RJ – Retrospectiva dos desfiles nos dez primeiros anos do sambódromo carioca – Estácio de Sá

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Dentro dos dez primeiros anos da nova passarela da Marquês de Sapucaí foi que a Estácio de Sá alcançou seu primeiro e único título no grupo especial das escolas de samba, tendo isso acontecido no carnaval de 1992 com o inesquecível enredo “Paulicéia desvairada – 70 anos de Modernismo” dos carnavalescos Mário Monteiro e Chico Spinoza.

Estácio de Sá – Desfile de 1992

No carnaval carioca de 1983 a agremiação desfilou no grupo de acesso da época, já que no carnaval de 1982 a Estácio de Sá havia sido rebaixada.

Com a apresentação do enredo “Orfeu do carnaval” do carnavalesco Sylvio Cunha em 1983 a escola conquistou a primeira colocação, situação esta que lhe possibilitou desfilar no grupo principal no ano seguinte, justamente o primeiro ano da nova passarela do sambódromo carioca.

 

Para a inauguração da nova pista da Marquês de Sapucaí a Estácio desfilou na segunda-feira de carnaval, abrindo os desfiles daquela noite, quando Sylvio Cunha, no seu segundo ano como carnavalesco da escola, desenvolveu o enredo “Quem é você?“, querendo relembrar os antigos carnavais.

Esse desfile de 1984 também marca como o primeiro carnaval da escola com o nome de “Estácio de Sá”, mesmo que na época houvesse resistência dentro da escola para essa mudança de nome.

Foi um desfile com foco na figura do folião mascarado que aproveita a folia para extravasar sua emoção, como arlequins, pierrôs e colombinas, dentre outros.

O samba ajudou muito a evolução da escola na voz de Dominguinhos do Estácio, que neste ano conquistou seu primeiro Estandarte de Ouro como intérprete.

Por fim a escola acabou na sexta colocação, dentre as sete escolas que desfilaram na segunda-feira, colocação esta que a deixou fora da disputa pelo supercampeonato daquele carnaval.

Para 1985 a agremiação vermelho e branco resolveu pela troca de carnavalesco e para o posto foi contratado Fernando Alvarez que apresentou o enredo “Chora, chorões”, onde o choro era o astro do enredo apresentado pela escola, com um grande samba enredo que acabou vencendo o Estandarte de Ouro nesse quesito. Nesse ano o conjunto apresentado pela escola deixou a desejar.

O carnavalesco fez o uso de muitos corações em carros e fantasias apresentadas pela escola, com destaque para a alegoria que tinha por objetivo homenagear Pixinguinha e o choro “Carinhoso”.

Com este desfile a escola terminou na décima colocação, num ano em que a grande campeã foi a Mocidade Independente de Padre Miguel, seguido da Beija Flor de Nilópolis.

Para o carnaval seguinte foi a vez de Oswaldo Jardim assumir o posto de carnavalesco da agremiação e desenvolver o enredo “Prata da Noite”, com o qual a escola repetiu a décima colocação do ano anterior.

Mas já na época de preparação do desfile a Estácio foi surpreendida pela morte do presidente Antônio Gentil, assassinado no dia 2 de dezembro de 1985, a apenas 100 metros da quadra da agremiação.

Nesse carnaval o objetivo da Estácio era homenagear a figura de Grande Otelo, tendo o artista desfilado no último carro apresentado pela escola, acompanhado de dezenas de mulatas, tendo esse desfile sido considerado como o melhor da agremiação desde 1984.

A escola notabilizou-se pelo grande número de passistas que apresentou, tendo os componentes da bateria, como forma de homenagear o artista, desfilado com seus rostos pintados de preto.

Estácio de Sá – Desfile de 1986

Outro destaque deste desfile foi a alegoria que fazia referência à Macunaíma, um dos personagens mais marcantes interpretados por Grande Otelo.

O artista passou na última alegoria ao lado de dezenas de mulatas e esbanjou a simpatia que lhe era peculiar. Foi o fecho de uma agradável apresentação, a melhor da Estácio na era Sambódromo até então.

Esse desfile deu a Estação Primeira de Mangueira mais um título, seguida de perto pela Beija Flor de Nilópolis.

Para 1987 a professora Rosa Magalhães, acompanhada de Lícia Lacerda assumiram a escola como carnavalescas, tendo Rosa permanecido até o desfile de 1989.

Primeiramente a dupla de artistas desenvolveu o enredo “O ti-ti-ti do sapoti”, desfile este que teve o samba dos compositores Darcy do Nascimento, Djalma Branco e Dominguinhos do Estácio, obra esta até nossos dias muito cantada. Esse samba já no período pré-carnavalesco explodiu nas rádios pelo Brasil.

A Estácio, em seu desfile andou por diversos países onde o fruto sapoti era muito apreciado, como a Índia e os Estados Unidos, país onde o sapoti virou goma de mascar.

Tudo aquilo apresentado pela escola, credenciou este desfile como a melhor apresentação da escola desde a inauguração do novo sambódromo carioca, tanto que a agremiação ficou na quarta colocação empatada em número de pontos com a Beija Flor de Nilópolis.

Prosseguindo como carnavalesca da escola, para 1988 Rosa Magalhaes apresentou o enredo O boi dá bode”, enredo no qual o objetivo da Estácio era mostrar na passarela a história do bovino desde o Egito Antigo até a atualidade, com uma crítica ao Plano Cruzado.

A escola desfilou com cerca de 4000 componentes, com destaque para Bicho Novo e Andréia, como primeiro casal de porta bandeira e mestre sala, ele o mais experiente mestre sala naquele ano e ela a mais nova porta bandeira, tendo sido um outro ponto alto desse desfile as fantasias criadas pela carnavalesca Rosa Magalhães, com criatividade e luxo. Em termos de alegorias, o destaque foi para o carro que fazia referência ao Bumba-Meu-Boi e do Boi Bumbá.

Num carnaval onde a Unidos de Vila Isabel arrasou com sua Kizomba, conquistando assim o primeiro lugar, coube a Estácio de Sá ficar com a  nona colocação, com 204 pontos.

Por fim para 1989 a professora Rosa Magalhães desenvolveu para a Estácio de Sá o enredo “Um, dois, feijão com arroz”, ano em que aconteceu a saída de Dominguinhos do Estácio do carro de som da escola, tendo a agremiação apresentado um samba considerado fraco e muito extenso na época.

O enredo da escola tinha por objetivo destacar as duas paixões nacionais, que estão no prato do brasileiro com muita frequência, o arroz e o feijão, mas a imprensa da época considerou a apresentação da escola confusa no desenvolvimento do enredo.

Esse desfile levou a escola a obter apenas a  nona colocação de novo, assim como aconteceu no carnaval anterior.

Mário Monteiro substituiu Rosa Magalhães para o desenvolvimento do carnaval da escola em 1990, tendo permanecido na escola até o desfile de  1992. Para esse primeiro ano na escola Mário apresentou o enredo Langsdorff, delírio na Sapucaí”, trazendo a história de Langsdorff, um barão russo que vivia no Brasil e via alucinações nas nossas florestas.

Rixxa assumiu o carro de som da escola nesse ano e a parte plástica do desfile foi muito bem apresentada, mas de novo por questões de evolução a bateria estaciana passou direto pelo segundo boxe instalado na Sapucaí.

Estácio de Sá – Desfile de 1990

No geral o desfile não impressionou ao público presente na Sapucaí, mas agradou o corpo de jurados, já que a agremiação conquistou a quinta colocação, melhor conquista da escola desde o carnaval de 1987.

A quinta colocação geral se repetiu no carnaval de 1991, quando Mário Monteiro apresentou o enredo “Brasil, brega e kitsch”, enredo este onde a escola destacava a perda dos valores culturais brasileiros e a sociedade de consumo.

Estácio de Sá – Desfile de 1991

Destaque nesse desfile da Estácio de Sá foi seu conjunto de alegorias e fantasias, tendo sido considerado o segundo melhor desfile da primeira noite naquele carnaval, situação está confirmada depois de passada a apuração das notas, voltando a escola a desfilar na noite das campeãs do Rio.

Para seu desfile de 1992 a escola incorporou a figura de Chico Spinoza ao lado de Mário Monteiro como carnavalescos da agremiação vermelho e branco, para dessa vez desenvolverem o enredo “Paulicéia Desvairada – 70 anos de Modernismo”, desfile este que deu a escola seu primeiro e único campeonato no grupo especial das escolas de samba do Rio de Janeiro, como já referido no início deste texto.

O  samba de enredo, bastante popular, foi capaz de contar com excelência o enredo em homenagem aos grandes artistas que trouxeram o Modernismo ao Brasil, com destaque para Heitor Villa Lobos, Di Cavalcanti, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Ronald de Carvalho, dentre outros. O objetivo da escola era levar o público de volta a Semana de Arte Moderna  de 1922.

Dominguinhos do Estácio estava de volta ao carro de som da escola, depois da saída de Rixxa. Claudinho e Selminha Sorriso eram o primeiro casal de mestre sala e porta bandeira estaciano.

Como a escola vinha de boas colocações no carnavais anteriores, era grande a expectativa por este desfile da agremiação, que passou muito empolgada na passarela da Sapucaí, com destaque para a comissão de frente e seus integrantes no alto de pernas de pau.

Estácio de Sá – Desfile de 1992

Alegorias bem concebidas como o abre alas e o carro do trem caipira até hoje povoam a memória dos amantes do carnaval brasileiro, com destaque também para a ala de crianças apresentada pela escola, fantasiadas de pierrots.

Chegando a área da apoteose, tinha-se a impressão de que o desfile da Estácio estava apenas no começo, frente a energia de componentes e público, que não paravam de gritar “é campeã” e assim foi, depois de realizada a apuração na quarta-feira de cinzas. Como vice campeã ficou a Mocidade Independente de Padre Miguel.

Nesse desfile da Estácio de Sá para 1992, destaque para a presença do eterno campeão da Fórmula 1 Airton Senna no desfile da escola durante a noite das campeãs, arriscando uns passos ao lado da rainha da bateria Monique Evans.

No desfile onde eram comemorados os  dez anos da nova Marquês de Sapucaí, Chico Spinosa assume o posto de carnavalesco da Estácio de Sá em carreira solo, desenvolvendo o enredo “A dança da lua”, no qual o carnavalesco dividiu a agremiação em cinco setores, dois destes setores com uma estética indígena-Carajá (Lua Nova e Crescente) e nos outros três uma estética hebraica e/ou conceitual (Luas Cheia, Minguante e Negra).

O campeonato do ano anterior fez com que a escola inchasse, daí ter vindo para este desfile com 4800 integrantes, divididos em 36 alas com dez alegorias. Monique Evans continuava a reinar a frente dos ritmistas da Estácio.

O samba, de autoria dos compositores Luciano Primo e Wilsinho Paz era muito cantado já desde a época de pré carnaval.

Nesse desfile destaque para o uso de materiais alternativos e até mesmo inéditos como alumínio, varetas plásticas, tecidos laminados e penas falsas em fantasias e alegorias pelo carnavalesco.

Ao final da apuração a escola desta vez ficou com a sexta colocação, situação esta que levou à saída de Chico Spinoza da escola para 1994, mas isso vai ser objeto de uma outra coluna no futuro.

Até o carnaval de 1993 a Estácio de Sá tinha cinco campeonatos no grupo de acesso carioca, nos anos de 1967, 1973, 1978, 1981 e 1983.

Com relação a premiação do Estandarte de Ouro, do jornal O Globo, a Estácio de Sá, nos dez primeiros anos da nova passarela da Sapucaí, foi premiada como melhor escola e ala de crianças no ano de 1992, melhor samba enredo em 1985, melhor enredo em 1992, melhor interprete e revelação em 1984, melhor bateria em 1985, porta bandeira em 1992, comissão de frente em 1992, melhor ala e passista feminino em 1988,  personalidade em 1987.

Por Sidnei Louro Jorge Júnior

 

 

 

 

 

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