RJ – Retrospectiva do segundo decênio do sambódromo carioca – Unidos do Viradouro

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No segundo decênio da nova pista da Marquês de Sapucaí, a Unidos do Viradouro iniciou com a contratação do gênio Joãosinho Trinta para 1994, que nesse primeiro ano desenvolveu o enredo “Tereza de Benguela – Uma rainha negra no Pantanal”, rainha na África que veio para o Brasil escravizada e que aqui fundou e presidiu um Quilombo no século XVIII, na região onde hoje está no nosso pantanal de Mato Grosso.

Unidos do Viradouro – Desfile de 1994 – Fonte: https://twitter.com/Carnavalize/status/1287114325795184643/photo/1

Para esse ano o samba que embalou esse desfile foi composto por Cláudio Fabrino, Paulo César Portugal, Jorge Baiano e Rico Medeiros, samba enredo este que chegou na Sapucaí como um dos melhores daquele carnaval de 1994.

Rico Medeiros, que era um dos autores do samba da escola de Niterói para esse carnaval, acabou assumindo o carro de som da agremiação.

Características marcantes do trabalho de Joãosinho Trinta, o desfile da Viradouro foi luxuoso e grandioso para contar a saga de Tereza de Benguela e o ambiente do pantanal mato-grossense.

Do conjunto alegórico apresentado pela escola nesse desfile, em termos de concepção e realização, destaque para a segunda alegoria, denominada de carro do cortejo e o outro carro que trazia a Arca de Noé no Pantanal.

Unidos do Viradouro – Desfile de 1994 – Fonte: http://amigosviradouro.blogspot.com/2010/02/historia-dos-carnavais-1994-tereza-de.html

 

O sucesso desse desfile apresentado pela Viradouro, refletiu-se na colocação alcançada pela escola, que com a história de Tereza de Benguela, sob o olhar de Joãosinho Trinta, alcançou um inédito terceiro lugar no grupo principal das escolas de samba do Rio de Janeiro.

Para o carnaval de 1995, Joãosinho Trinta trabalhou no enredo “O rei e os três espantos de Debret” para o carnaval da Viradouro, um enredo abordando nossas maravilhas naturais que tanto encantaram o pintor Debret, que para cá veio para retratar nossas paisagens.

Nesse desfile faltou um samba que de fato empolgasse integrantes e plateia presente na Sapucaí, mesmo que o samba tivesse a qualidade de contar bem o enredo proposto pela agremiação vermelho e branco.

Unidos do Viradouro – Desfile de 1995 – Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/5e/Viradouro_no_Sambodromo_1995_%28098563%29.jpg

De novo foi um desfile muito bem resolvido do ponto de vista da estética apresentada, bem ao estilo do carnavalesco Joãosinho Trinta.

Muito interessante e criativa a fantasia da comissão de frente da escola, com foco nas três raças que acabaram dando origem ao povo brasileiro.

Mestre Paulinho Botelho, no comando dos ritmistas da Viradouro, conseguiu fazer com que o andamento da bateria fosse bastante elogiado, na sustentação desse desfile, num momento em que era nítido o cansaço de boa parte da plateia, depois de dois dias de desfile.

Naqueles anos os elementos alegóricos eram em número muito superior ao que é apresentado atualmente, já que nesse desfile a Viradouro trouxe  doze carros alegóricos, com cerca de 4500 integrantes, divididos em 43 alas.

Problemas no julgamento de alguns itens pelo corpo de jurados, levou dessa vez a Viradouro para a oitava colocação, num carnaval vencido pela Imperatriz Leopoldinense.

Para 1996, foi a vez da Viradouro apresentar o enredo “Aquarela do Brasil ano 2000”, enredo este com o qual Joãosinho Trinta queria exaltar os aspectos tipicamente nacionais.

Unidos do Viradouro – Desfile de 1996 – Fonte: https://commons.m.wikimedia.org/wiki/File:Viradouro_-_Carnaval_1996_-_Rio_de_Janeiro.jpg

O início do desfile da Viradouro sofreu um atraso para seu começo, por conta de problemas com a dispersão das alegorias da Portela, mas por fim a escola de Niterói acabou entrando, mesmo que o problema não tivesse sido por completo resolvido pela escola que a antecedeu.

Segundo a crítica carnavalesca da época, em termos de alegorias, notou-se muito claramente falhas gritantes tanto em concepção como realização e acabamento dos carros apresentados pela agremiação niteroiense, não sendo a toa que a classificação final da escola foi a pior do período em que Joãosinho Trinta esteve dando plantão na agremiação.

Ponto positivo nesse desfile foi a bateria, dessa vez sob o comando de Mestre Jorjão, que foi firme na cadência apresentada e realizou paradinhas muito bem executadas.

Dentre os problemas com esse desfile, havia o samba enredo que não despontou desde a fase do pré carnaval como capaz de animar a plateia presente na Sapucaí e os integrantes da agremiação.

Na parte do desfile com referência a Amazônia, destaque para a participação dos bois de Parintins, Garantido e Caprichoso, que trouxeram muitas cores para essa parte da apresentação da Viradouro.

No fim desse desfile, como a escola iniciou sem que a Portela houvesse resolvido de vez a dispersão de suas alegorias, a dispersão da Viradouro também foi complicada, atrapalhando o final da apresentação da escola.

Unidos do Viradouro – Desfile de 1996 – Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Unidos_do_Viradouro_-_Carnaval_1996_-_Rio_de_Janeiro_(02).jpg

Os aspectos problemáticos desse desfile da Viradouro levaram a agremiação niteroiense para a décima terceira colocação, num carnaval vencido pela Mocidade Independente de Padre Miguel.

De uma péssima colocação no carnaval carioca de 1996, para 1997 a Unidos do Viradouro foi direto para o topo do pódio, dessa vez com o enredo “Trevas! Luz! A explosão do universo”, mais uma grande desfile do carnavalesco Joãosinho Trinta.

Unidos do Viradouro – Desfile de 1997 – Fonte: https://brasilfestasefolias.com.br/trevas-luz-a-explosao-da-viradouro/

O objetivo do enredo da escola era falar sobre o surgimento do universo e o desenvolvimento do homem, mas uma isquemia sofrida pelo carnavalesco ainda na fase de preparação desse desfile, deixou a todos com uma preocupação sobre o que de fato iria ser apresentado na avenida, mas com o resultado obtido, claro ficou que no fim não houve prejuízo ao desfile da agremiação niteroiense.

Os átomos antes de acontecer o big bang eram representados pelos membros da comissão de frente, que vinha a frente de um carro inteiramente negro representando “As Trevas”.

Unidos do Viradouro – Desfile de 1997 – Fonte: https://revistaquem.globo.com/Carnaval/camarotequem/noticia/2019/02/especial-camarote-quem-viradouro-traz-paradinha-da-bateria-como-inovacao-no-carnaval-de-1997.html

A segunda alegoria trazia “A Luz” e a terceira “A Terra”, sendo que na sequência o carnavalesco trouxe os elementos água, fogo, terra e ar. Destaque para o conjunto de fantasias apresentadas pela escola, com destaque para a ala de baianas da agremiação.

Nesse carnaval, com Dominguinhos do Estácio no comando do carro de som da escola de Niterói, a agremiação foi capaz de dar a volta por cima e levar para a Sapucaí um desfile cheio de criatividade e jogo de cores em contraste.

Mestre Jorjão foi cirúrgico no comando da bateria da escola, com paradinhas muito bem executadas, além do inesquecível ritmo de funk.

Unidos do Viradouro – Desfile de 1997 – Fonte: https://revistaquem.globo.com/Carnaval/camarotequem/noticia/2019/02/especial-camarote-quem-viradouro-traz-paradinha-da-bateria-como-inovacao-no-carnaval-de-1997.html

O samba enredo de autoria dos compositores Dominguinhos do Estácio, Mocotó, Flavinho Machado e Heraldo Faria deu ânimo para que a escola passe bem pela Sapucaí, tendo tido o vigor de animar o público presente e dar garra e vibração aos componentes da Viradouro.

 

Puderam ser observados do meio para o final do desfile pequenos problemas na evolução da escola, mas o certo é que o conjunto desse desfile de fato impressionou os jurados daquele ano.

Por fim a Viradouro conquistou o Estandarte de Ouro de melhor desfile, tendo obtido a primeira colocação com meio ponto a frente da Mocidade Independente de Padre Miguel.

Para seu desfile no carnaval carioca de 1998 a Viradouro trouxe o enredo “Orfeu, o negro do carnaval”, tendo o mestre Joãosinho Trinta permanecido como carnavalesco da escola.

Para esse desfile a escola pôde contar com um samba muito bem avaliado desde a fase do pré carnaval, obra de autoria dos compositores Gilberto Gomes, R. Mocotó, Gustavo, P.C. Portugal e Dadinho.

Unidos do Viradouro – Desfile de 1998 – Fonte: https://i.pinimg.com/736x/b6/fb/56/b6fb563cb07f920b8947c3a84ad0af48.jpg

Dessa vez o enredo proposto para esse desfile da agremiação de Niterói tinha por base o filme “Orfeu Negro”, baseado na mitologia grega e na história de amor entre as figuras de  Orfeu e Eurídice, só que para esse desfile havia a adaptação para que o Rio de Janeiro, durante o carnaval, fosse o pano de fundo para contar essa história.

De novo destaque para as figuras de Dominguinhos do Estácio e Mestre Jorjão, que levaram o púbico aos gritos de “bicampeã” durante a passagem da escola pela Sapucaí.

Unidos do Viradouro – Desfile de 1998 – Fonte: https://fr.wikipedia.org/wiki/Unidos_do_Viradouro#/media/Fichier:Desfile_da_Viradouro_(Orfeu).jpg

Durante a passagem da escola pela Sapucaí, problemas no som da avenida acabaram atrapalhando a harmonia da agremiação, mesmo que o canto dos integrantes fosse bastante efetivo.

Esse desfile foi acompanhado por uma equipe de filmagem sob a direção de Cacá Diegues que estava revisitando a obra original do ano de 1959.

Mas é preciso que se diga que dessa vez as alegorias não trouxeram todo aquele impacto do ano anterior, com um conjunto de fantasias na sua grande maioria leves, que possibilitavam uma boa evolução dos 3.800 integrantes da escola.

Com esse desfile a escola conquistou a quinta colocação, tendo a sua frente Estação Primeira de Mangueira e Beija Flor que ganharam esse carnaval de 1998.

Para o desfile da Viradouro no carnaval carioca de 1999, Joãosinho Trinta desenvolveu o enredo “Anita Garibaldi – Heroína das sete magias”, sendo que a escola foi a última a apresentar-se no domingo de carnaval, tendo segundo a crítica sido o melhor desfile dessa primeira noite.

Unidos do Viradouro – Desfile de 1999 – Fonte: http://www.pedromigao.com.br/ourodetolo/2014/01/sambodromo-em-30-atos-1999-o-resultado-que-apenas-os-jurados-viram/

Mestre Ciça assumiu o posto de mestre de bateria da escola, com a saída de mestre Jorjão. Dessa vez a bateria veio com andamento rápido, mas firme, e executando paradinhas cheias de criatividade. Haviam momentos em que os integrantes da bateria levantavam os surdos e taróis, tendo à frente a deslumbrante Luma de Oliveira, como rainha da bateria.

Destaque para o belo conjunto alegórico, muito bem acabado e concebido, assim como o conjunto de fantasias, que permitiam aos desfilantes movimentarem-se com liberdade ao som da bateria, cantando o samba com garra e força.

Mais um  vez destaque para a ala de baianas da escola, com a fantasia em busca do oriente, com fantasias em tons de amarelo, laranja e dourado, que ao final foi agraciada com o Estandarte de Ouro daquele ano.

Com relação ao carnaval anterior, a Viradouro acabou melhorando a sua classificação final, ficando desta vez com a terceira colocação, logo atrás da Imperatriz Leopoldinense e Beija Flor de Nilópolis.

Para seu desfile no carnaval do ano 2000, último ano de Joãosinho Trinta na escola, foi a vez de apresentação do enredo “Brasil: visões de paraísos e infernos”, com foco em mostrar os paraísos e infernos vividos pelos índios, negros e brancos na história do nosso país desde sua formação.

Dessa vez coube a Viradouro encerrar os desfiles no carnaval de 2000, tendo realizado uma bela apresentação segundo a imprensa da época.

Dessa vez o samba era obra dos compositores Gilberto Gomes, Gustavo, Dadinho, PC Portugal e Mocotó, em mais uma interpretação do inesquecível Dominguinhos do Estácio, vencedor do Estandarte de Ouro, com a sustentação da bateria, sob o comando de Mestre Ciça.

Destaque para o conjunto visual apresentado nesse desfile pela escola, com uma divisão de cores bastante elogiada pela crítica daquele tempo.

De novo a escola ficou com a terceira posição depois de encerrada a apuração das notas, tendo a sua frente apenas a  Imperatriz Leopoldinense e a Beija Flor de Nilópolis.

O carnavalesco Roberto Szaniecki, substituiu Joãosinho Trinta para 2001, mas  o fato é que acabou demitido antes do carnaval por divergências com a diretoria da agremiação niteroiense. O enredo apresentado foi  “Os sete pecados capitais”, enredo esse que abordou muito bem os sete pecados, cobiça, soberba, luxúria, ira, inveja, preguiça e gula, terminando com a redenção.

Unidos do Viradouro – Desfile de 2001 – Fonte: https://twitter.com/TamminenJuha/status/1224025467575001089/photo/2

Mais uma vez destaque para a modelo Luma de Oliveira a frente da bateria, executando uma coreografia que às vezes a fazia ajoelhar-se na Sapucaí, juntamente com os ritmistas da escola.

O fato é que esses problemas na fase no pré carnaval da escola, fez com que as alegorias apresentadas pecassem em acabamento, sendo que as fantasias das alas eram bem superiores em termos plásticos.

De novo o samba da Viradouro era de autoria dos compositores Gilberto Gomes, Gustavo, Dadinho, PC Portugal e Mocotó, samba enredo esse que serviu bem para sustentar o canto e dança da escola.

 

Com esse desfile de novo a escola caiu para a quinta colocação ao final da apuração das notas dadas pelos jurados, num carnaval vencido pela Imperatriz Leopoldinense, seguida pela Beija Flor de Nilópolis, como vice campeã.

Para o carnaval do Rio do ano de 2002, a Viradouro contratou Chico Spinoza como carnavalesco, tendo ele desenvolvido o enredo “Viradouro, Vira-Mundo, Rei do Mundo”, enredo este que abordava a união dos povos do planeta.

Unidos do Viradouro – Desfile de 2002 – Fonte: https://i.pinimg.com/736x/dd/5c/42/dd5c429680588fee2de0cb3485d6be56.jpg

De novo um dos destaque desse desfile foi a bateria de Mestre Ciça, com paradinhas muito bem realizadas e coreografia com lenços brancos num pedido de paz.

O samba enredo dos mesmos autores do carnaval anterior fez bonito na Sapucaí, mesmo que na fase do pré carnaval, não fosse tão bem cotado, muito em função da segurança de Dominguinhos do Estácio a frente do carro de som da agremiação de Niterói.

Pode ser muito bem visto que os integrantes da escola estavam muito animados durante este desfile, passando com garra e cantando bem pela Sapucaí.

Foi também observado que o conjunto alegórico era de muito bom gosto e muito bem acabado, mas o fato é que o enredo pareceu ser bem confuso em seu desenvolvimento, o que tirava qualquer chance de vitória da escola nesse ano.

De novo a escola repetiu apenas uma quinta colocação, num carnaval ganho pela Estação Primeira de Mangueira, seguida pela Beija Flor de Nilópolis.

Já para o carnaval de 2003, Mauro Quintaes assumiu como carnavalesco da escola, com a responsabilidade de desenvolver o enredo “A Viradouro canta e conta Bibi, uma homenagem ao teatro brasileiro”, com a vida e obra de  Bibi Ferreira.

Unidos do Viradouro – Desfile de 2003 – Fonte: https://portalpopline.com.br/enredo-da-viradouro-em-2003-atriz-e-cantora-bibi-ferreira-sai-de-cena-aos-96-anos/

Para esse desfile o samba enredo era de autoria dos compositores Gustavo, Gilberto Gomes, Heraldo Faria e Gelson. Por muitos esse samba enredo foi muito bem avaliado, tanto nos quesitos letra e melodia, tendo rendido muito no desfile, especialmente com o suporte da bateria de Mestre Ciça, arrepiando os presentes quando apresentou o rufar de tambores no verso do samba “Abram as cortinas que o show vai começar”.

 

Unidos do Viradouro – Desfile de 2003 – Fonte: https://br.pinterest.com/pin/688769336755168936/

A comissão de frente foi destaque nesse desfile, muito bem vestida, em cores diferentes, representando Molièr acompanhados de uma bailarina com apenas 14 anos, representando Bibi Ferreira.

Destaque também para o luxo do carro abre alas da escola, que vinha representando o musical “O Avarento”, numa profusão de dourado e vermelho, com amigos da homenageada do mundo artístico nessa alegoria. Destaque também para as alegorias com referência aos sucessos “Piaf” e “Gota d’água”.

Unidos do Viradouro – Desfile de 2003 – Fonte: Widger Frota

Além do destaque para o conjunto alegórico, as fantasias da escola também foram muito bem concebidas e realizadas, num jogo de cores que muito agradou.

Bibi Ferreira veio na última alegoria que se chamava “O legado de Procópio Ferreira” em referência ao genitor de Bibi, que também era ator.

Uma lástima foi a lentidão observada nesse desfile em seu início, o que fez ser necessário uma aceleração ao final para que a escola cumprisse o tempo máximo de desfile, sem perder pontos.

Essa apresentação rendeu a Viradouro a sexta colocação, num carnaval ganho pela Beija Flor de Nilópolis, nesse ano em que se comemoravam os vinte anos da nova passarela do carnaval carioca.

Por Sidnei Louro Jorge Júnior

 

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