RJ – Retrospectiva dos desfiles nos dez primeiros anos do sambódromo carioca – Beija Flor de Nilópolis

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O desfile da Beija Flor de Nilópolis no carnaval carioca de 1983, que lhe rendeu a quinta estrela em seu pavilhão, pela vitória alcançada com o enredo “A grande constelação das estrelas negras” desfile este arquitetado pelo gênio Joãosinho Trinta, encerrou um ciclo no carnaval do Rio de janeiro, uma vez que para o próximo ano a Cidade Maravilhosa ganharia uma pista de desfile definitiva, construída em tempo recorde durante o ano de 1983 e inaugurada já para os festejos de Momo de 1984.

Beija Flor de Nilópolis – Carnaval de 1983 – Clementina de Jesus

O projeto do novo sambódromo carioca, oficialmente chamado de Passarela Professor Darcy Ribeiro, foi de autoria do renomado arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, tendo sido concretizado durante o primeiro governo do gaúcho Leonel de Moura Brizola à frente do Rio de Janeiro, que aconteceu de 1983-1987, tendo esta obra tido uma duração de cerca de 120 dias.

Sambódromo carioca durante sua construção no ano de 1983

Durante os  dez primeiros carnavais no novo sambódromo do Rio (1984-1993), a Beija Flor não colocou mais nenhum troféu de primeiro lugar em sua galeria, tendo como melhores colocações os vice-campeonatos de 1985/1986 e 1989/1990, mesmo que tenha realizado desfiles inesquecíveis, com destaque para o desfile de 1989, com o enredo “Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia” do gênio Joãosinho Trinta, desfile este que até hoje povoa a memória dos amantes do carnaval pelo impacto causado, pela quebra de paradigmas que trouxe.

Beija Flor – 1988 – Pináh

Na nova Marquês de Sapucaí, a Beija Flor desfilou sob a batuta do inesquecível carnavalesco Joãosinho Trinta de 1984 à 1992, ou seja foram nove anos, onde a pior colocação se deu justamente no último ano de João na escola, quando a agremiação da baixada fluminense ficou fora do desfile das campeãs pela sétima colocação obtida, situação esta que não acontecia desde o carnaval de 1975, um ano antes da chegada de J30 à escola nilopolitana.

Tendo sido a grande vitoriosa em 1983, grandes eram as expectativas com o desfile da escola no ano da inauguração da nova pista de desfiles do Rio. Para esse carnaval de 1984 a escola preparou um desfile baseado no enredo “O gigante em berço esplêndido”, tendo obtido a terceira colocação entre as escolas que desfilaram na segunda-feira e  o quinto lugar geral na disputa pelo supercampeonato, tendo ficado apenas a Caprichosos de Pilares atrás da agremiação nilopolitana nessa competição pelo supercampeonato inédita até hoje.

Nesse ano a disputa foi diferente daquilo que usualmente acontecia até ali, uma vez que houve competição entre as escolas que desfilaram no domingo e na segunda-feira de carnaval de forma separada e posteriormente houve a disputa de um super campeonato envolvendo as três melhores escolas de cada dia.

Para muitos o grande desafio deste primeiro ano de Sapucaí, com nova pista de desfile, foi o amplo espaço no final da pista, a denominada Praça da Apoteose, onde algumas escolas estranharam aquele grande espaço ao final do desfile, sobre como melhor ocupá-lo.

“A Lapa de Adão e Eva”, aquele tipo de enredo favorito do carnavalesco Joãosinho Trinta, onde sua imaginação não tinha limites para desenvolver uma narrativa fabulosa, foi o enredo escolhido pela Deusa da Passarela para  seu desfile de 1985.

O sol já estava alto quando a escola entrou na Sapucaí, com comissão de frente, carro abre alas, bateria e primeiro setor da escola predominantemente nas cores da agremiação, tudo muito claro e brilhante, para logo em seguida acontecer uma explosão de cores vibrantes.

Na apuração das notas desse carnaval, a Beija Flor ficou com o vice-campeonato, tendo a sua frente apenas a Mocidade Independente de Padre Miguel, que tinha sido irrepreensível inusitada com o enredo “Ziriguidum 2001, um carnaval nas estrelas” do carnavalesco Fernando Pinto.

O enredo “O mundo é uma bola” foi o escolhido pela escola para seu desfile em 1986, com a intenção de contar a trajetória do futebol pelas civilizações, desde sua criação e seu grande apreço pelo povo brasileiro, com seus principais personagens e times de maior expressão nacional.

Segundo o sorteio realizado para a ordem de desfile daquele ano, coube a agremiação nilopolitana ser a segunda agremiação a desfilar na segunda-feira de carnaval, atrás apenas da Unidos da Tijuca que abriu os desfiles daquela noite.

Beija Flor de Nilópolis – 1986

Já na concentração e logo no início de seu desfile era possível observar-se uma escola exuberante, rica, muito bem vestida, alegorias grandiosas e com a garra da comunidade nilopolitana, o que já era habitual naquela época, que vinha com sede de título e com a firme intenção de recuperar o ponto mais alto no pódio.

A queima de fogos logo no início do desfile da escola deixava claro que estava entrando uma das agremiações favoritas ao título daquele ano, estando a escola também comemorando os 20 anos de seu primeiro campeonato alcançado no grupo principal das escolas de samba do Rio.

Já bastante  adiantada em seu desfile pela Sapucaí, eis que a escola e o público que estava na Sapucaí foram surpreendidos com um verdadeiro temporal de muita água e vento, que começou bem leve, mas logo em seguida aumentou em sua intensidade. A drenagem da pista da Sapucaí não foi capaz de escoar a água da chuva, tal o grande volume da chuva, o que  fez boa parte da escola desfilar com água pelo tornozelo, totalmente encharcados, mas sem a força de tirar a garra e a alegria dos desfilantes da escola, o que torna este desfile como um dos inesquecíveis realizados pela escola para seus milhares de torcedores.

Divulgados os resultados atribuídos pelo corpo de jurados, coube a escola um novo vice-campeonato, sendo que o título daquele ano ficou com a Estação Primeira de Mangueira com a apresentação do enredo “Caymmi Mostra ao Mundo o que a Bahia e a Mangueira Têm”.

Com seus desfiles realizados na sequência nos anos de 1987 e 1988, com os enredos também assinados por Joãosinho Trinta, “As mágicas luzes da Ribalta” e “Sou negro, do Egito à liberdade” respectivamente, as características principais da escola de opulência, luxo, alegorias gigantescas e muita animação de seus desfilantes mis uma vez foram muito visíveis, mas não tiveram a força de levar a escola a vitória nesses carnavais.

Nesse biênio 1987/1988 a Beija Flor não deixou de frequentar o pódio do carnaval carioca com boas colocações, já que alcançou a quarta colocação falando sobre o teatro e a terceira colocação em 1988 misturando os orixás aos deuses egípcios.

Uma particularidade com relação ao carnaval de 1988, foi a não realização do desfile das campeãs naquele ano em função de um grande temporal que caiu na Cidade Maravilhosa, deixando o Rio em estado de calamidade, situação pelo qual o desfile da Unidos de Vila Isabel, campeã com “Kizomba, a festa da raça” não pôde ser repetido para que quem não assistiu o desfile oficial pudesse curtir esse desfile campeão mais uma vez.

“Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia” foi idealizado por Joãosinho Trinta para o desfile da Beija Flor de 1989, ano em que se comemorava o centenário da república no Brasil.

Beija Flor de Nilópolis – Carnaval de 1989

Mudando totalmente o foco característico da escola sempre com muita opulência, luxo e brilho, a entrada da escola na Sapucaí já mostrava que estas características haviam sido deixadas de lado, pelo menos na cabeça da escola, onde desde a comissão de frente vinham loucos, maltrapilhos e pedintes bradando por seus direitos e querendo ocupar seus lugares na sociedade brasileira, todos aos pés do Cristo Mendigo, que passou pela Sapucaí coberto por plástico preto, em função de uma medida judicial que tinha sido intentada pela Arquidiocese do Rio de Janeiro, ostentando a mensagem icônica “mesmo proibido olhai por nós”.

Esse desfile até hoje é classificado pelos especialistas como um desfile emblemático, sendo por muitos considerado como o maior desfile da história do carnaval. Mas mesmo com todas estas considerações, a Imperatriz Leopoldinense foi a grande campeã de 1989, deixando para a Beija Flor o vice campeonato daquele carnaval.

Beija Flor de Nilópolis – Carnaval de 1990

“Todo mundo nasceu nú” foi o enredo apresentado pela escola nilopolitana para o carnaval de 1990, outro enredo de Joãosinho Trinta apresentado de forma magistral pela comunidade de Nilópolis. A base para a construção desse enredo foi um protesto ao regulamento do carnaval elaborado pela LIESA que proibia a nudez frontal, isso depois da nudez apresentada por Enoli Lara no desfile da União da Ilha do Governador de 1989, quando a escola apresentou “Festa Profana” como enredo.

No carnaval de 1990 de novo a Beija Flor alcançou um vice campeonato, ficando atrás da Mocidade Independente de padre Miguel com seu enredo “Vira, virou, a Mocidade chegou” do carnavalesco Renato Lage e Lilian Rabello.

Beija Flor de Nilópolis – Carnaval de 1991

No carnaval carioca de 1991 a Deusa da Passarela apresentou o enredo “Alice no Brasil das Maravilhas” outro delírio do carnavalesco Joãsinho Trinta, tendo com este desfile alcançado a quarta colocação no cômputo geral.

Já no início do cortejo da escola, desfile este que aconteceu no primeiro dia de desfiles, o performático Jorge Lafon incorporou a figura da Alice do enredo da escola, Joãosinho ao ser entrevistado pela imprensa no início do desfile foi comparado ao coelho maluco que não parava. A ala das baianas era composta por muitas integrantes, que livremente desfilavam, sem as fileiras que hoje viraram padrão em alas de baianas.

Destaque para alegorias grandiosas sem uma única figura humana em sua parte superior.

O ano de 1991 foi o ano do bicampeonato da Mocidade Independente de Padre Miguel com o enredo “Chuê, chuá, as águas vão rolar”, tendo ainda ficado a frente da Beija Flor Acadêmicos do Salgueiro e Imperatriz Leopoldinense.

O carnaval carioca de 1992 marca o último trabalho de genial Joãosinho Trinta a frente da Beija Flor, desta vez com o enredo “Há um ponto de luz na imensidão” com foco na televisão, nas novelas inesquecíveis, no jornalismo e nos personagens deste fantástico meio de comunicação que é a TV.

Beija Flor de Nilópolis – Carnaval de 1992

Nesse desfile de 1992 um casal desfilou completamente despido numa das alegorias da escola, situação esta que fez Joãosinho Trinta ter sido levado à Delegacia de Policia para prestar esclarecimentos, tendo alegado que era uma homenagem à obra do gênio Leonardo Da Vinci.

Por conta de atritos com a diretoria da escola e por escândalos envolvendo a atuação de Joãosinho Trinta num projeto social mantido pela agremiação, esse carnaval de 1992 encerrou o ciclo do artista junto a escola de Nilópolis com um sétimo lugar, a pior colocação da escola em 17 anos de desfiles, como já foi dito, deixando a escola fora do desfile das campeãs.

Beija Flor de Nilópolis – 1993

Joãosinho foi substituído pela carnavalesca e professora da Escola de Belas Artes, Maria Augusta Rodrigues, com quem já tinha trabalhado na Acadêmicos do Salgueiro.

Maria Augusta, com vasta experiência no carnaval carioca, arquitetou para o desfile da Beija Flor no carnaval de 1993 o enredo “Uni-duni-tê, a Beija-Flor escolheu: é você”, desfile este onde a Beija Flor veio multicolorida, voltada para universo das crianças.

A escola veio muita mais leve e colorida, bem diferente daquele padrão colocado por João Trinta de opulência, grandiosidade, e luxo à escola de Nilópolis, o que dizem os estudiosos do carnaval que fez o componente da escola não reconhecer sua agremiação, desfilando por isso com pouca empolgação . Atravessaram a Sapucaí onze alegorias nesse desfile, tendo uma dado problema ainda na concentração.

Esse desfile rendeu a escola uma terceira colocação no grupo especial carioca, tendo a Acadêmicos do Salgueiro com seu “Peguei um Ita no norte” sido a campeã e a Imperatriz Leopoldinense com Rosa Magalhães ficado com o vice campeonato com o enredo “Marquês que é Marquês do sassarico é freguês”.

Maria Augusta passado o carnaval desligou-se da escola e foi substituída pelo novato Milton Cunha.

Nesses dez primeiros anos de sambódromo carioca, o pavilhão da Beija Flor esteve nas mãos de diversos casais de mestre-sala e porta-bandeira, começando por Élcio PV e Juju Maravilha até 1984, Élcio PV e Dóris nos anos de 1985 a 1988, Marco Aurélio e Rosária nos anos de 1989 a 1990, Marco Aurélio e Rosana de 1991 a 1992 e Edmar e Juju Maravilha no carnaval de 1993.

Sônia Capeta  reinou a frente dos ritmistas da Beija Flor do carnaval de 1984 a 1993, nessa primeira década de sambódromo da Marquês de Sapucaí.

Neguinho da Beija Flor de 1984 a 1993 ganhou o Estandarte de Ouro no carnaval de 1985, sendo a voz oficial da escola desde 1976.

Por Sidnei Louro Jorge Júnior

 

 

 

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