RJ – Carnaval de 2007 – Beija Flor de Nilópolis – Áfricas

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Tricampeã nos carnavais de 2003, 2004 e 2005 com o trabalho executado por uma comissão de carnaval que tinha a liderança de Laíla, a Beija Flor de Nilópolis voltou ao topo do pódio da folia carioca no carnaval de 2007, desta vez contando com a participação de Alexandre Louzada, que havia sido campeão em 2006 pela Unidos de Vila Isabel, na comissão de carnaval da agremiação da baixada fluminense.

Para o carnaval de 2007 a LIESA, com suas habituais alterações no regulamento dos desfiles, determinou entre outras coisas, que a campeã do grupo de acesso do carnaval anterior ficava com a incumbência de abrir os desfiles na Sapucaí, regra esta que foi oficializada para os festejos de Momo de 2007, tendo a Estácio de Sá aberto então o desfile, já que havia sido a campeã do grupo de acesso no carnaval anterior. A Estácio tinha estado cerca de dez anos afastada do grupo principal das agremiações carnavalescas do Rio de Janeiro.

De resto, no comparativo com o carnaval de 2006, a grande expectativa era pelo trabalho do carnavalesco Paulo Barros, que havia deixado a Unidos da Tijuca depois do carnaval anterior indo para a Unidos do Viradouro.

Como de costume, foi na segunda noite de desfiles daquele ano, que aconteceu o desfile campeão realizado pela Deusa da Passarela na pista de desfile da Marquês de Sapucaí.

Os desfiles daquela noite foram abertos pela Unidos do Porto da Pedra, que juntamente com Acadêmicos do Salgueiro e Beija Flor de Nilópolis, tinha a África como pano de fundo para seus enredos naquele carnaval.

Fechando a segunda noite de desfiles, a Beija Flor de Nilópolis veio imponente com o objetivo de mostrar o tema de enredo “Áfricas – Do berço Real à Corte Brasiliana”, luxuosa como já é sua principal característica, mas também com pitadas de originalidade muito bem planejada e apresentada neste desfile, como por exemplo o uso de pinhas decorando a cabeça de esculturas em alegorias e também o uso de capim seco.

O samba apresentado foi considerado pela crítica especializada como o melhor daquele carnaval, sendo de autoria dos compositores Cláudio Russo, J. Veloso, Carlinhos do Detran e Gilson Dr.

“…Sou quilombola Beija-Flor
Sangue de Rei, comunidade (bis)
Obatalá anunciou
Já raiou o sol da liberdade…”

(Beija Flor de Nilópolis 2007)

 

 

O intérprete da azul e branco de Nilópolis, Neguinho da Beija Flor, contabilizou com este desfile 32 anos defendendo o samba de enredo da agremiação.

A platéia presente na Sapucaí ficou como que extasiada com o desfile da escola, pelo gigantismo de suas alegorias, os detalhes de acabamento muito bem realizados, a garra da comunidade nilopolitana e pela riqueza e pompa da África representada naquele desfile vitorioso.

Começando pela comissão de frente, denominada “Áfricas: realidade, realeza e axé”, com belíssimos figurinos e bailado sincronizado, sob a responsabilidade da coreógrafa Ghislaine Cavalcanti, vislumbrava-se que um grande desfile vinha por aí, para fechar com chave de ouro aquele carnaval.

Seguido da comissão de frente vinha o casal Claudinho e Selminha Sorriso, que com muita dança e elegância sem igual apresentavam com muito orgulho o pavilhão da escola aos presentes.

Antes ainda do carro abre alas propriamente dito vinha uma ala com enormes tripés em formato de girafas e elefantes, animais típicos das savanas africanas, que pareciam reais ao cruzarem a pista de desfile.

 

 

Denominado de “O Imponente Dom Divino”, o abre alas era gigantesco e acoplado em tons dourados, trazendo em sua frente um enorme beija flor com movimentos quase que reais, tendo componentes coreografados que preenchiam a cúpula de um enorme baobá, carregando em suas mãos como se fossem pássaros, que num determinado momento como que partiam numa grande revoada.

O beija flor, símbolo da agremiação nilopolitana, há mais de dez anos não aparecia nos desfiles da escola de forma tão majestosa.

As baianas da escola, em número de cento e dez integrantes, estavam majestosas e vestidas luxuosamente com uma fantasia feita com tecido que imita pele de zebra e leão e levaram na cabeça uma coroa de marfim, como verdadeiras integrantes da realeza africana.

 

A segunda alegoria recebeu o nome de “Majestosa Negra África”, com esculturas de leões. O carro seguinte, abandonando a figura do navio negreiro, na criação da comissão de carnaval da escola, colocou os negros que vieram para o Brasil nos braços de Iemanjá, alegoria esta nas tonalidades de azul e prata com uma belíssima escultura em alumínio na sua frente.

O quarto elemento alegórico representava a “A Luz que vem de Daomé”, destacando-se duas enormes esculturas de mães de santo na sua parte de trás. O carro alegórico seguinte, “Zumbi, Rei Guardião de Palmares”, apresentava o quilombo, trazendo muita originalidade em sua concepção e realização, com materiais como palha e bambu, além de destaques com belas fantasias.

Prosseguindo o desfile, vinha o carro “Vila Rica, a dourada África de Chico Rei”, destacando-se a iluminação desta alegoria e seus efeitos com água. Em seguida, outra alegoria predominantemente prateada, trazia as tradições folclóricas como o maracatu. Terminando o desfile, o último carro trazia uma baiana muito grande com seu tradicional tabuleiro de guloseimas.

Nesse desfile da escola nilopolitana, no seu início as cores empregadas eram mais fortes, vindo os tons mais suaves e coloridos que se harmonizaram com o azul e branco da agremiação.

Deixando a pista da Sapucaí, a Beija Flor saiu como favorita ao título daquele ano, conquistando o Estandarte de Ouro, do jornal O Globo nas categorias de melhor escola e melhor samba de enredo.

Outras agremiações também eram cotadas ao título daquele ano, mas todas com alguns erros cometidos durante o seu desfile.

A Beija Flor, de um total de 28 julgadores naquele ano, obteve apenas três notas diferentes da nota máxima.

Ao final da apuração, sagrou-se campeã a Beija Flor de Nilópolis, conquistando o décimo campeonato de sua história, seguida pela Acadêmicos do Grande Rio, Estação Primeira de Mangueira, Unidos da Tijuca, Unidos do Viradouro e Unidos de Vila Isabel.

As duas escolas que acabaram sendo destinadas ao grupo de acesso A no carnaval seguinte foram Império Serrano e Estácio de Sá.

No grupo de acesso daquele carnaval de 2007 a vencedora foi a São Clemente, seguida de perto pela Caprichosos de Pilares.

 

“…É Jeje, é Jeje, é Querebentã
A luz que bem de Daomé, reino de Dan (bis)
Arte e cultura, Casa da Mina
Quanta bravura, negra divina…”

(Beija Flor de Nilópolis 2007)

 

Passado o carnaval carioca de 2007, o campeonato da Beija Flor passou a ser questionado, depois da revelação de escutas telefônicas obtidas pela operação “Hurricane”, desencadeada pela Polícia Federal no mês de abril daquele ano.

A Polícia Federal gravou, durante a citada operação, ligações telefônicas que indicavam o pagamento de propinas a jurados no desfile de 2007 das escolas de samba do Grupo Especial carioca.

Foi apontado nas investigações como o principal tesoureiro da organização criminosa chefiada por Capitão Guimarães, ex-presidente da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio (LIESA), e Anísio da Beija-Flor, Júlio Cesar Guimarães que era o responsável pela escolha do corpo de jurados. Na época foi sugerida auditoria na contabilidade da LIESA.

Em função dessas denúncias, foi instaurada uma CPI na Câmara dos Vereadores do Rio para apurar a manipulação do resultado do carnaval e investigação sobre os contratos firmados entre a LIESA e pessoas jurídicas que atuaram no carnaval.

O relatório desta CPI ainda recomendava a apuração da vinculação entre membros da LIESA e escolas de samba, com a finalidade de averiguar se existia igualdade de tratamento da liga com todas as escolas ou se existia qualquer tipo de favorecimento.

Ao final de tudo, nada de concreto foi apurado que indicasse que realmente o resultado do carnaval carioca de 2007 havia sido manipulado, até mesmo pelo grande desfile realizado pela escola nilopolitana, que com certeza lhe credenciou à vitória neste carnaval.

O fato é que esta suspeita deu ainda mais força para a comunidade da Beija Flor pisar forte na passarela no carnaval de 2008, quando a Beija Flor alcançou um novo bicampeonato na folia carioca, mas esta é outra história, para ser tratada numa outra oportunidade…

Por Sidnei Louro Jorge Júnior

 

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