João Clemente Jorge Trinta ou simplesmente Joãosinho Trinta (In Memorian)

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“O povo gosta de luxo; quem gosta de miséria é intelectual.” – Joãosinho Trinta – 1979

 

Crédito: Carlos Vieira

João Clemente Jorge Trinta, ou simplesmente Joãosinho Trinta, destacado artista plástico e carnavalesco brasileiro, nasceu no dia 23 de novembro de 1933, na cidade de São Luís, capital do Maranhão.

Na época em que ainda residia no Maranhão, João fazia parte de um grupo de amigos e intelectuais, em cujo grupo participava o poeta Ferreira Gullar e José Sarney, vindo de tradicional família de políticos maranhenses dentre outros. Naquela época João trabalhou como escriturário, até que no ano de 1951 conseguiu na empresa que fosse transferido para a cidade do Rio de Janeiro.

Já na capital fluminense dedicou-se a estudar balé na academia de Eduardo Sena, até que em 1956, depois de prestar concurso público, ingressou no corpo de balé do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. A partir daí João participou de várias montagens de óperas e balés. Foi no Theatro Municipal que passou a ter contato com os cenógrafos Arlindo Rodrigues e Fernando Pamplona, os quais trabalhavam nas cenografias do teatro e também planejavam e executavam as decorações de bailes e as decorações de ruas da cidade para o carnaval.

Nas palavras de Zeni Pamplona, viúva do saudoso carnavalesco Fernando Pamplona, que também foi contemporânea de João no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, “com 1,57m, ele só fazia papéis secundários” — em um programa de 1963, João Jorge está no último grupo, o dos garçons’. Zeni e João dançaram juntos na ópera “Príncipe Igor’’, que tem um número para bailarinos de menor estatura.— “João viu que não seria grande, se desiludiu — diz Zeni. — Mas era um geniozinho. Foi fazer figurino e cenário com o Fernando Pamplona”.

Joãosinho Trinta, na época que atuava no Theatro Municipal chegou a montar várias óperas, podendo-se destacar “Aída”, “Tosca” e “O Guarani”.

No ano de 1960, o cenógrafo Fernando Pamplona assumiu como carnavalesco a Acadêmicos do Salgueiro e para a execução do carnaval da escola, carregou consigo componentes de sua turma do teatro, dentre estes o figurinista Arlindo Rodrigues e claro Joãosinho fazia parte deste mesmo grupo.

É de Fernando Pamplona a frase sobre João 30: “Ele não aprendeu nada comigo. Já sabia tudo e me ensinou muita coisa’’. Pamplona juntamente com Arlindo Rodrigues, entre os anos de 1960 e 1972, levou o Acadêmicos do Salgueiro a conquistar cinco campeonatos.

Para o carnaval de 1973 João Trinta e Maria Augusta ascenderam ao posto de carnavalescos do Salgueiro e preparam o enredo “Eneida, amor e fantasia”, tendo obtido a terceira colocação na classificação geral. No carnaval seguinte com o enredo “O Rei de França na Ilha da Assombração”, foi campeão pela primeira vez.

Em 1975, Joãosinho deixou o Salgueiro tendo se transferido para a Beija-Flor de Nilópolis, naquela época uma escola com quase nenhuma expressão, mas a oferta dos irmãos bicheiros Nelson e Anísio Abraão David conquistou João, especialmente a promessa de um projeto social para ser desenvolvido pelo carnavalesco.

Existem relatos de que João Trinta jamais conseguiu desenhar, o que não o impedia de pegar desenhos de assistentes que com ele trabalhavam e, quando achava que estavam bons, colocar seu nome, nos conta  o jornalista Aydano André Motta.

Assim o cenário do carnaval carioca mudou radicalmente já que desde 1938 a hegemonia no desfile das escolas de samba pertencia a apenas a quatro agremiações: Portela, Mangueira, Império Serrano e Salgueiro, uma vez que no ano de 1976 o campeonato passou para as mãos da Beija Flor de Nilópolis com o enredo “Sonhar com Rei dá Leão”.

Aliás a história da Deusa da Passarela, pode muito bem ser dividida em duas partes: antes e depois de Joãosinho Trinta, que assumiu a escola como carnavalesco em 1976, com um enredo em homenagem ao jogo do bicho e de pronto levou o campeonato daquele ano para Nilópolis. Cantando os antigos carnavais, com o enredo “Vovó e o Rei da Saturnália na Corte Egipciana” foi bicampeão em 1977 e na sequência em 1978 com “A Criação do Mundo na Tradição Nagô” consagrou a azul e branco nilopolitana como a terceira escola a conseguir um tricampeonato no carnaval carioca.

Ainda na escola nilopolitana Joãosinho Trinta foi campeão nos anos de 1980 com o enredo “O sol da meia-noite, uma viagem ao país das maravilhas” e em 1983 com “A grande constelação das estrelas negras”.

Crédito:ARQUIVO/AGÊNCIA ESTADO

Com o tema de enredo “Ratos e urubus, larguem minha fantasia”, apresentado no carnaval de 1989, a Beija-Flor alcançou o vice campeonato, mas esse desfile passou para a história do carnaval como o desfile mais incrível que já passou pelo Sambódromo da Marquês de Sapucaí. A figura do Cristo mendigo, que foi censurado e saiu coberto e com uma mensagem é uma das imagens mais emblemáticas do carnaval carioca.

Já no final dos anos 80, aportou na Beija-Flor um comissário de bordo querendo fazer qualquer tarefa, não tendo função definida, já que sua intenção era aprender, conta o carnavalesco Paulo Barros, considerado por muitos um herdeiro de Joãosinho Trinta. Segundo Paulo Barros, João tinha do nada “explosões criativas”, que o obrigavam a mudar tudo de uma hora para outra.

O projeto social prometido à Joãosinho Trinta pelos patronos da Beija Flor nasceu sob o nome de “Flor do Amanhã”, projeto social esse coordenado por João e que atendeu crianças durante anos, até seu fim no ano de 1992.

João Trinta despediu-se da Beija Flor no carnaval de 1992, ocasião em que assinou seu último trabalho como carnavalesco da escola com o enredo “Há um ponto de luz na imensidão”, quando amargou um sétimo lugar.

Em 1990, Joãosinho Trinta foi pela primeira vez enredo de escola de samba e coube a União da Ilha do Governador  discorrer sobre sua vida e sua imensa contribuição para o engrandecimento do carnaval carioca. Com o enredo “Sonhar com rei dá João”, a escola Joãosinho Trinta no alto de um carro alegórico e a Marquês de Sapucaí toda reverenciou uma de suas grandes figuras.

Depois de muitos anos de carnaval, João ficou fora dos desfiles no Rio de Janeiro no ano de 1993, tendo retornado a pista de desfiles somente em 1994 na Unidos do Viradouro, onde ficou até 2000, tendo sido campeão somente no ano de 1997 com o enredo “Trevas! Luz! A explosão do universo”.
João Trinta aportou na Acadêmicos do Grande Rio em 2001, onde o que mais chamou a atenção no desfile daquele ano foram os voos do americano Eric Scott logo na entrada da escola. Em 2003 levou a escola de Caxias à sua melhor colocação até ali com o enredo “O nosso Brasil que vale” tendo a agremiação ficado com o terceiro lugar.

 João, que sofreu um AVC em 1996, teve outro em 2004. Fez seu último desfile no carnaval do Rio de Janeiro no ano de 2005 pela Unidos de Vila Isabel.

Ao todo Joãosinho Trinta foi campeão por nove vezes no carnaval carioca, defendendo as cores da Acadêmicos do Salgueiro, Beija Flor e Unidos do Viradouro.

Por fim João morou em Brasília, onde chegou a concorrer a um cargo eletivo, mas sem lograr êxito.

No ano de 2011, Joãosinho Trinta foi convidado pela Governadora do Maranhão Roseana Sarney para voltar para sua terra natal. Aceitou o convite e passou o último ano de vida bancado por ela e amigos em São Luís.

Joãosinho Trinta veio a falecer em 17 de dezembro de 2011 no Hospital UDI de São Luís. Por fim, em 21 de dezembro, a Cidade do Samba, na Região Portuária do Rio de Janeiro, foi batizada com o seu nome.

por Sidnei Louro Jorge Júnior

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