RJ – Nascida em 1 de Junho, Bibi Ferreira um fenômeno das artes, faria 98 anos

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Maior diva do teatro musical brasileiro, a atriz Bibi Ferreira nasceu em 1 de Junho de 1922. De ascendências portuguesa e espanhola, era filha do ator brasileiro Procópio Ferreira e da bailarina e corista espanhola Aída Izquierdo.

A pequena Bibi Ferreira com os pais artistas

Fez sua estreia teatral com pouco mais de vinte dias de vida, na peça Manhãs de Sol, no colo de sua madrinha Abigail Maia, esposa do autor e padrinho Oduvaldo Viana, substituindo uma boneca que desaparecera pouco antes do início do espetáculo.

A língua portuguesa foi herdada do pai, assim como a paixão pela ópera.

Com a separação dos pais, segue com a mãe, que vai trabalhar numa companhia espanhola de teatro de revista, a Companhia Velasco. Lá, aprende seu primeiro idioma, o espanhol, faz participações cantando zarzuelas e torna-se conhecida como “la niña de Velasco”, e já tinha desenvolvido habilidades no piano, interpretação, canto, violino, e até dirigindo e apresentando programas televisivos.

De volta ao Brasil com cerca de 7 anos, ingressa na escola de dança do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, onde estuda com Maria Olenewa. Começa a trabalhar na companhia do pai famoso. Aos 9 anos, por ser filha de artistas, tem sua matrícula negada no tradicional Colégio Sion. Mas papai Procópio responde à altura: manda a filha fazer cursos em Londres, onde a menina aproveita para estudar seriamente teatro.

Em 1936 participa do filme Cidade Mulher, de Humberto Mauro, produzido e estrelado por Carmen Santos. Atua ao lado de Carmen, Mário Salaberry, Sara Nobre, Jaime Costa e outros. No filme, canta o samba Na Bahia, de Noel Rosa e José Maria de Abreu. Em 1941 protagoniza a peça La Locandiera, de Carlo Goldoni, como a esfuziante Mirandolina. No ano seguinte, monta sua própria companhia, por onde passam futuros grandes nomes do teatro, como Cacilda Becker, Maria Della Costa, Henriette Morineau, Sérgio Cardoso e Nydia Licia. Torna-se uma das primeiras mulheres a dirigir teatro no Brasil.

O legado de Bibi para o Teatro de Revista

Em 1947 filma O Fim do Rio (The End of River), de Derek Twist, no qual tem como partner o ator indiano Sabu. Em 1950 é protagonista de Almas Adversas, de Leo Marten, com argumento de Lucio Cardoso, e contracena com Fregolente, Lúcia Lopes, Graça Mello, Pérola Negra e Labanca.

Na década de 50 monta repertório com sua companhia e depois de bem-sucedidas temporadas cariocas, sai viajando pelo Brasil com elenco numeroso, grandes cenários e produções caprichadas. Dentre seus maiores sucessos está A Herdeira, de Henry James, em que além de protagonizar, também dirige, contando com Herval Rossano, Wanda Marchetti e Francisco Dantas no elenco.

Em 1960 inaugura a TV Excelsior com o programa Brasil 60, no qual usa o moderno recurso do videotape para transmitir reportagens das capitais brasileiras, aposentando o programa ao vivo que até então era comum na TV brasileira. O sucesso é tanto que se desdobra em Brasil 61, 62 etc. Na mesma emissora faz também Bibi Sempre aos Domingos. Em 1968 volta à televisão, mas sem o tape, e comanda na TV Tupi carioca o musical Bibi ao Vivo, com direção de Eduardo Sidney. Nele apresenta, canta e dança com a orquestra do Maestro Cipó e as coreografias de Nino Giovanetti no histórico auditório da Urca.

Bibi nunca aceitou papéis em telenovelas, pois não se sente à vontade vivendo personagens na telinha. O veículo se adéqua melhor ao seu  temperamento histriônico de apresentadora, onde cria estilo único. Ao lado de Hebe Camargo,  Sonia Ribeiro, Lídia Mattos e Marly Bueno, entre outras. Na transmissão que fez para a TV Tupi, em 1972, da entrega do Oscar, mostrou todo esse potencial.

Em 1975 recebeu o Prêmio Molière pela personagem Joana, de Gota D’Água, de Paulo Pontes e Chico Buarque, adaptação da tragédia Medéia, de Eurípedes, para os morros cariocas. Em cena, despojada, sem maquiagem, como uma moradora da comunidade, causa impacto na plateia acostumada a vê-la bem produzida em musicais. As músicas de Chico e Dori Caymmi, o brilhante texto escrito em versos por Pontes e mais o elenco afiado, com nomes como Roberto Bonfim, Luiz Linhares, Isolda Cresta, Oswaldo Loureiro, Bette Mendes e Norma Suely, enriquecem   seu comovente desempenho, que tem a regência do diretor Gianni Ratto.

Em 1983, após cinco anos ausente do palco, volta em Piaf – A Vida de uma Estrela, em que vive a cantora francesa Edith Piaf. Sua performance elaborada chega a ser “mediúnica”, tal a sutileza na encarnação da anima/persona da cantora: a semelhança da voz, do frágil aspecto físico e do temperamento quente. Com isso, abiscoita diversos prêmios: Molière, Mambembe, Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), Governador do Estado e Pirandello.

Na virada do milênio, personifica a fadista Amália Rodrigues em Bibi Vive Amália. Causa novo impacto nas plateias brasileira e portuguesa tal a verossimilhança. Em anos mais próximos, o público a vê brilhar nos recitais Bibi In Concert e Bibi In Concert Pop, acompanhada por grande orquestra e coral, nos quais mostra, de forma totalmente à vontade, um dos seus maiores prazeres: o de cantar.

Em 2003 recebe homenagem da escola de samba niteroiense Viradouro, e se torna o enredo  A Viradouro Canta e Conta Bibi, homenagem ao Teatro Brasileiro, do carnavalesco Mauro Quintaes. Teresa Cristina, sua filha relembra a ligação de Bibi de Ferreira com a maior festa popular do planeta.

Tinham os bailes quando ela era jovem. Em uma ocasião, jogaram confetes quando estava cantando e ela engoliu um monte destes assessórios, se sufocando, dai pegou trauma de bailes. Mas logo depois ela aceitou ser rainha das atrizes, porém não pulou porque tinha traumas dos confetes (Risos)“, explica.

Minha mãe nunca imaginou que seria enredo de escola de samba. Após o choque da surpresa, ela abriu seu acervo em casa para que pudessem fazer a pesquisa. Muitos pensam que minha mãe trabalhava só para a elite, mas Bibi era do povo. Ela se sentiu maravilhosa lá em cima“, explica.

Era Mangueirense, mas assistia todas as escolas. O legado que ela pode deixar para o carnaval é o Teatro de Revista. Ela trabalhou com Carlos Machado, entre outros. Quando ficou longo período em Portugal era levou baianas, malandros e um pouco do Brasil para Europa“, finaliza Tereza.

Em 2015, a atriz entrou para a lista das 10 Grandes Mulheres que Marcaram a História da Globo. Com 95 anos, Bibi Ferreira começou sua turnê de despedida chamada: Bibi – Por Toda Minha Vida. Estes espetáculos eram feitos somente com músicas nacionais.

Dominava cinco idiomas e teve seis casamentos. Dona de humor próprio, Bibi declarou em entrevista que “Todo homem é igual, se soubesse antes, parava no primeiro casamento“.

No dia 13 de fevereiro de 2019, Bibi faleceu com 96 anos de idade. A causa de sua morte foi parada cardíaca, e a atriz morreu dormindo em seu apartamento no bairro do Flamengo/RJ, onde vivia sob cuidados de sua unica filha Tereza e de sua cuidadora.

A atriz, diretora, cantora e compositora teve ao longo da carreira recebeu perto de 30 prêmios, entre os quais, por duas vezes o importante Molière.

Por Waldir Tavares e Henrique Sathler

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