O Samba é Resistência nos 50 anos de “Heróis da Liberdade

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“Eu não tenho culpa de retratar a História. Não fui eu que a escrevi”. Silas de Oliveira

Após todos os Sambas escolhidos no grupo Especial do Rio de Janeiro, o que fica de lembrança nas disputas são: A guerra cibernética e marqueteira nos bastidores (Isso é pauta para outro momento), e a divisão entre os sambistas sobre samba que entra na situação politica é “lacrador” (gíria politica, significado mandar bem) ou não. E se vale a pena o samba ser mais uma voz contra opressão.

E justamente para falar sobre este tema vamos voltar 50 anos e relembrar aquele que talvez seja o mais emblemático samba da invejada galeria de jóias do Glorioso Império Serrano.

No carnaval de 1969, o Império Serrano, entrou na avenida com um enredo homenageando aqueles que lutaram pela liberdade ao longo da história do Brasil. Dos participantes dos movimentos nativistas do período colonial aos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira, passando pelos homens e mulheres livres de Palmares e pelos combatentes das lutas independentistas, abolicionistas e republicanas, o samba intitulava-se “Heróis da Liberdade”.

Só que naquele fevereiro, pouco mais de dois meses após a decretação do AI-5 pela ditadura dos generais, cantar a liberdade adquiria um caráter altamente subversivo.

O samba de Silas de Oliveira, Mano Décio e Manoel Ferreira, considerado por muitos o mais bonito samba-enredo da história do carnaval carioca, reforçavam esse viés de contestação, parecendo remeter às grandes manifestações contra o regime ditatorial ocorridas ao longo do ano anterior.

A “ousadia” não passou despercebida ao regime e para ter o samba liberado, os compositores tiveram que alterar a letra, substituindo “é a revolução em sua legítima razão” por “é a evolução (?) em sua legítima razão”.

Além disto, Silas de Oliveira e Mano Décio foram chamados ao temido Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) para prestar esclarecimentos sobre o pretenso “teor subversivo” do samba. Lá, ao ser questionado por um militar sobre seus versos, Silas teria respondido: “Eu não tenho culpa de retratar a História. Não fui eu que a escrevi”.

Mesmo com a repressão, o samba de 1969, não mudou o pais naquele momento, mas resistiu exaltando a liberdade em plena ditadura no Brasil. E que dava um recado claro sobre como o povo deve proceder para promover mudanças em tempos difíceis – A revolução deve nascer de um movimento coletivo, que envolva a todos e um desfile de escola de samba é exatamente isso.

Na Sapucaí já “lacramos” e fizemos história. Quem não se lembra da Caprichosos, que em forma de deboche provocava o governo de forma duro (Oh Saudade). Em 1989 um cortejo de mendigos sorridentes deu o seu recado para as elites dos camarotes e frisas em duros anos de um Brasil ainda doente naquele inicio da nova democracia. Uma mesma Beija Flor literalmente monstruosa em 2018 substituiu o luxo por nossa realidade, chegando a nos dividir entre o “amo e odeio este desfile”. A valente Tuiuti passou em nossas caras o cativeiro social em que vivemos de forma sofrida e real. A injustiçada e “lacradora” São Clemente que chegou a ser censurada pelo prefeito no inicio do mandato com a famigerada frase “Pegue mais leve”.

E apenas para citar mais um, a velha Manga que para falar que o carnaval das ruas é das povo, precisou enforcar um bispo em plena avenida (aplausos para a velha senhora verde rosa). E no ultimo carnaval rasgou as paginas de livros para dizer exatamente aquilo na famosa frase de Silas que abre este texto.

No próximo carnaval, graças aos nossos artistas, vamos ter sim, Índios que não se curvam a capitão e nem a bispos, um palhaço que nos fará sorrir para resistir , o povo das rua, a luta contra a intolerância religiosa e de novo a velha manga que num “sonho divinal” do seu artista, promete trazer jesus cristo para nos dizer ou nos ensinar que talvez seja disso que este país mais precise. Resistência e Democracia.

Até lá, há que se por em prática a disposição para a resistência presente nos geniais versos do histórico samba-enredo que embalou o Império Serrano em 1969 e que foram considerados por Carlos Drummond de Andrade como alguns dos mais belos já escritos em língua portuguesa. Deixando claro que sim, o samba pode e deve “lacrar” SEMPRE!

Por Waldir Tavares

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