano.

Mais um final de desfile – Foto Márcio Paloschi

Sempre querido por seus alunos e discípulos, o professor Samuel Abranches continua fazendo seu trabalho na Universidade. Enquanto a personagem Samile Cunha ganhou seu espaço no ambiente das quadras, eventos e desfiles das Escolas de Samba. Quando voltarem as atividades pré carnavalescas, lá estará ela, seguindo seu caminho e deixando alegria por onde passar.

Foto Ricardo Almeida

Lembro do Wilsinho Alves (Diretor de Carnaval da União da Ilha do Governador) que ficou decepcionado que por trás da Samile tinha um homem de barba e careca. Estávamos em uma festa no Canecão e alguém falou quem eu era. Ele disse que não acreditava e cobrou onde ela estava (risos). Outro exemplo é o carinho indescritível das baianas do Salgueiro. Elas me absorvem, me tomam e passo a fazer parte do grupo delas em qualquer evento. Quando o Samuel leva, por exemplo, uma pessoa de fora que vem pesquisar o carnaval do Rio, a minha opção sempre é levar na Vila Isabel, por conta da recepção e da liberdade que me dão. Trata-se de reconhecimento, que é um sentimento extremamente positivo que a Samile ganhou e conquistou nestes dezessete anos de existência“.

Samile e festa com as baianas do acadêmicos do Salgueiro

Samile é subversiva sem apelar para a vulgaridade, Samuel é enigmático sem cair no estereótipo característico do perfil. Duas personalidades tão distintas convivem no mesmo corpo sem riscos de sofrerem despersonalização. Ambos amam o que fazem e convivem em harmonia. Como no musical Victor ou Victoria, de Blake Edwards, personagem e ator seguem seus destinos encantando a todos, seja no meio acadêmico, seja ao lado do povo.

Por Waldir Tavares e Henrique Sathler

19 COMENTÁRIOS

  1. Que retrospectiva linda!
    Fiz parte de tantos desses momentos, me emocionei.
    Saudades de um fervo e de aglomerar com Samile Cunha e ir as Feiras com Samuel Abrantes.
    Parabéns a toda equipe do site.

  2. Parabéns irmão, nos orgulhamos do aprendizado. Carregamos muito da sua Arte em nossas criações. Que prazer ter convivido tantos anos com pessoas importantíssimas do Carnaval através do seu trabalho. Continue escrevendo sua história, você merece todo reconhecimento Artístico que o Universo possa oferecer.

    • Família não conta, mas Dill Costa deixou registrado ai, os tempo de Estácio…Ilha. Mocidade e Tijuca…..que vc tb participou… Axé!! Samile Cunha.

  3. Uma jóia rara do carnaval e das artes! Artista espetacular!…um mestre …que sempre está disposto a nos ensinar um pouquinho do seu dom …! Sucesso sempre Sam!!

  4. Parabéns meu primo! Que prazer ler um pouco da sua história… Obrigada por citar meu pai( in memorian) . Fiquei muito feliz! Amei conhecer um pouco mais sobre a Samile… Uma pessoa tão natural, tão encantadora, e que pode errar, de tão natural que é rsrs. Parabéns e sucesso!!!

  5. Lágrimas cairam agora, não nego.
    O Professor Samuel Abranches é um grande destaque e Samille Cunha é uma personalidade marcante no carnaval!
    Vida longa aos dois!

  6. Muito bom poder acompanhar de perto a história dessa personalidade do carnaval carioca. Linda homenagem ao mestre Samuel Abrantes. Evoé.

  7. Que lindo saudade de vc!! me lembro de suas aulas na UVA vc lançando o apagador nos alunos do curso de Moda que não prestavam atenção. 🤣🤣🤣🤣🤣
    Um beijo Grande Geysa

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