ROSA MAGALHAES

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“Envergonhe-se quem pensar mal disso”

A professora, artista plástica, figurinista, cenógrafa e carnavalesca formada na EBA, Rosa Magalhães, é personagem fundamental nesse processo de antropofagia na reconstrução da atualidade do carnaval moderno.

Rosa Lúcia Benedetti Magalhães, mais conhecida como Rosa Magalhães, é uma a maior detentora de títulos na era Sambódromo, sendo campeã em 1982 (antes do Sambódromo),1994, 1995, 1999, 2000, 2001 e 2013.

Ela é filha do escritor e acadêmico Raimundo Magalhães Júnior, integrante do júri do primeiro desfile das escolas de samba, em 1932, e imortal da Academia Brasileira de Letras, e da autora teatral e pioneira nas artes cênicas infantis, Lúcia Benedetti.
Com nomes tão importantes na família, Rosa cresceu em Copacabana entre artistas e intelectuais.

Formada em Pintura, pela Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro e em Cenografia, pela Escola de Teatro da Uni-Rio, foi também professora de Cenografia e Indumentária na Escola de Belas Artes da UFRJ e da Faculdade de Arquitetura Benett.

Sua participação no carnaval se iniciou quando Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues a convidaram a se juntar ao grupo que faria o carnaval 1971 do Salgueiro, juntamente com Maria Augusta, Lícia Lacerda e Joãosinho Trinta.
Trabalhando em um quintal de uma casa em Botafogo que foi usado para construir todas as alegorias do Salgueiro para aquele ano. Rosa decorou bolinhas de isopor, para facilitar o trabalho, usava o fogão da mesma casa emprestada.

Depois desenhou figurinos para a Beija-Flor e trabalhou no Departamento Cultural da Portela onde, em dupla com Lícia Lacerda, criou figurinos e alegorias para enredos desenvolvidos por Hiram Araújo.

Em 1982, Rosa e Lícia Lacerda, amiga de faculdade, assumem pela primeira vez um carnaval, no Império Serrano, onde realizaram o famoso enredo campeão daquele ano “Bumbum Paticumbum Prugurundum”. O enredo era do Pamplona e contava a história das escolas de samba até então, mas ela não gostava do nome dado pelo mestre, “Praça Onze, Candelária, sapeca aí”. Então decidiu trocar por uma onomatopeia de Ismael Silva que expressava o ritmo do samba.

Em 1984, a dupla é responsável pelo carnaval da Imperatriz Leopoldinense. Apesar da grande dificuldade financeira por que passava, a escola consegue se classificar em quatro lugar, empatada com o poderoso Salgueiro que festejava a volta de Arlindo Rodrigues. Por seu trabalho naquele ano, as duas receberiam o Estandarte de Ouro de personalidade.

Em 1987, ainda juntas, Rosa e Lícia assumem a Estácio de Sá que obtém grande sucesso com seu enredo “Tititi do sapoti. Seria o último trabalho da dupla, pois Lícia se afasta do carnaval para se dedicar a vida pessoal.

O ano de 1988 marca o primeiro carnaval exclusivo de Rosa Magalhães, ainda na Estácio, com o enredo “O boi dá bode”. No ano seguinte, continuando na escola, a carnavalesca apresenta outro enredo de sucesso: “Um, dois, feijão com arroz”.

De volta ao Salgueiro, dessa vez como carnavalesca, conquista o terceiro lugar (1990) e o vice-campeonato (1991). Porém o presidente Miro Garcia a demite e alegou que a carnavalesca usava rosa e lilás demais nas fantasias do velho “branco e encarnado” Salgueiro.

De 1992 a 2009 assumiu o carnaval da Imperatriz Leopoldinense onde ajudaria a escola a conquistar cinco de seus oito campeonatos, incluindo o primeiro tricampeonato da “Era Sambódromo” (1999, 2000 e 2001).

Na Imperatriz Rosa realizaria carnavais inesquecíveis como “Marquês que é marquês do saçarico é freguês” (vice-campeã, 1993), “Catarina de Médici na corte dos Tupinambos e Tabajeres” (campeã, 1994), “Mais vale um jegue que me carregue que um camelo que me derrube, lá no Ceará” (campeã, 1995), “Leopoldina, Imperatriz do Brasil” (vice-campeã, 1996), “Quem descobriu o Brasil, foi seu Cabral, no dia 22 de abril, dois meses depois do carnaval” (campeã, 2000) e “João e Marias” (6º lugar, 2008) entre tantos outros.

Após o carnaval assume a cerimonias encerramento dos Pan Americanos do Rio de janeiro. Por este trabalho, é indicada e vence em Nova York, a categoria figurino do prêmio Emmy, um dos mais importantes da televisão mundial.

O ano de 2009 foi sua última passagem pela Imperatriz, feito que durou 18 anos e o maior casamento da história carnavalesca. Na verde e branca consagrou-se como a maior campeã do Sambódromo, com seis títulos conquistados para uma das mais importantes artistas brasileiras contemporâneas. Porém sua saída da escola se deu sem muitas explicações.

Após destilar suas pérolas literárias e narrativas sofisticadas na Imperatriz, no ano de 2010 assumiu o carnaval da União da Ilha com a intenção de mantê-la no Grupo Especial, o que aconteceu. Missão cumprida, deixa a escola poucas semanas após do carnaval. Este ano se dividiu entre os grupos Especial e Acesso, onde faz o carnaval do Império serrano que alcançou a sexta colocação e também deixou a escola.

Para 2011, assume o carnaval da Vila Isabel.
Onde em 2013, conquista o campeonato do Grupo Especial com a escola de Noel, que apresentou o enredo “A Vila canta o Brasil celeiro do mundo – água no feijão que chegou mais um…”.

Depois das comemorações do título e até notícias de que teria renovado seu contrato com a azul e branca, Rosa sai de forma conturbada da escola, inclusive com boatos de dividas por partes da escola para com a carnavalesca.

No mesmo ano de 2013 fora convidada para desenvolver, junto a uma comissão, o enredo da Unidos de Lucas, sobre sua mãe, Lúcia Benedetti. Por uma incompatibilidade de agendas, designou seu assistente Mauro Leite para a elaboração do projeto alegórico da vermelho e amarelo da Zona Norte, ainda que sob sua supervisão.

Em 2014 a disponibilidade da artista gera uma correria de bastidores para contratá-la, mas a Mangueira, por meio de seu presidente eleito confirmou Rosa como carnavalesca da escola. A passagem foi meteórica. Neste ano Rosa divide seu tempo na ponte área, pois também fez o carnaval da Dragões da Real em São Paulo.

Após especulações sobre aposentadoria, Rosa acertou com a São Clemente com o desafio de afastar a sina de “iô-iô” (apta a descer até mesmo antes de desfilar) que a escola carregava e levar a escola ao sonhado desfile das campeãs.

Em seu primeiro desfile pela Amarela e Preta da Zona Sul, o objetivo de Rosa de livrar a escola do rotulo de escola “marcada para descer” foi alcançado com êxito, tendo em vista que segundo a crítica especializada e o público em geral o desfile de 2015 foi o melhor da escola em toda sua história e um dos melhores do carnaval, tendo inclusive sido premiado com o Estandarte de Ouro de Melhor Enredo.

Ao final da apuração, a escola obteve a oitava colocação, ainda que para muitos merecesse uma vaga no sábado das campeãs.

Para 2016, de contrato renovado com a São Clemente, Rosa aposta em um enredo crítico e irreverente para colocar a escola entre as seis melhores do carnaval. O título do enredo é “Mais de Mil Palhaços No Salão”. Consegue um nono lugar
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Pausa no carnaval e assume a direção do encerramento dos Jogos Olímpicos Rio/2016. Sendo elogiada mundialmente. O evento celebrou a cultura popular brasileira: samba, forró e frevo.

De volta ao carnaval, ainda na São Clemente, em 2017 fez um carnaval intitulado “Onisuáquimalipanse” sobre a história de corrupção que levou à construção do Palácio de Versailles. O título do enredo foi uma brincadeira com a expressão “Honit sois qui mal y pense”, traduzida livremente como “Envergonhe-se quem pensar mal disso”. Mais um enredo desenvolvido por Rosa com abordagem em que os fatos históricos servem como mote, mas a artista busca o inusitado, em situações jocosas, risíveis ou ainda “frutos da imaginação”, ao hibridizar o real e o imaginário numa mesma proposta de enredo. Rosa se despede da Amarela e Preta de Botafogo que se mantem na mesma posição do ultimo carnaval, um nono lugar.

Para o carnaval de 2018, Rosa foi contratada pela Portela que havia conquistado o campeonato do último ano e apesar da euforia pelo título, vivia a apreensão de perder o carnavalesco campeão Paulo Barros para Vila Isabel.

Nas terras de Oswaldo Cruz, desenvolveu o enredo “De repente de lá pra cá e dirrepente daqui pra lá”, que pretendia contar a história de judeus e europeus que se estabeleceram na cidade do Recife (PE) holandês no século XVII e que, anos depois, foram expulsos pelos portugueses, ajudaram a fundar a cidade de Nova York. O trabalho leva a escola ao quarto lugar no carnaval de 2018.

No último carnaval, ainda na Portela, coloca na avenida um enredo sobre Clara Nunes e o bairro de Madureira” intitulado: Na Madureira Moderníssima, hei sempre de ouvir cantar um sabiá”. A escola, fez um belo desfile, ficando novamente no 4° lugar.

Dias após a apuração, no entanto, a Portela anuncia o desligamento da carnavalesca, com elogios e gratidão de ambas as partes.

Mas “A saudade apertou e ela voltou”
Para 2020, um dos maiores nomes do carnaval, a querida Professora Rosa voltará ao “Berço do Samba” Estácio de Sá.
E já de cara deixa no ar uma nova proposta a partir do título.

Rosa que é adepta dos títulos de enredo originais e complexos, promete um desfile bem interessante com o simplório título “Pedra”.

A arte de Rosa Magalhães para o carnaval já passeou por diversas galerias e museus de arte pelo mundo.

Rosa é a única campeã em 4 décadas diferentes. Anos 80 com o Império, 90 e 2000 com a Imperatriz e anos 2010 com a Vila Isabel. O que mostra sua capacidade de se renovar como todo grande artista.

Inspirando-me em um intrigante titulo de enredo da mesma grande carnavalesca, “Onisuáquimalipanse”. Ou seja…

“Envergonhe-se quem pensar mal disso tudo que Rosa Magalhães já fez e ainda pode fazer para o cenário artístico plástico e cenografico do Brasil”

Por Waldir Tavares
Fotos Wigder Frota

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