O carnaval já foi adiado outras vezes, em consequência tivemos folia dobrada no Rio de Janeiro

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Alegria no desfile da Imperatriz Leopoldinense 2020 - Foto Alexandre Durão

O carnaval de 2021 em São Paulo foi adiado para o final de maio ou início de julho do ano que vem por causa da pandemia do coronavírus, conforme anunciou o prefeito Bruno Covas (PSDB) no ultimo dia 24. Outras cidades com carnaval tradicional, como Rio, Recife e Salvador, podem também adiar a folia do ano que vem. Duas vezes na história do país a festa mais esperada do ano sofreu mudança de calendário. O povo ignorou a sentença e pulou dois carnavais.

A primeira foi em 1892, quando o ministro do Interior tentou mudar a data da festa para 26 de junho. Segundo o ministro, o evento gerava muito lixo, e junho era um mês mais “saudável” que fevereiro. Caiu como uma bomba entre os foliões a proposta da apresentada em janeiro de 1892 para junho. Os festejos carnavalescos daquele ano deveriam ocorrer nos dias 28 e 29 de fevereiro e 1º de março.

A ideia não era nova. Em 1890 foi apresentada ao ministro do Interior de então, dr. Cesario Alvim, que não encampou a iniciativa. Os defensores da proposta justificavam a mudança por “precaução higiênica”, considerando que o inverno era uma época mais apropriada aos folguedos “por sua natureza excessivas e provadamente inconvenientes durante a quadra calamitosa que constituem os meses de verão nesta capital Rio de Janeiro, explicou o jornal O Paiz. A proposta, que partiu do intendente municipal, major França Leite, foi aprovada no dia 28 de janeiro e encaminhada ao ministro do Interior do governo Federal para sanção, o que ocorreu no dia 1º de fevereiro:

Atendendo: que nesta cidade a época do carnaval é no rigor da estação calmosa, e quando as epidemias maior números de vida arrebatam; que sempre depois do carnaval recrudescem extraordinariamente as epidemias reinantes; que assim sendo, é altamente inconveniente a realização dessa festa na época que lhe é designada no calendário pelo que deve ser absolutamente proibida: proponho que se designem para o carnaval os dias 26, 27 e 28 de junho, entre os dias de São João e São Pedro, que são na melhor época do ano, solicitando-se ao ministro do Interior imediata aprovação, publicando-se editais pela imprensa e oficiando-se ao Dr. Chefe de polícia, a fim de não dar licença para a saída de qualquer grupo carnavalesco — França Leite”.

No Jornal do Commercio  houve reação: “É inútil a tal transferência de carnaval, porque este será feito nos salões das sociedades carnavalescas nos dias determinados do mês corrente. Quem não quiser divertir-se na época marcada (há muitos anos) para o carnaval que não se divirta, mas obrigar-se um povo pacífico, da noite para o dia, a aceitar uma postura contrária aos seus costumes, indica tão somente falta do savoir-faire [falta de tato]”.

Rio De Janeiro, Brazil’, 1892. (Photo by The Print Collector/Print Collectos)

Enquanto o debate ocorria nos jornais e nas ruas do Rio de Janeiro, as sociedades carnavalescas continuavam a cumprir suas programações e no início de fevereiro já aconteciam os primeiros bailes. Os lojistas, que já tinham recebido estoque de mercadorias para este período, expunham nas vitrines as fantasias e demais acessórios para as festas momescas. Em meio as discussões, a Intendência, que havia aprovado o projeto por unanimidade no dia 28 de janeiro, modificou os dias do carnaval em junho, passando o seu início para o terceiro domingo daquele mês, ou seja: em 1892 seria nos dias 19, 20 e 21. No dia 6 de fevereiro circulou nos jornais a notícia dando conta que o chefe de polícia havia orientado os subdelegados que “não permitais que, nos dias 28 e 29 deste mês e 1º de março, no distrito sob vossa jurisdição, se exibam pelas ruas sociedades e grupos carnavalescos”. No dia seguinte, um aditamento determinava também a proibição “de máscaras avulsas e outros quaisquer do mesmo gênero”.

Durante o carnaval foi denunciado o “excesso de zelo” da polícia, que visitou as lojas de comércio e obrigou os seus proprietários a retirarem das vitrines as mercadorias ofertadas aos foliões. As informações nos jornais indicavam que a “transferência” não afetou o carnaval carioca, mesmo não havendo carnaval de rua. O jornal O Paiz de 29 de fevereiro (segunda-feira de carnaval) comentou que “ainda não se extinguiu o carnaval, apesar de transferido; é que ainda vive e se faz festejado internamente, já que não se pode apresentar à população, triste e sem calor, apesar de muito que proporciona o nosso clima e a nossa má higiene”.

Em meados de junho, dias antes do carnaval transferido, a polêmica sobre a medida continuava. Alguns até tentaram boicotar as festas carnavalescas no período junino. Pela imprensa da época percebesse que o carnaval extemporâneo não funcionou. Aconteceram os bailes e alguns eventos de rua, mas o frio e a chuva desestimularam os foliões a experimentar a novidade. No dia 6 de janeiro do ano seguinte, os jornais anunciavam que a próxima reunião ordinária do Conselho da intendência municipal analisaria o Projeto nº 25 visando restabelecer o carnaval em fevereiro. O projeto foi subscrito por 18 conselheiros, “além de outros que são favoráveis a anulação da postura que tão esdruxulamente transferiu o popular folguedo para o mês das coisas frias”, informou O Paiz. Para alegria dos cariocas, e do carnaval brasileiro, o projeto foi aprovado por ampla maioria.

Em 1912, mais uma tentativa frustrada de mexer com a folia do brasileiro: por causa da morte do Barão do Rio Branco, em 10 de fevereiro daquele ano, o governo determinou que os bailes de Carnaval fossem adiados para o dia 6 de abril. Mais uma vez, o povo não se abalou: pulou duas vezes e ainda entoou uma marcha improvisada para ridicularizar a situação: “Com a morte do Barão tivemos dois Carnavá / Ai, que bom, ai, que gostoso / Se morresse o marechá”. O “marechá”, no caso, era o atual presidente Hermes da Fonseca. O episódio de 1912 é detalhado no livro “O Dia em que Adiaram o Carnaval”, de Luís Claudio V. G. Santos, lançado em 2010 pela Editora Unesp. Segundo o autor, uma multidão de luto saiu pelas ruas para velar a morte do herói nacional. Isso não impediu, porém, que uma semana depois já estivessem todos vestidos em fantasias coloridas.

Atualmente o caso é bem mais complexo, pois desta vez a situação pede mais cautela. Diante uma pandemia com mais de 800 mil mortos no mundo, sendo 115 mil no Brasil, a decisão sobre a data para o maior espetáculo da terra em 2021 depende exclusivamente da descoberta de uma vacina eficaz para o vírus mortal que afetou todos grandes eventos no mundo. No próximo dia 28, a Liesa promete decidir o próximo carnaval do Rio de Janeiro, naturalmente outras cidades onde o carnaval tem relevância e tradição, devem seguir da mesma decisão. Em live no canal de Jorge Perlingeiro, Jorge Castanheira (presidente da Liesa) promete adiantar qual será o consenso das escolas. A live será transmitida direto da Cidade das Artes, contará com a presença de Fabricio Villa Flor (presidente da Riotur), Camila Vieira de Sousa (Secretaria Especial de Turismo e Legado Olímpico) e Adolpho Konder (Secretário Municipal de Turismo).

números da Covid-16 em 26/08/2020

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