RJ – Como foram os anos da gestão Jorge Castanheira à frente da LIESA

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O ultimo dia 18 ficou marcado como a despedida do mineiro, de Além Paraíba, Jorge Luiz Castanheira Alexandre, de 58 anos, à frente da Liga das Escolas de Samba do Rio de JaneiroLIESA. Castanheira, que já havia dirigido a Liga no triênio 95/97, reassumiu a Presidência da entidade em 2007, ficando por 14 anos como o homem que comandou Liga responsável pelos Desfiles das Escolas de Samba do Grupo Especial carioca nos últimos anos. Foram anos pautados por grandes e emocionantes desfiles, porém não podemos esquecer o incêndio de grandes proporções, polemicas viradas de mesa, acidentes assustadores na pista e denuncias de manipulações de resultados, estas nunca comprovadas.

Fundada em 1984, a LIESA foi criada para defender os interesses das Escolas de Samba do Grupo Especial. Sendo responsável pela organização de toda a infraestrutura do Sambódromo para a realização dos desfiles do Grupo. Sob o comando de Castanheira o que não faltou foram polemicas e pouca mudança no modus operandi no que diz respeito à modernidade do tipo de gestão aplicada. Uma das grandes insatisfações neste sentido, é a compra de ingressos antecipados via Fax, que segundo a Liga, o aparelho garante a segurança na transmissão da informação.

Jorge Castanheira – Foto Divulgação

Criticas a parte, é inegável dizer que Jorginho Castanheira foi o principal gestor do Carnaval carioca sem ter em seu nome qualquer escândalo publico ou investigação por crimes. Reservado, nunca foi visto com frequência nas quadras das escolas de samba ou permitia que seus julgadores, escolhidos a dedo por ele, fizessem o mesmo. Durante sua gestão foi responsável por praticamente tudo na organização, tanto de uma simples reunião quanto do maior espetáculo da terra. Durante sua gestão foram cinco títulos da Beija Flor, quatro vices do Salgueiro e três rebaixamentos da Estácio e também do Império Serrano.

Foto Henrique Matos / Divulgação

No seu primeiro carnaval como presidente em segundo mandato, Castanheira teve que enfrentar a CPI do carnaval, criada pela Câmara de Vereadores para apurar possíveis irregularidades nos resultados dos desfiles de 2007. O imbróglio partiu de uma denúncia da Polícia Federal, de que havia indício de manipulação no resultado, em que a Beija Flor de Nilópolis foi a campeã. Apesar de não terem conseguido provar que houve manipulação no resultado, constatou-se que o processo para a realização dos desfiles tinha falhas, como a possibilidade dos jurados levarem para casa o mapa de notas entre a primeira e a segunda noite de desfiles. Sem conseguir comprovar a denuncia, a conquista da Beija-Flor ficou mantida.

A Beija Flor de Nilópolis foi a campeã de 2007

Em 2010 a Liga decidiu mudar o número de julgadores. Aumentou de quatro para cinco, onde seriam descartadas a maior e menor notas de cada quesito. Este numero seria mudado novamente em 2012, voltando a ser quatro e no ultimo carnaval novamente passou para cinco julgadores por cabine.

Um incêndio de grandes proporções atingiu quatro barracões da Cidade do Samba, na Zona Portuária do Rio em 2011. A tragédia, que marcou aquele carnaval, foi contornada de forma brilhante pela LIGA, que resolveu não julgar as três escolas afetadas (Grande Rio, União da Ilha e Portela) e excluir o rebaixamento naquele carnaval. O resultado das investigações da Polícia Civil descreveu como causa mais provável do incêndio uma “ação humana involuntária”. Mesmo abalada, a LIESA deu suporte e todas as agremiações, inclusive as afetadas, fizeram um espetáculo digno.

Foto Reprodução

Uma grande polemica na gestão Castanheira foi a apuração do carnaval de 2014. Até hoje ecoa a insatisfação com a benevolência em relação as notas da campeã, Unidos da Tijuca. Porém o fato imperdoável foi o rebaixamento da Império da Tijuca, que deveria ter permanecido no Grupo Especial. A Unidos de Vila Isabel, por exemplo, que desfilou com alas e componentes de alegorias sem fantasia, neste quesito recebeu notas maiores que a escola de samba do morro da Formiga. Durante a transmissão da leitura das notas, o presidente , da Império da Tijuca, chegou a protestar contra a Liga “Vou fazer um enredo de cueca. Não precisa mais de fantasia“, ironizou.

Componentes da Unidos de Vila Isabel com fantasias incompletas. A escola se livrou do rebaixamento com notas maiores em fantasias do que a rebaixada Império da Tijuca que desfilou completa.

No ano seguinte, o Diretor de Carnaval Laíla comanda uma forte pressão na Liga que acaba por acatar, realizando uma grande mudança no time daqueles que atribuem notas para as Escolas. Foram 20 modificações nos nomes dos julgadores para o desfile de 2015. Outra mudança neste carnaval foi a exclusão do quesito “conjunto”, também um pedido do até então Diretor de Carnaval da Beija Flor de Nilópolis.

Foto Thiago Lontra

Em 2016, mais uma vez, Laíla lança uma bomba na gestão Castanheira. A Polícia Civil do Rio instaurou inquérito para investigar denúncias do diretor de carnaval, sobre um possível esquema para favorecer a escola Unidos da Tijuca no resultado dos desfiles do Grupo Especial. Neste ano a Mangueira sagrou-se a campeã, com a Tijuca sendo vice. O alvo das acusações de Laíla era o jurado de bateria Fabiano Rocha. O diretor afirmava ter uma gravação do jurado dizendo que poderia tirar notas das baterias da Imperatriz Leopoldinense, do Acadêmicos do Salgueiro e da Beija-Flor. Fabiano Rocha foi afastado pela LIESA antes dos desfiles. Jorge Castanheira, na época, afirmou que Rocha foi tirado do júri por pré-julgar as escolas, mas negou existir irregularidades na apuração, já que Rocha não participou dela.

Unidos da Tijuca vice campeã de 2016

Sobre as declarações de Laíla, Castanheira revelou, na época, para o RJTV, da TV Globo, que poderia punir o dirigente que é um dos sócio-fundadores da LIESA, fato que não ocorreu. “Cabe análise por parte do Conselho Deliberativo da Liga e da Assembleia Geral analisar o prejuízo que o senhor Laíla está causando. A punição pode ser advertência, suspensão, exclusão e vai depender da gravidade do potencial daquilo que foi falado” disse Castanheira durante a polemica.

Laíla não se intimidou e trouxe a polemica dos áudios em 2016 -Foto Divulgação

Outra polemica do ano foi a aproximação da Liga com o então candidato a Prefeito do Rio Marcelo Crivella. Através da LIESA as escolas de samba do Grupo Especial apoiaram a candidatura de Crivella “Tenho certeza que o senhor, com sua equipe de trabalho e como gestor competente que já demonstrou ser, continuará esse trabalho pelas escolas de samba. Não queremos nada em troca desse apoio, apenas carinho e atenção do poder público. Que o senhor seja iluminado para fazer o melhor pela nossa cidade. Tenho certeza que o senhor vai nos orientar a seguir o melhor caminho” – afirmou Jorge Castanheira em encontro com o candidato Crivella em 2016.

Foto Paulo Araújo/ Riotur

Já eleito prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella passou a atacar as escolas de samba e cortar verbas. Em Agosto de 2019, Crivella decidiu não repassar nenhuma subvenção financeira às escolas de samba do Grupo Especial alegando que este dinheiro seria destinado as creches. Referindo-se ao corte de recursos públicos, na época, o Prefeito chegou a ironizar “As mulheres vão entender isso. Carnaval é um bebê parrudo que precisa ser desmamado e andar com as próprias pernas. As escolas do Grupo Especial não vão mais receber subvenção da prefeitura, que decidiu que não vai dar mais subvenção para nenhum evento que cobre ingresso”, disse.

Tragédias e um resultado confuso mancharam os Desfiles de 2017. Este foi o ano que talvez seja o maior desafio no mandato de Jorge Castanheira à frente da LIESA. Durante o desfile da Paraiso do Tuiuti, uma alegoria desgovernada atingiu as grades deixando em torno de 20 pessoas, entre elas Elizabeth Ferreira Jofre (a Liza Carioca), que morreu no hospital cerca de dois meses após a tragédia.

Foto André Durão

No dia seguinte, novo acidente, desta vez durante o desfile da Unidos da Tijuca, onde a parte de uma das alegorias desabou, causando ferimentos em vários componentes. Após os acidentes a Liga chegou a emitir uma nota onde lamentava o acidente: “A Liga se solidariza com as vítimas e seus familiares e informa que todas foram prontamente socorridas“. No caso da Tuiuti, o acidente levou vítimas e seus familiares a acionarem a LIESA e a Escola em questão na Justiça em ações que continuam em curso atualmente. Antes da apuração, a LIGA decidiria que nenhuma escola sofreria rebaixamento, uma clara manobra para proteger uma influente agremiação envolvida em um dos acidentes no ano.

Acidente durante desfile da Unidos da Tijuca em 2017

Para completar o “pior ano da gestão Castanheira“, o resultado do carnaval de 2017 também foi conturbado. Um mês após a Portela ganhar o titulo de campeã do carnaval daquele ano, a Mocidade Independente de Padre Miguel conseguiu mudar o resultado em plenária ao questionar a nota do julgador Valmir Aleixo que tirou da escola um décimo da nota no julgamento do quesito enredo. Na justificativa de Valmir, ele alegava a falta de um destaque que considerava importante para contar o enredo na avenida. O problema é que a interpretação de Aleixo se baseava em informações da primeira edição do roteiro das escolas que é distribuído pela Liesa. Na versão atualizada não constava mais a presença do destaque, retirado do enredo pela escola antes do carnaval. Com causa ganha, a LIGA declarou Portela e Mocidade como campeãs do carnaval 2017.

A Mocidade só foi declarada campeã junto a Portela em Abril de 2017

O não rebaixamento em 2017, conhecido como “Virada de Mesa” se repetiu em 2018. A Grande Rio, que fez uma desfiles mais problemáticos do ano, era dada como certa na parte final da tabela. A tricolor, que chegou na apuração com a punição de 0,5 ponto pelo estouro do tempo máximo de Desfile, terminou na 12º colocação e sacramentada para descer junto ao Império Serrano, que amargou o ultimo lugar. Porém semanas após o carnaval, a Liga decidiu que novamente não haveria rebaixamento. É importante lembrar que neste episódio o então Presidente Jorge Castanheira era contra rasgar o regulamento, no entanto, ele não tinha voto em plenária. Na ocasião, Castanheira admitiu que a entidade atendeu a um “pedido do poder público”, mas não escondeu o desconforto. “Que seja a última (decisão) de modificar o regulamento, porque isso é muito desgastante para as escolas”, declarou na época.

Desfile esquecível da Grande Rio em 2018- Foto Fábio Tito/G1

Após o carnaval de 2019, os Presidentes das Escolas de Samba do Grupo Especial decidem por manter a Imperatriz Leopoldinense (Rebaixada deste ano) no Grupo. Com mais uma “virada de mesa”, Jorge Castanheira declara publicamente que vai deixar o cargo de presidente da LIESA. “Foi colocado na pauta a permanência da Imperatriz para o ano que vem, alegando as dificuldades gerais do grupo de acesso. Eu não concordo com essa posição. A diretoria da Liga também está se desfazendo e vou tomar as medidas para a transição. Fiz um TAC (Termo de Ajuste de Conduta) com o Ministério Público e tenho que manter a palavra. Tenho compromisso com o público e com os contratos que fizemos”, declarou na ocasião.

Com o rebaixamento da Imperatriz em 2019, as escolas decidem pela terceira virada de mesa consecutiva. Após grande repercussão, decidem voltar atrás,

Com a pressão da imprensa e dos sambistas, uma nova plenária em Julho de 2019 decidiu manter o regulamento, ou seja, seguir com o rebaixamento das duas ultimas colocadas do ano para a série A em 2020. Na mesma reunião houve um pedido das escolas para que Jorge Castanheira seguisse no comando da LIESA para o ano seguinte. E foi o que ocorreu. Após um tranquilo carnaval em 2020, veio a crise sanitária com pandemia de Covid-19. Por questões de segurança, os desfiles das escolas de samba em 2021 não pode acontecer. Durante todo ano passado a LIGA vinha sofrendo duras criticas de pessoas ligadas as escolas sobre a forma que entidade tratou a crise das escolas durante a Pandemia. Entre eles, o conselheiro da Beija Flor, Gabriel David, que chegou a declarar em Novembro ultimo que “A Liga se preocupa mais em discutir a ciência que em defender interesses das escolas de samba“.

Gabriel David – Foto Divulgação

Outra critica de Gabriel a antiga gestão da Liga era o tempo de decisão em momentos de crise. Segundo o conselheiro, a liga vinha enfraquecendo o produto carnaval. “É nítida a crise que o Carnaval vive. Se a festa tivesse tomado atitude há três anos, a gente não estaria nessa situação hoje“, disse Gabriel em entrevista no ano passado.

Anísio Abrahão David, Presidente da Liesa Jorginho Castanheira e Capitão Guimarães – Fotos : Paulo de Deus

Um outro assunto bastante debatido é quanto a inércia da instituição em relação a Emissora que detém os direitos de transmissão. Em 2008 o tempo de desfile era de 82 minutos e passou para tempo mínimo de 65 minutos, com um limite máximo de 75 minutos, em 2020. A partir de 2015 a emissora deixou de transmitir a primeira escola de samba nos dois dias de Desfile. A decisão causou muita revolta entre os amantes do samba, e o total silencio por parte da Liga. Em 2020 a mesma emissora pagou um adiantamento para a Liga de São Paulo, mesmo sem ter desfiles. O mesmo não foi feito em relação as as Escolas de Samba sob gestão da LIESA.

O novo presidente da LIESA, Jorge Perlingeiro, anunciou que os trabalhos
para o próximo Carnaval começarão imediatamente

Ainda no ano passado, Jorge Castanheira decidiu anunciar que não concorreria a reeleição ocorrida dias atrás. Para seu lugar chega Jorge Perlingeiro, famoso por ser o locutor da apuração do carnaval carioca nas ultimas três décadas. O novo Presidente chega com apoio das escolas e disse que o momento é de espera para que a vacinação avance para que em julho, no mais tardar em setembro, existir a garantia da realização do Carnaval em 2022. Perlingeiro assume a LIESA no triênio 2021/2024.

Em sua despedida Jorge Castanheira foi homenageado na assembleia por Presidentes e representantes das Agremiações que levantaram-se para aplaudir o Ex Presidente, que antes de sair, anunciou que permanecerá acompanhando o trabalho das Agremiações. “Mesmo de fora continuarei atento ao trabalho de todas elas, como grande admirador que sou do espetáculo e de todas as nuances que acontecem nos bastidores. Esta sempre foi a maior satisfação: superar as dificuldades e ver todas as Escolas apresentando um belo espetáculo!”, concluiu.

Fotos Henrique Matos e Maria Zilda

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