RJ – A confirmação do “Quilombo de Caxias” e a Relevância do enredo da Grande Rio

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Foto: Alexandre Durão

Nos primeiros minutos deste sábado, o Acadêmicos do Grande Rio divulgou, através das redes sociais da escola, que seu próximo enredo será “Fala, Majeté! Sete Chaves de Exu”. A escola escolheu a data pois o dia 13 de junho, é lembrado para celebrar os cultos a Santo Antônio e ao orixá Exu.

Após o belo desfile de 2020, onde a escola cantou “TatalondiráO Canto do Caboclo no Quilombo de Caxias“, os carnavalescos Léo Bora e Gabriel Haddad embarcam novamente na proposta de contar histórias e manifestações culturais ligadas à simbologia de divindades tão presente no universo das escolas de samba.

A tricolor de Caxias, que vestida de ráfia, palha e búzios, em 1989 fez seu primeiro desfile no Rio de Janeiro com o enredo afro religioso “O mito sagrado de Ifé“, no ultimo carnaval voltou a pisar forte no terreiro, e foi vice campeã. A escola estava afastada do universo dos temas sobre ritos e tradições negras desde 1994, quando levou para avenida o belo enredo “Os santos que Africa não viu“. Isso dois anos após ascender ao Grupo Especial com o fantástico “Águas claras para um rei negro”.

Como dizia o titulo de 2020, Duque Caxias é um verdadeiro Quilombo, Bora e Haddad, espertos como são, sabem disso. A dupla é um momento a parte entre carnavalescos da nova geração. Enredos como “O Circo do Menino Passarinho”, Igbá Cubango” e “O rei que bordou o mundo (Bispo do Rosário)” são obras dignas de mestres da geração de Arlindo, Pamplona e João Trinta.

Logo de 2021 e as peripécias de Exu

Em dados de 2019, Duque de Caxias, um dos mais importantes municípios da Baixada Fluminense, encontrava-se entre as maiores populações negras no estado do Rio de Janeiro. Diante de dados como este, caberia um “Voilá Caxias? (Alusão ao Enredo sobre a França em 2009 – Voilá significa agora, aqui ou algo no presente)”.

Bora e Haddad entenderam que cada enredo sobre a temática “negra cultural” é apenas um pequeno passo em longa caminhada contra a intolerância, seja ela racial ou religiosa. Com eles a escola chegou ao seu melhor resultado, feito que não alcançava desde 2010.

Os Carnavalescos da Grande Rio Gabriel Haddad e Leonardo Bora. Foto: Luciano Belford

Os registros de intolerância religiosa, tão comuns no Brasil, no Rio de Janeiro tem  característica particular, por envolver milicia de traficantes e evangélicos. Em 2019, Cerca de 1.500 pessoas participaram de uma caminhada na Baixada Fluminense, para protestar contra casos de intolerância.

Segundo números da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), foram registrados no primeiro semestre daquele ano, cerca de 200 ameaças contra casas que cultuam religiões de matriz africana no estado do Rio. Um número 100% maior do verificado no mesmo período no ano anterior. Desse total, 35% dos casos foram na Baixada Fluminense. Das 200 ameaças a terreiros no estado do Rio de Janeiro, a capital se fez de protagonista com 55% dos casos, Duque de Caxias fica com a terceira posição segundo estatísticas do Conselho Estadual de Defesa e Promoção da Liberdade Religiosa.

Protesto contra a intolerância religiosa na Baixada Fluminense em 2019

Se em algum momento da história do Carnaval do Rio houve dúvidas sobre a influência e presença das religiões de matriz africana na festa, 2020 veio para derrubá-las. As três primeiras colocadas do grupo especial levaram à Sapucaí a força dos orixás do Candomblé, das entidades da Umbanda e o papel primordial que essas crenças têm na construção da identidade cultural brasileira.

O samba da Viradouro, grande vencedora do Carnaval, já começava com uma saudação a Oxum, orixá das águas doces. A composição foi protagonista de um dos momentos mais emocionantes dos desfiles na Sapucaí, que abraçou as referências ao Candomblé. Na própria Grande Rio de 2020, não faltaram referências aos orixás durante o desfile. O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira cruzou a avenida com fantasias que remetiam a Exu e Pomba Gira.

Ultimo setor da Grande Rio em 2020 – Foto Alexandre Durão

Levada à avenida como uma deusa com origem no povo, Elza Soares foi homenageada pelo enredo da Mocidade Independente de Padre Miguel, que ficou com o terceiro lugar em desfile marcado por elementos que celebraram o sincretismo religioso, a tolerância e a diversidade, celebradas na letra do samba e em um carro alegórico, que trazia a frase “Exu te ama”. A Beija-Flor fechou os desfiles da Sapucaí na madrugada de segunda-feira com uma celebração às ruas. Durante todo o desfile da escola de Nilópolis a rua pertenceu ao povo através de Exu, entidade que abre caminhos.

Foto Alexandre Durão – Primeiro Casal da Grande Rio em sincronia em meio ao desfile de 2020

Assim como Exu, muitos outras divindades afros, como Oxum, Xangô, Oxalá, Oxóssi e Iemanjá, passaram a fazer parte da vida de todos nós, e não apenas dos adeptos do candomblé ou da umbanda, outra religião afro-brasileira. Chamadas de orixás (palavra de origem ioruba que significa divindade), fazem parte da cultura brasileira, com seu significado místico e simbólico, suas festas, comidas, cores e símbolos. Queiram ou não, fazem parte do Brasil.

No próximo carnaval aguardem novo espetáculo cultural e visual vindo das bandas de Caxias. A grande sacada da dupla de carnavalescos foi inserir Estamira Gomes de Sousa no enredo. A idosa que apresentava distúrbios mentais, vivia e trabalhava no aterro sanitário de Jardim Gramacho (em Caxias).

Assim como João Trinta deu luz a história de Gentileza, a dupla Haddad e Bora trazem Estamira e sua comovente história para o maior palco cênico do mundo. O Palco do povo tendo o povo como estrela.

Tornou-se famosa pelo seu discurso filosófico, uma mistura de extrema lucidez e loucura, que acreditava ter a missão de trazer os princípios éticos básicos para as pessoas que viviam fora do lixo onde ela viveu por 22 anos e para ela “O verdadeiro lixo são os valores falidos em que vive a sociedade”.

Uma da peculiaridades de Estamira, estava o fato de ser a unica pessoa que dizia falar com Exu, ali mesmo no lixo, por telefone. Mais uma vez o olhar dos dois carnavalescos foi cirúrgico. Estamira é nossa, é do Carnaval, é de Caxias e de Exú!

Falar da relevância deste trabalho talvez daria uns três textos como este. Mas o autor se atém a clamar por mais “Fala, Majeté! Sete Chaves de Exu” e afirmar que agora sim, como dizia o samba da escola em 1996, “GRANDE RIO DANDO UM BANHO DE CULTURA!”

Foto: Alexandre Durão

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