RJ – Retrospectiva do segundo decênio do sambódromo carioca – Mocidade Independente de Padre Miguel

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Nos primeiros dez anos da nova Marquês de Sapucaí, a Mocidade Independente de Padre Miguel foi campeã por três oportunidades, na primeira com o carnavalesco Fernando Pinto e nas duas outras vezes com a dupla Renato Lage e Lilian  Rabello.

Mocidade Independente de Padre Miguel – Desfile de 1985 – Fonte: https://quilombodosamba.com/2020/11/14/o-afrofuturismo-de-fernando-pinto-em-ziriguidum-2001-carnaval-nas-estrelas/

Renato Lage assumiu como carnavalesco da Mocidade Independente para o carnaval de 1990, tendo permanecido nesse posto até o desfile de 2002.

Para o carnaval carioca de 1994 o enredo escolhido foi  “Avenida Brasil – Tudo passa, quem não viu?”, enredo no qual a intenção da agremiação de Padre Miguel era percorrer a conhecida Avenida Brasil e mostrar toda a diversidade às suas margens.

Ainda na área da concentração um acidente acabou vitimando um eletricista da escola, acidente este que acabou deixando de fora do desfile uma das alegorias arquitetadas pelo  carnavalesco, além da dificuldade da escola ter perdido seu patrono, Castor de Andrade que havia sido preso com outros integrantes da cúpula do jogo do bicho no ano anterior.

Dignas de muitos elogios as soluções encontradas por Renato Lage na construção das alegorias apresentadas pela Mocidade, especialmente em seu aspecto high tech.

Começando pela comissão de frente, foi um desfile cheio de novidades, sendo nesse desfile a primeira vez que um elemento alegórico foi apresentado junto com os integrantes da comissão de frente, um tripé com motocicletas.

O destaque desse desfile com certeza foram as alegorias da escola, não tendo as fantasias ficado muito atrás, pela sua concepção e originalidade. Mas o fato é que a agremiação pecou nos quesitos evolução e harmonia, até mesmo pelo fato do samba não ser dos melhores daquele carnaval, o que serviu também para não empolgar a plateia presente na Sapucaí.

Por fim depois de todos os percalços desse desfile a escola ficou com a  oitava colocação, num ano onde a grande campeã  foi a Imperatriz Leopoldinense.

Para 1995 Renato Lage desenvolveu o enredo “Padre Miguel, olhai por nós”, enredo este com foco nas religiões. A genialidade desse enredo deu a escola o Estandarte de Ouro de melhor enredo.

Mocidade Independente de Padre Miguel – Desfile de 1995 – Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Mocidade_Independente_em_1995.jpg

A narrativa apresentada pela escola de Padre Miguel iniciou pela primeira missa rezada no nosso país, passando pela religiosidade dos africanos, que para cá vieram na condição de escravizados, abordando ainda as festividades do Divino Espírito Santo, a figura de padre Cícero e seus romeiros e a também retratou a Bahia e a religiosidade de seu povo.

De novo a escola foi perfeita na concepção e realização de alegorias e fantasias, com muita facilidade para passar a mensagem do enredo proposto pela agremiação verde e branca  de Padre Miguel.

Destaque também para a qualidade do samba de autoria dos compositores Cardoso do Cavaco, Marquinhos PQD, Santana e Wanderley Marcação, tendo sido muito bem cantado por Wander Pires com a sustentação perfeita da bateria de Mestre Coé.

 

Problemas na  evolução da escola puderam ser identificados depois da entrada da bateria no segundo box da Sapucaí, problemas que duraram até o final do desfile da agremiação.

Nesse ano a Mocidade alcançou a quarta colocação, ficando atrás apenas da Imperatriz Leopoldinense, Portela e Beija Flor de Nilópolis.

Para 1996, ano em que a Mocidade ganharia mais uma estrela para colocar em seu pavilhão, o enredo apresentado por Renato Lage foi “Criador e criatura”, enredo este com o qual a agremiação queria narrar a história das criações de Deus e dos grandes artistas e inventores da humanidade dos séculos anteriores até os anos contemporâneos.

Mocidade Independente de Padre Miguel – Desfile de 1996 – Fonte: https://twitter.com/GRESMIPM/status/1091457379613507589/photo/2

O certo é que para esse desfile a escola, pelo menos sua parte inicial, não estava preparada para desfilar já com a luz do sol, mas atrasos que aconteceram com outras agremiações acabou fazendo a Mocidade entrar na Sapucaí, muito tempo depois do horário originalmente marcado, fazendo com que vários efeitos de luz das alegorias da escola acabassem não rendendo o resultado esperado, tendo o desfile finalmente iniciado com cerca de três horas de atraso.

Mocidade Independente de Padre Miguel – Desfile de 1996 – Fonte: https://twitter.com/GRESMIPM/status/1091457379613507589/photo/1

Já a comissão de frente traduzia bem o conceito de “o criador e sua criatura”, recebendo uma chuva de aplausos daqueles que estavam na Sapucaí, pela bela apresentação.

De novo alegorias e fantasias foram muito bem avaliadas, no tocante as alegorias tudo muito bem concebido, no estilo Renato Lage de trabalho, com linhas muito limpas e refinamento no acabamento.

Mocidade Independente de Padre Miguel – Desfile de 1996 – Fonte: https://liesesite.wordpress.com/mocidade-1996/

Referindo-se a este desfile da Mocidade, o pai de todos os carnavalescos, Fernando Pamplona fez a seguinte afirmação: “A Mocidade foi perfeita e Renato Lage mostrou seu estilo personalíssimo”.

De novo a bateria sob o comando de Mestre Coé deu um verdadeiro show, com ritmo bem marcado e sem cometer erros durante o percurso da escola pela Sapucaí.

O enredo desse carnaval da Mocidade foi premiado com o Estandarte de Ouro, do jornal O Globo.

Como já referido acima a escola foi a grande campeã daquele ano, seguida pela Imperatriz Leopoldinense e a Beija Flor de Nilópolis.

Para 1997 era muito grande a expectativa a cerca do desfile da Mocidade que anunciou o enredo “De corpo e alma na avenida”, mais uma vez de autoria do consagrado Renato Lage.

Mocidade Independente de Padre Miguel – Desfile de 1997 – Fonte: https://i.pinimg.com/originals/77/5d/a5/775da5268feed0cd8395ef8e8619eb04.jpg

A alegoria que mais destacou-se nesse desfile da Mocidade foi a do coração, cuja iluminação desse carro conseguiu muito bem simbolizar a circulação sanguínea, mostrando o coração como se esse fosse uma peça, na engrenagem complexa que é o corpo humano.

De novo a bateria de Mestre Coé foi perfeita na execução do samba, com cadência muito bem marcada.

O samba enredo de autoria dos compositores Chico Cabeleira, J. Brito, Joãozinho e Muca, também foi perfeito para narrar o enredo proposto, tendo ao final sido anunciado como o vitorioso do Estandarte de Ouro, tendo sido magistralmente interpretado por Wander Pires, que também foi agraciado com o prêmio do Estandarte de Ouro. 

 

Problemas na evolução da escola puderam ser observados, especialmente no final do desfile, quando foi necessário segurar os componentes das últimas alas para que a escola não passasse antes de atingido o tempo mínimo de desfile.

No final, coube a Unidos do Viradouro ganhar aquele carnaval, contando com a genialidade de Joãosinho Trinta, deixando a Mocidade com o vice campeonato por uma diferença de apenas meio ponto na avaliação do corpo de jurados.

Para 1998 Renato Lage desenvolveu na Mocidade o enredo “Brilha no céu a estrela que me faz sonhar”, enredo com o qual a escola queria falar sobre as estrelas e de quebra homenagear seu eterno patrono Castor de Andrade, que morreu no ano anterior.

Dessa vez aquele sucesso alcançado pela escola em termos de alegorias não repetiu-se como unanimidade, estando estas muito bem acabadas como de costume, mas sem causar aquele impacto que já era esperado depois dos desfiles já apresentados pela escola desde que Renato Lage assumiu como carnavalesco da agremiação de Padre Miguel.

Mocidade Independente de Padre Miguel – Desfile de 1998 – Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/96/Mocidade_Independente_1998_-_Michel_Filho_%2802%29.jpg

O samba enredo também não muito bem avaliado, desde a fase do pré carnaval, não tendo ajudado esse desfile da escola, mesmo com a interpretação do consagrado Wander Pires. O fato é que a escola teve problemas nos quesitos harmonia e evolução.

Destaque para a beleza das baianas independentes com fantasias predominantemente douradas, com muito brilho e belo visual.

Mocidade Independente de Padre Miguel – Desfile de 1998 – Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/99/Mocidade_Independente_1998_-_Michel_Filho.jpg

Na concepção da imprensa carnavalesca ao avaliar esse desfile da Mocidade, avaliou esse desfile como confuso, onde parece que no desfile o objetivo maior da escola era homenagear a figura de seu eterno patrono Castor de Andrade, embora fosse essa figura citada na sinopse do enredo somente na sua parte final.

Esse desfile foi finalizado com uma escultura de Castor de Andrade dirigindo uma nave espacial.

Essa apresentação deixou a escola de Padre Miguel com a sexta colocação, num ano onde as vitoriosas foram a  Estação Primeira de Mangueira e a Beija Flor de Nilópolis.

Mocidade Independente de Padre Miguel – Desfile de 1999 – Fonte: https://extra.globo.com/noticias/carnaval/mocidade-desfile-de-1999-com-enredo-villa-lobos-a-apoteose-brasileira-24878617.html

Para o carnaval carioca de 1999 o enredo anunciado para a Mocidade Independente de Padre Miguel foi “Villa-Lobos e a apoteose brasileira”, desfile no qual o carnavalesco Renato Lage queria contar na Sapucaí a vida e obra de Heitor Villa-Lobos, dessa vez com alegorias e fantasias muito bem concebidas e muito aplaudidas no desfile da escola.

Já a comissão de frente da escola, representando os sapos cururus na beira do rio, encantaram os presentes na Sapucaí pela bela apresentação realizada, tendo o grupo sido vestido com roupas de um verde bastante marcante e forte.

Mocidade Independente de Padre Miguel – Desfile de 1999 – Fonte: https://oglobo.globo.com/rio/carnaval/2016/perdeu-titulo-ganhou-historia-18454713

O ator Marcos Palmeira veio numa alegoria desse desfile representando o grande homenageado desse enredo o maestro Heitor Villa-Lobos.

A bateria da Mocidade voltou a ser comandada por Mestre Jorjão nesse ano, tendo apresentado uma cadência perfeita, remetendo aos carnavais do passado da escola, onde a bateria era o cartão de visita da Mocidade.

O samba enredo dos compositores Nascimento, Ricardo Simpatia e Santana desempenhou bem o seu papel, contribuindo para o sucesso desse desfile.

 

Mas mesmo com um grande desfile a escola acabou pecando ao demorar na colocação dos destaques nas alegorias da agremiação, tendo um desses carros demorado demais para concluir essa tarefa tanto que acabou fazendo com que um grande “buraco” na evolução da escola acontecesse no inicio da passarela da Marquês de Sapucaí.

Mocidade Independente de Padre Miguel – Desfile de 1999 – Fonte: https://extra.globo.com/noticias/carnaval/mocidade-desfile-de-1999-com-enredo-villa-lobos-a-apoteose-brasileira-24878617.html

Mesmo com os problemas que aconteceram nesse desfile a Mocidade saiu da Sapucaí sob os gritos de “É campeã”, mas ao final da apuração coube a escola a quarta colocação, num ano onde a grande campeã foi a Imperatriz Leopoldinense, seguida pela Beija Flor de Nilópolis.

Com esse desfile a Mocidade ganhou o Estandarte de Ouro nos quesitos melhor escola, melhor enredo, mestre sala e revelação.

Mocidade Independente de Padre Miguel – Desfile de 2000 – Fonte: https://liesa.globo.com/2019/por/05-fotos/fotos2000/2000_Fotos_Mocidade/2000_Fotos_Mocidade_principal.html

Para o carnaval do ano de 2000, com foco nas comemorações pelos quinhentos anos do aparecimento do Brasil no cenário mundial, a Mocidade trouxe o enredo “Verde, amarelo, azul-anil, colorem o Brasil no ano 2000”, um enredo onde o carnavalesco Renato Lage falaria sobre as cores da bandeira do nosso país.

O desfile da escola foi dividido em setores, conforme as cores da bandeira do Brasil, sendo que o setor que mais agradou nesse desfile foi o denominado setor verde, com alegorias trazendo a Amazônia e a Terra Brasilis.

Mocidade Independente de Padre Miguel – Desfile de 2000 – Fonte: https://liesa.globo.com/2019/por/05-fotos/fotos2000/2000_Fotos_Mocidade/2000_Fotos_Mocidade_principal.html

O setor amarelo trazia a parte das riquezas do nosso país e o setor azul trazia como elemento a água, com a representação de seres marinhos, enquanto o setor branco trazia a paz, algo almejado pelo brasileiro, para uma vida tranquila e prazerosa.

A bateria da Mocidade, mais uma vez deu seu show durante este desfile, mas a realidade é que o samba carecia do brilhantismo muitas vezes trazido pela escola para embalar seus desfiles no passado.

Com esse desfile coube a escola  o Estandarte de Ouro no item revelação.

Ao final a escola ficou com a quarta colocação de novo, mesma colocação do carnaval anterior, o que a levou a desfilar de novo na noite das campeãs.

Para o desfile da agremiação de Padre Miguel de 2001, o carnavalesco Renato Lage desenvolveu o enredo “Paz e harmonia, Mocidade é alegria”, enredo no qual o objetivo da escola era transmitir uma mensagem para a união da população no ano internacional por uma cultura de paz anunciado pela Organização das Nações Unidas.

Para esse desfile a escola já teve problemas desde sua comissão de frente que desfilou com a roupa incompleta e sem os patins anunciados para a apresentação do grupo que trazia a luta entre o bem e o mal.

Novamente as fantasias da escola notabilizaram-se pela beleza, mas houveram problemas em algumas alas quanto a confecção das roupas, que durante a passagem da escola pela Sapucaí perderam algumas peças.

Duas alas de cavaleiros do apocalipse vieram a frente do primeiro elemento alegórico, que trazia um enorme tripé representando um monstro, cercado por outros tripés reproduzindo tochas.

De novo um dos grandes destaques foi a bateria independente, que caprichou na cadência e apresentou seus componentes caracterizados como Gandhi, tendo o samba enredo, de autoria dos compositores Joãozinho, Marcelo do Rap, Domenil e J. Brito sido defendido por David do Pandeiro, tendo esse samba rendido bem na Sapucaí. A bateria foi premiada com o Estandarte de Ouro.

Problemas no quesito evolução foram observados, especialmente nos momentos de apresentação do primeiro casal de porta bandeira e mestre sala da agremiação.

Mocidade Independente de Padre Miguel – Desfile de 2001 – Fonte: https://liesa.globo.com/2019/por/05-fotos/fotos2001/Mocidade/Mocidade_principal.html

Desta vez a escola ficou de fora da noite das campeãs, já que não conseguiu melhor colocação do que um sétimo lugar.

O carnaval carioca de 2002 trouxe o último desfile da Mocidade Independente sob o comando do carnavalesco Renato Lage, que desta vez tinha ao seu lado Márcia Lávia.

O enredo desenvolvido foi O Grande Circo Místico”, um desfile leve onde a escola queria falar sobre o circo.

Foi um desfile multicolorido, onde a magia e a alegria do circo foram muito bem representados na Marquês de Sapucaí, começando pelos acrobatas da comissão de frente em  monociclos, com figurinos bem coloridos.

Plasticamente foi um desfile praticamente perfeito, estando nas alegorias muitos personagens do mundo circense como Beto Carrero, Marcos Frota, o palhaço Carequinha, além de muitos artistas que povoam o mundo dos circos pelo Brasil.

Mocidade Independente de Padre Miguel – Desfile de 2002 – Fonte: foto de Widger Frota

De novo o samba desse ano não estava entre aqueles melhor avaliados já desde a fase do pré carnaval, mas na avenida rendeu bem, na voz de Wander Pires, que de novo estava no comando do carro de som, da escola nesse carnaval.  A cadência da bateria também foi digna de elogios, mas problema no sistema de som da Sapucaí atrapalhou a escola, além de que foram observados problemas em evolução.

Esse desfile levou a escola de novo para a quarta colocação, tendo a Estação Primeira de Mangueira nesse ano sido a escola vitoriosa. A Mocidade recebeu a premiação do Estandarte de Ouro no quesito de passista feminino e personalidade para o carnavalesco Renato Lage.

Quando eram comemorados os vinte anos da nova passarela da Marquês de Sapucaí, a Mocidade Independente de Padre Miguel contratou Chico Spinoza que desenvolveu o enredo “Para sempre no seu coração – Carnaval da doação”.

Mocidade Independente de Padre Miguel – Desfile de 2003 – Fonte: foto de Widger Frota

Depois de dez anos, para esse desfile houve o retorno de Paulinho Mocidade ao carro de som da escola de Padre Miguel.

Com esse desfile o objetivo da escola  era falar sobre a doação de órgãos, como forma de colocar esse assunto tão necessário em pauta.

De novo na fase do pré carnaval houveram muitas criticas a qualidade do samba da escola, que acabou sendo muito bem cantado pelos integrantes da agremiação no desfile oficial.

As alegorias apresentadas não tinham o luxo apresentado em outras escolas, mas estavam bem construídas e acabadas.

Quando a comissão de frente independente chegou ao meio da pista e realizou sua apresentação, logo um “buraco” abriu-se na evolução da escola, já que o carro abre alas, grandioso e belo, demorou muito para chegar.

As alegorias notabilizaram-se por serem vazadas, possibilitando a que a plateia dos dois lados da pista pudesse enxergar de um lado ao outro.

Destaques para as alegorias “Cosme e Damião, Patronos da Medicina” e “Banco de Órgãos”, sendo que as fantasias de alas eram também muito bem concebidas e realizadas.

Esse desfile rendeu a escola uma quinta colocação, permitindo a que a escola voltasse na noite das campeãs, com vitória da Beija Flor de Nilópolis.

Por Sidnei Louro Jorge Júnior

 

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