RJ – Estácio de Sá 1992 – Me dê, me dá, me dá, me dê…

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“…Modernismo movimento cultural

No país da Tropicália

Tudo acaba em carnaval…”

No carnaval carioca do ano de 1992, quinze escolas de samba participaram do grupo de elite das escolas de samba, tendo ao final daquele carnaval sido rebaixadas três agremiações para o grupo de acesso no ano seguinte, Leão de Nova Iguaçu, Tradição e Acadêmicos de Santa Cruz.

Antes do carnaval de 1992 a grande aposta era o tricampeonato da Mocidade Independente de Padre Miguel, na época com o trabalho dos carnavalescos Renato Lage e Lilian Rabello, que haviam escolhido um enredo abstrato, sobre os sonhos.

O carnaval carioca de 1992 marcou a estréia da carnavalesca Rosa Magalhães na Imperatriz Leopoldinense, onde permaneceu por muitos anos, dando à escola campeonatos importantes.

Mas o carnaval de 1992 também ficou marcado pela tragédia que abateu-se sobre o desfile da Unidos do Viradouro, quando uma das alegorias da escola pegou fogo já na parte final da pista de desfile, num desfile de autoria de Max Lopes, abordando a temática do povo cigano.

A Estácio de Sá foi a terceira escola de samba a desfilar na segunda noite de desfiles, na época sob a presidência de Acyr Pereira Alves.

A Estácio de Sá trouxe para a pista da Marquês de Sapucaí em 92 o enredo “Paulicéia Desvairada, 70 anos de Modernismo no Brasil”, com o objetivo de trazer de volta a Semana de Arte Moderna de 1922. A escola vinha de um quinto lugar nos carnavais anteriores de 1990 e 1991, tendo para o desfile de 1992 agregado à escola o carnavalesco Chiquinho Spinoza.

O trabalho dos carnavalescos Mário Monteiro e Chiquinho Spinoza sobre os 70 anos da Semana de Arte Moderna de São Paulo rendeu um desfile inesquecível da comunidade do Morro de São Carlos, que desfilou com cerca de 4000 componentes.

Dominguinhos do Estácio agitou o público da Sapucaí ao cantar o samba da escola muito popular na época, com um relato muito bem feito a cerca do tema proposto pela escola para sua apresentação naquele carnaval.

Os grandes artistas que participaram do movimento modernista brasileiro, como Villa Lobos, Di Cavalcanti, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Ronald de Carvalho, dentre outros estavam representados no desfile da Estácio.

Já desde a comissão de frente da agremiação, coordenada por Geraldo Miranda, composta por pierrots e arlequins com pernas de pau, até hoje muito lembrada, o carro abre alas da escola trazia a representação do Theatro Municipal de São Paulo, grandioso.

Todas as alegorias apresentadas pela escola eram de fácil compreensão, com destaque para a alegoria do Trem Caipira, que ia de um lado para o outro na pista e fazia o costumeiro “piuí”. Destaque-se não serem as alegorias da Estácio tão grandiosas quanto outras que passaram pela Sapucaí naquele ano, mas a mensagem que queriam passar foram de pronto assimiladas pelo público presente.

Nas fantasias apresentadas as cores da escola não foram deixadas de lado, deixando os componentes muito livres para sua evolução, pelo fato de serem fantasias práticas e leves. Destacou-se durante a passagem da escola a ala das crianças. A evolução apresentada pela escola foi tão perfeita que a agremiação terminou seu desfile brincando antes do final do tempo estipulado como máximo para aquele desfile.

Nesse desfile reinou a frente da bateria da Estácio, comandada por mestre Ciça, a modelo Monique Evans, que já havia brilhado muito a frente da bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel em carnavais anteriores.

 

Nenhuma escola até a passagem da Estácio recebeu tamanho carinho e empolgação do público presente na Sapucaí, e olha que já se estava na segunda noite de desfiles daquele carnaval.

Destacou-se na apresentação da Estácio o jovem casal de mestre-sala e porta-bandeira composto por Claudinho e Selminha Sorriso.

O refrão central do samba agitou o público presente à Sapucaí, que respondia ao desfile da escola com impressionante empolgação. A autoria do samba da Estácio nesse carnaval era de Djalma Branco, Déo, Maneco e Caruso.

“…Me dê, me dá, me dá, me dê

Onde você for eu vou com você…”

Outra das grandes recordações desse desfile se deu com as imagens da modelo Luciana Sargentelli, filha de Sargentelli, que não parou de sambar, naquele desfile no topo de uma as alegorias da escola, mesmo com os pés sangrando.

Chegando a praça da apoteose a escola foi ovacionada pelo povo ali presente com gritos de “é campeã”, desfile este que colocou a Estácio logo na lista das prováveis campeãs daquele ano.

Os estudiosos do carnaval afirmam até hoje que nesse desfile da Estácio de Sá a emoção superou a técnica levando a escola do morro de São Carlos a conquistar seu primeiro, e até hoje, único título no grupo especial do carnaval do Rio de Janeiro.

Após a apuração e a vitória da Estácio ser confirmada, Bicho Novo, mestre sala da escola por muito tempo, declarou que “tinha certeza de que não morreria sem ver a vitória da minha escola!” vindo a falecer no ano de 1995.

No desfile das campeãs daquele ano, a campeã Estácio de Sá contou com um reforço de peso, já que nada mais, nada menos do que Ayrton Senna, tricampeão da Fórmula 1, ensaiou uns passos de samba durante a passagem da escola.

Com este desfile de 1992 a Estácio de Sá foi a vitoriosa na premiação do estandarte de Ouro nas categorias de escola de samba, comissão de frente, ala de crianças, enredo e porta-bandeira.

Para o carnaval de 2020 a Estácio de Sá retorna ao grupo principal das escolas de samba cariocas, já que venceu no grupo de acesso no carnaval passado, tendo de volta a carnavalesca Rosa Magalhães.

Por Sidnei Louro Jorge Júnior

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