RJ – Laura de Vison – Assim como o próprio carnaval, Laura foi uma artista atemporal

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Escultura criada pelo Carnavalesco Leandro Vieira para o Desfile da Mangueira em 2018

Durante a quarentena, após vários vídeos de desfiles antigos, me deparo com a passagem do famoso “Bonde do Oswaldo Jardim” no épico desfile da Unidos de Vila Isabel em 1994. A passagem do veículo alegórico criado pelo saudoso carnavalesco é um daqueles momentos mágicos da Marques de Sapucaí. Quem não estava naquela alegoria, quis ir atrás. Além da genialidade do artista Oswaldo, o que me chamou atenção foi a “enorme” (tamanho e talento) figura sentada no topo da alegoria. Era ela,  Laura de Vison com seus mais de 100 quilos e fartos seios nus, comandando uma multidão de foliões enlouquecidos de alegria. Nascido e batizado como Norberto Chucri, o filho de comerciantes libaneses se transformava em Laura de Vison, anos 70 a 90, para brilhar na noite underground do Rio de Janeiro com suas performances exóticas e bem humoradas.

Formado em Filosofia, Norberto deu aula de história por dezoito anos no Colégio Cenecista Capitão Lemos Cunha, na Ilha do Governador, antes de ser demitido porque em suas aulas falava abertamente aos seus alunos sobre a transmissão sexual da AIDS e por assumir a eles sua homossexualidade. Conta a lenda que certa vez, quando o professor foi dar uma aula sobre a História do Egito, o terno e a gravata saíram de cena para dar lugar a uma fantasia de Cleópatra. Este foi só mais um sensacional ato cênico da grande artista que foi Laura de Vison.

Professor Norberto

Fora dos palcos, Norberto, o professor de história que usava terno de cores sóbrias e largos para disfarçar os enormes peitos, era o contrataste de Laura que usava exuberante maquiagem branca, olhos marcados envoltos em purpurina, cílios gigantescos, além dos escandalosos batons que aumentavam o tamanho da sua boca. Um tipo de aglutinação artística e o ato de devorar qualquer possibilidade de censura.

Transformação de Laura de Vison com sua maquiagem característica e exagerada

Criado no bairro de Engenho de Dentro, zona norte do Rio, a personagem Laura de Vison surgiu nos anos 60 quando Norberto ganhou as ruas, durante o carnaval, usando biquíni, salto alto e casaco de pele (O Vison que é oriundo de pele de uma espécie de doninha pode ter vindo daí). Era a o final da época da inocência, quando seu comportamento inaugurava o que viria na década seguinte com as transgressoras apresentações dos Secos e Molhados e as ousadas performances dos Dzi Croquetes. Nos anos setenta, Laura chegou a ser presa pelo regime militar. Dez dias na cadeia por ser gay. Mas isso não impediu a explosão de arte, físico (dobrou de peso) e representatividade que o personagem teria nas duas décadas seguintes.

Lady Laura de Vison nos anos 70

O reconhecimento viria na áurea década de oitenta quando Laura brilhou no extinto bar Boêmio, na Lapa Carioca. Durante o dia, o local funcionava como um restaurante, a noite virava palco das transformistas mais famosas daquela época. Os shows do artista eram marcados pelo escracho e ironia que chocavam o publico em performances esdruxulas como o inacreditável ato de comer miolos de animais e retirar ovo cru do anus para comer na frente da plateia em estado de choque.

Laura comia carne crua em cena.

Quando dublava a Gal Costa, no numero que tinha como trilha a musica  “Vaca Profana“, jogava leite nas pessoas simulando que saiam de suas enormes tetas. Lasciva, declarou certa vez durante uma entrevista na TV aberta que naquele carnaval teve quarenta e nove relações sexuais. Muito popular nos carnavais de rua, Laura também foi aplaudida por intelectuais e celebridades internacionais. O estilista Jean Paul Gaultier, em visita ao Brasil, foi assisti-la. Após se encantar com a artista, o grande nome da moda a comparou com a famosa Drag Queen americana Divine (Ícone da Cena Pop que no cinema sendo musa do diretor John Waters).

A famosa Vaca Profana jogava leite na plateia

Ser transformista naquela época se resumia, na maioria das vezes, em dublar músicas de grandes divas internacionais usando longos vestidos de noite. Laura era oposto disso tudo, indo da performance mais bizarra ao agressivo, tudo feito para chocar. Artista completa e consolidada nos palcos, o talento de Laura foi parar no cinema e televisão, onde participou de filmes e minisséries. Recebeu a Medalha de Ouro no Festival du Court-Métrage, na Bélgica, e venceu o premio “Candango de Ouro” no Festival de Cinema de Brasília.

A personificação do Cult através de Laura de Vison

Pioneira nas performances escrachadas, Laura de Vison é considerada inspiração para  outras transformistas caricatas, como as já falecida Rose Bombom (Rainha da noite nos anos noventa), Isabelita dos patins (Outro ícone do carnaval) e o fenômeno das caricatas Suzy Brasil (ator Marcelo Souza Costa).

Foto de 2001

Nascido em 1939, Laura faleceu em 2007, aos 67 anos. O óbito veio após longo tratamento com problemas de hérnia. Nos seus últimos anos pesava 150 quilos, o que não a impediu de estar em cena até 2006 com o espetáculo “Dei a Elza em VocêApós dar tanta alegria ao seu publico, passou os últimos dias sozinha em seu apartamento sob os cuidados de uma fiel funcionária (que, segundo consta, herdou o acervo de figurinos com quase 100 vestidos, muitas perucas, chapéus e botas). No ano seguinte de sua morte o filme “Laura, Laura”, de Claudio Dias Guimarães, contou sua história e foi exibido em vários Festivais de Cinema.

No carnaval de 2002 o Bloco carioca GRBC União da Ponte levou o enredo “Laura de Vison, Nascida das Noites Cariocas” para a avenida. Em 2018, O carnavalesco Leandro Vieira não perdeu a oportunidade de prestar uma homenagem póstuma a Laura de Vison no desfile da Estação Primeira de Mangueira para o enredo “Com dinheiro ou sem dinheiro eu brinco“. O tema se tratava de falar sobre os carnavais de rua e figuras icônicas deste movimento. Tiro certo do jovem artista, lá estava Laura personificada em uma bela escultura do carro alegórico “Somos a voz do povo“. Mais certeiro, impossível! Bravo Leandro, Bravíssimo Laura!

Sobreviveu ao preconceito, os anos de chumbo e o surgimento do “virus gay”, a inesquecível Laura de Vison foi a arte e talento em movimento e vive na memória artística do Brasil. Foi o “cult” dentro do que hoje consideramos “trash”. Com a caretice dos dias atuais, me pergunto onde se encaixaria a ousadia de uma artista tão a frente de seu tempo. Mais isso não me preocupa, a conclusão é que Laura de Vison faz parte de qualquer época ou tempo. Assim como o próprio Carnaval, Laura de Vison é atemporal!

Fontes:

Laura de Vison – um ícone cult da cena queer carioca dos anos 70, 80 e 90

 

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