“Neste Palco Iluminado” – As decorações de rua deixavam o Rio de Janeiro mais maravilhoso

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Até os anos 70, turistas e curiosos em geral se dirigiam ao centro do Rio de Janeiro para um evento que já havia se tornado uma tradição da cidade. Jornais noticiavam, revistas semanais ainda dedicavam capas e reportagens destacando a beleza e originalidade das criações plásticas que ficavam maiores e mais impressionantes a cada ano. Estamos falando do acender das luzes das decorações que enchiam de vidas as principais ruas da cidade maravilhosa durante o reinado de Momo.

Desde o período colonial, a Cidade do Rio de Janeiro já ornamentava suas ruas para festas  como aquelas dedicadas aos casamentos da corte ou eventos da família real portuguesa que eram saudados com grandiosos desfiles que incluíam carros alegóricos, costume que mais tarde, já na segunda metade do século XIX, se refletiria nas ornamentações da folia nas ruas cariocas.

Jean-Baptiste Debret – Desembarque de D. Leopoldina no Brasil, 1817 Rio de Janeiro, Museu Nacional de Belas Artes

O primeiro desfile organizado de uma sociedade carnavalesca de que se tem notícia foi realizado por um grupo intitulado Congresso das Summidades Carnavalescas, em 1855. Os membros do clube eram parte da alta sociedade brasileira e sairam às ruas fantasiados com os mais diversos temas e tipos de fantasias luxuosas ao estilo europeu. Um dos fundadores deste clube foi na época o ainda jovem escritor José de Alencar autor do famoso livro e romance “O Guariní”.

Um ano depois, em janeiro de 1856, para saudar este cortejo carnavalesco, os moradores do Centro do Rio começaram a enfeitar suas ruas com bandeiras, fitas, cartazes, luzes bandeirolas e arcos floridos. D. Pedro II saiu da Paço Imperial da Quinta da Boa Vista, para assistir ao desfile, que passou pelas ruas do centro da cidade, e entrou no Largo do Paço em meio a grandes aclamações.

Congresso das Sumidades Carnavalescas, primeiro desfile organizado do Rio de Janeiro- 1855

A primeira rua enfeitada que por ora noticiada em jornais, foi a antiga Rua das Violas (hoje rua Teófilo Otoni), que se “fantasiou” para receber com pompa e circunstância o hoje histórico primeiro desfile. Estes clubes carnavalescos eram chamados de “Grandes Sociedades” promoviam desfiles na cidade quando seus membros saíam fantasiados. As duas primeiras grandes sociedades foram o “Congresso” e um grupo chamado “Sociedade Veneziana”

Nas décadas seguintes, essas recepções decoradas seguiram com intensidade pelas ruas, nos coretos dos subúrbios e nas avenidas mais nobres do Centro, onde o patrocínio do comércio ajudava embelezar o espaço urbano e atrair maior quantidade de foliões.

Em 1928, a Prefeitura decide trazer para si a responsabilidade de organizar a festa carnavalesca, determinando horários, percursos e trajetos para as manifestações da folia. Entre outras atitudes estava incluída a organização da primeira decoração oficial da cidade, contratando o cenógrafo Luiz Peixoto para a tarefa.

O artista enfeitou as ruas com personagens da “commedia dell’arte”, como arlequim, pierrô e colombina, o que, à ocasião, não fez muito sucesso. Na época esses símbolos europeus não eram conhecidos pela população. Contudo, mesmo não sendo bem-sucedida num primeiro momento, a participação de Peixoto deu início a uma nova era, em que a festa carnavalesca passava a ser reconhecida como um evento oficial do Rio de Janeiro.

A partir daí, a decoração foi tomando vulto, servindo não somente como atração turística, mas, principalmente, como uma forma de identificar lugares importantes para a reunião de foliões. Além dos coretos presentes em diversos bairros da cidade, a Avenida Rio Branco e a Praça Onze se destacavam por suas decorações.

No início do século XX, o Rio de Janeiro passava por graves problemas sociais, todos decorrentes, em grande parte, de seu rápido e desordenado crescimento, alavancado pela imigração europeia e pela transição do trabalho escravo para o trabalho livre.

Na ocasião em que Pereira Passos assume a Prefeitura da cidade, o Rio de Janeiro, com sua estrutura de cidade colonial, possuía quase um milhão de habitantes carentes de transporte, abastecimento de água, rede de esgotos, programas de saúde e segurança.

Na região central da Cidade e adjacências, eclodiam habitações coletivas insalubres (cortiços), epidemias de febre amarela, varíola, cólera, conferindo à cidade a fama internacional de porto sujo ou “cidade da morte“, como se tornara conhecida. A reforma urbana de Pereira Passos, período conhecido popularmente como “O Bota-Abaixo”, visou o saneamento, o urbanismo e o embelezamento, dando ao Rio de Janeiro ares de cidade moderna e cosmopolita.

O “bota baixo” de Pereira Passos na Cidade do Rio

Após a intensa reforma por que passou a cidade na gestão de Passos, o carnaval sofreria uma certa divisão social. Enquanto a elite e a classe média frequentavam a Avenida Central (Hoje Avenida Rio Branco), os menos abastados se divertiam na Praça Onze (A pequena Africa). No começo do século, o antigo entrudo, com seus politicamente incorretos limões de cheiro, seria considerado uma prática a ser combatida e eliminada dos nossos costumes. A prática foi sendo substituída pelas batalhas de flores e de confete, hábito dos  corsos bem-comportados que cruzavam as ruas da cidade.

Foto do acervo do Correio da Manhã, mostra Av. Rio Branco, provavelmente na década de 30. Destaque para a decoração do carnaval.

Já no inicio dos anos 1940, o momento cultural que o País vivenciava era a aproximação cultural entre Brasil e Estados Unidos. Grandes painéis representam Mickey, Popeye e Olívia Palito, entre outros, unindo a temática infantil nacional à norte-americana. Era a Política de boa vizinhança ou “Good Neighbor Policy“, iniciativa criada e apresentada pelo governo de  Franklin D. Roosevelt para estreitar laços com países da América Latina entre 1933 até 1945, final da segunda grande guerra.

Decoração da praça-onze para o carnaval-de 1948

Com o crescimento das escolas de samba e seu sucesso cada vez mais retumbante, e com o deslocamento dos desfiles para a Avenida Presidente Vargas, em 1963, as decorações iriam adquirir um caráter monumental e espetacular, tornando-se, por si só, uma atração carnavalesca da cidade. Grandes artistas, como Fernando Pamplona, Adir Botelho, Rosa Magalhães e Lícia Lacerda, criaram verdadeiras obras de arte urbana, que envolveriam a cidade numa ambientação mais surpreendente a cada ano.

É no Theatro Municipal que encontraremos o cenógrafo e futuro professor da EBA Escola de Belas Artes, Fernando Augusto Pamplona tentando seu primeiro concurso, em 1954, cujo tema, sobre orixás africanos, perdeu para “Navegações”, de autoria do cenógrafo Mario Conde, que decorou o teatro com animadas batalhas de piratas. Mas Fernando Pamplona conseguiu enfeitar as ruas com sua temática africana, vindo exercer papel importante no carnaval da década seguinte, principalmente nos anos 1960.

Além de atuar como mediador entre a academia, o teatro e o carnaval, Pamplona trouxe temas diferentes dos usuais.

Fernando continuaria suas atividades como decorador de outros salões, como os do Copacabana Palace e do Hotel Glória, onde naquele mesmo ano de 1954 se realizaria o Baile dos Artistas, para o qual, junto com Nilson Pena, ele criaria uma decoração baseada totalmente no tema da mitologia grega, intitulada “Gregalhadas.

Os artistas convidados ou contratados pela prefeitura se revezavam entre as ruas e os salões de bailes, sendo o principal aqueles do Theatro Municipal, onde se realizava o Baile de Gala da Cidade.

A cada ano que passava, os desfiles das escolas de samba se mostravam mais concorridos. Sem espaço, o grande público presente invadia o local de apresentação das agremiações, promovendo incidentes entre a polícia e os admiradores das escolas. Os problemas motivaram reclamações dos sambistas, que pleiteavam junto aos órgãos municipais um novo local de desfile, bem como tentavam mostrar os problemas acarretados pelo barulho das madeiras do tablado. Era um prenuncio que as ruas não seriam mais as mesmas durante o carnaval.

Mesmo assim a prefeitura preferiu ignorar as demandas e deu atenção para a decoração da cidade, desta vez feita com painéis gigantes. A Avenida Presidente Vargas recebeu um portal de 22 metros de altura, com a figura de uma baiana e um ritmista. Na Praça Onze foi erguida outra decoração com quatro baianas, também de 22 metros de altura, levando tabuleiros. A Avenida Rio Branco, entre uma calçada e outra, ganhou arcos duplos de 14 metros de altura, com figuras de foliões e decoração nos 118 postes locais. A Praça Marechal Floriano e a Praça Tiradentes também ganharam decorações temáticas.

Fernando Pamplona retomaria seu projeto de vestir o Theatro Municipal com motivos africanos, proeza que consegue, dessa vez sem criar polêmicas, em 1959, véspera do ano em que leva a Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro ao título de campeã, com o enredo Zumbi dos Palmares e, dando continuidade a suas Áfricas, em 1962, quando vence o concurso para decoração da cidade do Rio de Janeiro, colocando gigantescos totens africanos na Praça Onze.

As Africas de Pamplona na década de 60

Em 1965 comemoravam-se os 400 anos da fundação da cidade do Rio de Janeiro, e o país completava seu primeiro ano do regime militar iniciado com o golpe de 31 de março de 1964. Com a mudança da capital do país para Brasília em 1960, a cidade carioca ainda era fortemente identificado como símbolo nacional, tendo em vista seu passado como capital.

Também contribuía para isso o fato do Rio  sediar instituições culturais de dimensões nacionais, como o Arquivo Nacional, a Biblioteca Nacional, o Museu Nacional de Belas Artes, o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil e a Academia Brasileira de Letras. Mesmo perdendo o status anterior, o Rio mantinha sua aura de capitalidade.

O concurso para decoração das ruas, instituído pelo decreto-lei n. 396, de 23 de outubro de 1963, foi lançado no mês de outubro de 1965, sendo os vencedores conhecidos em Dezembro, tendo pela frente os meses que antecediam o carnaval para a execução de seus projetos. No ano do IV centenário os espaços a ornamentar compreendiam a Avenida Rio Branco em toda a sua extensão, a Praça Floriano, a Avenida Presidente Vargas até a Praça da República, a Praça Mauá e o Largo da Carioca. Era obrigatória a inspiração em motivos históricos ou culturais que fizessem referência ao Rio de Janeiro.

Aquele foi um ano em que a participação dos integrantes da EBA se fez notar mais do que nunca. O projeto de projeto de Adir Botelho e seus parceiros venceu a competição com imensos painéis com as gravuras de Debret. O segundo lugar foi para Newton Sá e a terceira colocação foi dada a Plínio Cipriano, Fernando Pamplona, Arlindo Rodrigues e Mario Monteiro. No desfile das escolas de samba, sagrava-se campeã novamente o Acadêmicos do Salgueiro com o enredo de Pamplona e Arlindo Rodrigues que contava a história do Carnaval Carioca, baseado no livro homônimo da cronista Eneida de Moraes. No concurso de decoração do Theatro Municipal, venceria o pintor e professor Manoel Francisco Ferreira em parceria com Esmeralda Barros, com o tema Largo do Rio Antigo.

Fernando Pamplona em foto da década de 70

No período de cinco anos, compreendido entre 1960 e 1965, as ornamentações se agigantaram e tornaram-se, junto com os desfiles das escolas de samba, o ponto alto do carnaval carioca. Até então as decorações se limitavam aos postes das ruas, suspensas por gambiarras, e aos gigantescos painéis em locais de maior concentração, tais como o Obelisco da Avenida Rio Branco e a Praça Tiradentes. A ideia do teto decorado sugerida por Pamplona levava para a rua uma concepção cenográfica diferente no tratamento do espaço urbano.

Desfile da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro, na Avenida Presidente Vargas. Rio de Janeiro, 15 de fevereiro de 1964.

A partir de 1962 já se explorava o sistema tubular com estrutura de ferro, o plástico e o uso do tronco de eucalipto fixado por cabos de aço como sustentação dos elementos decorativos que eram dotados também de nova concepção de iluminação interna e maiores dimensões. Na prática, a estrutura tubular determinou também maior velocidade na montagem e desmontagem e, sobretudo, mais segurança, sendo economicamente mais viável para os cofres públicos.

Ornamentação feita por Fernando Santoro, Davi Ribeiro e Adir Botelho para o carnaval de 1966, que contava com imensas rodas-gigantes coloridas e iluminadas pela Av. Presidente Vargas

Com o sucesso da decoração do IV Centenário, no ano seguinte novamente Aldir Botelho junto de Fernando Santoro e Davi Ribeiro assinaria o trabalho vencedor, que recebeu o nome de “Fantasia em Sol Maior“. Sendo considerada pelos jornais da época de muito mau-gosto. O projeto contou com 54 rodas-gigantes, 3 imensos balões com 8 metros de diâmetro, 20 torres, uma torre do sol com 26 metros de altura, 10 girassóis com 20 metros de diâmetro.

O gigantismo das decorações de rua, sua sofisticada elaboração e seu alto custo terminaram por inviabilizá-las. Competindo com elas e estimuladas pela ampliação do espaço cênico para o desfile proporcionado pelo Sambódromo, as escolas de samba também aumentaram as proporções de suas alegorias e fantasias. A afirmação dessas novas linguagens estabeleceu patamares inéditos para a organização da festa urbana, estimulados pela disposição do poder público em tornar mais atraentes os espaços a ela destinados.

Com a inauguração do sambódromo em 1984, o Foco nas decorações urbanas viria a diminuir. Mesmo com a supermacia das escolas de samba, as passarelas da cidade maravilhosa ainda resistiam como no video abaixo que mostra o carnaval de 1970 com seu palco iluminado para receber as agremiações que já se transformam em potencias.

A tão sonhada Passarela do Samba estabeleceria novos paradigmas para as escolas e para todo o carnaval carioca. Obra de Oscar Niemeyer, com linhas decididamente modernistas, o Sambódromo se mostraria avesso a decorações. Segundo seu idealizador, Darcy Ribeiro, e seu arquiteto, a arquitetura “pura” e “limpa” do espaço de desfile não deveria ser “enfeitada” com qualquer tipo de decoração. Ribeiro chegou afirmar que enfeitar o Sambódromo seria o mesmo que colocar gravata no Cristo Redentor.

Marques de Sapucaí ornamentada pela ultima vez em 1988

A importância da Passarela como palco dos desfiles das escolas de samba, que dominavam quase que totalmente o cenário carnavalesco no inicio dos anos 80, acabou influenciando todo o carnaval da cidade. A partir de então, as decorações das ruas começaram a deixar de interessar às autoridades que, ano após ano, investiam menos em sua execução.

O desfile cheio de palha da Imperatriz em 1983, carnavalesco Arlindo Rodrigues. Foto: Anibal Philot

À medida que o desfile das escolas de samba passou a ganhar popularidade como um dos símbolos do carnaval, a decoração de rua, inversamente, perdeu importância. As decorações carnavalescas do Rio acabaram desparecendo e hoje se tornou simples painéis para divulgar as logomarcas dos eventuais patrocinadores da folia.

Decoração de rua do carnaval de 1992, na Avenida Rio Branco Foto: Wiltonauar Moura

Quanto ao Sambódromo se formos observar com atenção, a Passarela do Samba hoje é “decorada” anualmente por anúncios e outdoors, pouco restando da “pureza” original para ser observada durante o carnaval.

O livro Batalha das Ornamentações: a Escola de Belas Artes e o Carnaval Carioca, da pesquisadora Helenise Monteiro Guimarães serviram como fonte para este artigo. No mesmo livro, pode ser encontrado mais sobre o assunto e muitas outras histórias sobre o carnaval antigo. A também professora Helenice nos alerta sobre a importância destes artistas no tocante a aproximação com o poder publico, que a partir dali reconheceu que o carnaval enquanto cultura precisa estar sob os cuidados de quem comanda esta cidade.

Reconhecemos que tanto os decoradores carnavalescos quanto as escolas de samba estreitaram as alianças com os poderes públicos para a conquista efetiva dos espaços festivos da cidade, alianças que não ocorreriam apenas por questões de mobilidade social de atores e organizações carnavalescas, situação identificada na ascensão das agremiações e no interesse da classe média por seus desfiles. A própria cidade se torna cenário e paisagem lúdica, demarcando fronteiras e espaços da folia, e atuando também ela própria como a grande mediadora de sua festa engalanada“, escreveu Helenise Guimarães.

Por Waldir Tavares – Fonte:GUIMARÃES, Helenise Monteiro. As Áfricas de Pamplona e o Debret da Trinca : “figurinos” monumentais do carnaval carioca. 

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