Paulo Robert Gaston Monvoisin, nascido em Maio 1961 no município de Silva Jardim RJ, é formado na Faculdade de Belas Artes/UFRJ em cenografia e indumentária, em Educação Artística e Moda, Pós Graduado no Instituto Europeu de Design em Espaço de Interiores. Fluente em Inglês e Espanhol, também é Visagista, expert no estudo e harmonização de pessoas, proprietário de salão de beleza e da rede Barber Shop by Paulo Robert.

Este é Paulo Robert, grande nome e expoente na categoria de Destaque de Luxo do Carnaval, com doze primeiros lugares nos principais concursos do Brasil, sendo seis deles no Hotel Glória.

Robert possui origem familiar composta de Mineiros e Alagoanos no lado materno, e por parte do Pai, Francenses e Espanhóis. Seus antepassados Europeus vieram para o Brasil fugindo da segunda grande Guerra, sendo seu pai um dos poucos daquela geração que nasceu em terras brasileiras, em São Paulo.

Seu avô materno, Osman Rodrigues era alfaiate e costurava para as pessoas muito famosas no Rio de Janeiro entre os anos de 1910 e 1930, dentre eles, Castor de Andrade, ex Patrono da Mocidade Independente de Padre Miguel, além de figurinos para os grandes espetáculos do Cassino da Urca e Copacabana Palace.

A mãe D. Zuleika, natural de Minas Gerais, veio morar no Rio ainda criança, onde pode estudar nos melhores colégios da época, como o Instituto Lafaiete, conhecido ambiente escolar de jovens membros das famílias com situação financeira elevada. Zuleika Foi uma mulher culta, artista, pianista e viria a ser cogitada para ser a protagonista do filme “Iracema” (Inspirado na obra de Jose de Alencar), lançado em 1949, sob direção dos italianos Vittorio Cardineli e Gino Talamo. A participação no filme, gravado na Ilha de Paquetá, não foi autorizada pela família, pois a profissão de artista naquela época não era bem vista aos olhos da sociedade tradicional. O filme seria estrelado então, pela atriz Ilka Soares. Mesmo diante da negativa, D Zuleika seria a grande responsável por influenciar Paulo Robert no gosto pela arte e amor ao carnaval.

Com a declínio financeiro, a família se mudaria para Silva Jardim no fim dos anos 50. Naquela cidade sua mãe conheceu seu pai, Raul Paulo Monvoisin, logo se casam e juntos constroem uma família com sete filhos, entre eles Paulo Robert.

Dona Zuleika, a Mãe e o Pai, Raul Paulo Monvoisin

Em Silva Jardim/RJ, nasce o amor de Paulo pelo carnaval, vindo por parte da mãe. Ela fantasiava os filhos, e os levava para os clubes da cidade. Desde pequeno Robert era atrevido e ousava elaborar seus próprios figurinos, e também já assistia os concursos pela televisão quando se encantou com a performance dos pioneiros na arte de fazer grandes fantasias. Apaixonado, sonhava em um dia estar entre os grandes nomes dos concursos da época.

Robert aos 7 anos com a amiga Elisa de Aquino, vestido de Dom Pedro I na Escola Estadual Sérvulo Mello em Silva Jardim

A Família ficaria nesta cidade por um tempo até que aos onze anos de idade, Robert se muda com os pais e irmãos para o município de Rio Bonito, região metropolitana do estado do Rio de Janeiro, onde ficou até os 17 anos. Ali começaria sua verdadeira história de carnaval, ganhando seus primeiros prêmios e desfilando na escola de samba Unidos da Praça Cruzeiro.

Carnaval de Rio Bonito Unidos do Cruzeiro

Com 11 anos de idade, em Rio Bonito comecei a frequentar os colégios de lá e as pessoas começaram a perceber que eu tinha aptidão para desenho. Fazia aqueles trabalhos de classe que muitos não gostam de fazer, era muito bom em desenho e geometria. Então comecei a fazer fantasias para os grupo de amigos que frequentavam os clubes, com materiais bem simples, as vezes um Pierrot, as vezes um índio feito com sacos desfiados. Se tinha dinheiro colocava uns brilhos. Já um pouquinho maior, passei a sair nas escolas de samba da região, com fantasias extremamente simples. Digo que a transição de infantil para adulto foi muito rápida. Conheci pessoas das escolas de samba da cidade, onde um me emprestava uma coisa e outros me emprestavam outras, e a junção dava certo no final. Daí passei a ganhar muitos prêmios com fantasias nos concursos da cidade em bailes infantis

Dali em diante surgiu o desejo de competir nos famosos Concursos de Fantasia, onde a premissa é se apresentar com fantasias mais elaboradas, mais fechadas, bem bordadas e  trabalhada nos detalhes, usando a criatividade.

Com 14 anos, Paulo Robert, que já trabalhava no banco da cidade como Oficie Boy, passou no vestibular da Universidade Federal do Rio de Janeiro e não tinha condições de arcar com o valor financeiro necessário na mudança para a capital. O gerente do Banco na época, Célio Julio de Mendonça, deu primeiro impulso para o artista. Célio conseguiu uma demissão, onde através dos valores rescisórios, Robert aos 17 anos se mudou para Niterói/RJ e consegue ingressar na Faculdade de Artes.

Com a chegada na “Cidade Sorriso“, começou a fazer cursos e trabalhar como modelo, o que viabilizou uma retomada no gosto de fazer fantasias. Na faculdade, isso já no inicio dos anos 80, consegue através de um amigo, um contato para pisar e trabalhar pela primeira vez em um barracão de Escola de Samba, a Unidos da Ponte. Onde ajudou na confecção de fantasias para o desfile daquele ano.

Robert começou a participar do carnaval carioca desfilando como composição de carros na Portela, em meados dos anos 80, em alas. Neste período também chegou a fazer parte da comissão de frente da Estácio de Sá por dois anos e também na comissão da São Clemente, já no inicio da década de 90.

Nesta época eu passei a ter liberdade de fazer certas coisas que eu amava, exemplo trabalhar com carnaval, onde tinha começado a sair como composição de carro. Também ganhava algum dinheiro como modelo. As pessoas falavam que eu era bonito, então conseguia composições de graça nos carros alegóricos em algumas escolas. Fui nesta até os 19 anos, foi quando a comecei a fazer o meu carnaval dentro escola de samba que foi na Portela com Alexandre Louzada, primeira pessoa que me deu a mão para que eu pudesse caminhar, ele foi o primeiro a me valorizar dentro do samba”

Comissão de Frente São Clemente 1993 – O pão nosso de cada dia

Na mesma época surgiu a oportunidade de Paulo Robert fazer sua estreia como Destaque em Alegorias usando fantasias menores que mostrava o belo corpo de modelo. Não era um destaque coberto e tradicional, isso ainda na Portela.

Almejando maior notoriedade no meio, consegue chegar na soberana Beija Flor sob a tutela do ícone Joãozinho Trinta. Através de uma seleção do mestre, Robert passa a desfilar na Beija Flor de Nilópolis. Na escola da Baixada Fluminense surgem oportunidades para viajar por diversos países com a Trupe Nilopolitana. Indagado, Paulo exalta a importância que estes dois carnavalescos tiveram na sua trajetória.

Tive na vida alguns carnavalescos que eu só tenho a agradecer, foram maravilhosos comigo. Como eles sabiam que eu fazia uma boa fantasia, uns me davam o figurino a seguir, outros não me davam figurino e só pediam para obedecer as cores que eles pediam. Nunca tive problema algum com carnavalesco, eles são os artistas e me deixam a vontade. Quando eles marcam em cima das pessoas, creio que são aqueles que  prometem uma coisa e chegam na avenida com outras coisas. Não justifica que o pedido para a fantasia ser branca e chega na avenida azul. Sei que hoje acontece muito, alguns destaques não tem respeito ao trabalho do profissional. Só tem problemas com o carnavalesco quem não dança conforme a musica. Todos os carnavalescos são fabulosos e merecem o meu aplauso.”

A década de 90 foi o ápice na carreira do destaque que hoje possui nada mais do que doze primeiros lugares nos melhores concursos do Brasil, sendo metade destes títulos no aclamado Hotel Gloria. Toda incrível trajetória fez de Paulo Robert Hors Concours (Pessoa que não pode participar de um concurso por já ter sido laureada ou por ser tida como muito superior aos demais competidores) no Rio de Janeiro, Niterói e Friburgo/RJ. No famoso Hotel da Zona Sul carioca, apenas quatro nomes conseguiram este feito, entre eles o lendário Clóvis Bornay.

Em relação a ser Hors concurs, eu acho que as pessoas sonham em obter esse titulo mas de verdade essa preocupação que eles tem é porque hoje não dá para manter essa coisa de participar até conseguir ser um. Precisa ganhar de forma consecutiva no minimo cinco vezes um concurso de fantasia para tal feito. Se pular um ano, não adianta, tem que recomeçar essa contagem. Por isso são poucos, Clovis Bornay, José Camilo, eu e depois Nelcimar Pires. É o título para ficar eternamente na cabeça e no coração de quem valoriza a arte”

Com a ida de João Trinta para Unidos do Viradouro em 94, Paulo Robert  o acompanhou na nova empreitada, e três anos depois teve seu momento de ser capa das mais notáveis revistas do ano, inclusive ilustrou a capa do CD oficial das escolas de samba em 1998. Tudo em virtude do icônico desfile “Trevas, Luz… A explosão do Universo“, campeão em 1997, onde o Destaque brilhou em um dos mais lembrados Abre Alas da história ao lado da primeira dama Talita Monassa. Junto com a vermelho e branco de Niterói, participou de uma festa exclusiva para os Grimaldi, família real do principado de Mônaco.

Na Viradouro foram anos memoráveis em fantasias esplêndidas e inesquecíveis. Em 1998 Paulo viria no alto do abre alas como “Apolo” no deslumbrante desfile da escola de Niterói, acompanhado do cantor Djavan que a sua frente representava Orfeu, no desfile “Ofeu negro do Carnaval“. Neste ano o cineastra Cacá Diegues aproveitou o desfile da escola para rodar o filme inspirado no mesmo tema, estrelado por Tony Garrido e Patricia França. A ultima cena da película é a imagem do Destaque Paulo Robert em pleno desfile na Marques de Sapucaí.

Carnaval de um Destaque de Alegoria é sinônimo de luxo, originalidade, muito colorido e beleza nas esplendorosas fantasias. Algumas chegam ao lendário orçamento equivalente a um apartamento, tudo por amor a arte. A prova disso são os antigos e famosos concursos onde Paulo Robert tanto brilhou exibindo confecções deslumbrantes com bordados à mão, pedras, plumas, paetês, lantejoulas e pedrarias importadas em esplendores de tirar o fôlego.

Infelizmente hoje quase não existe renovação do segmento. Muito se deve a diminuição dos concursos e até mesmo em relação aos desfiles das escolas, onde a nova tendencia é colocar mais pessoas fazendo performance ou coreografias. Hoje são poucos os espaços ocupados por figuras tão marcantes nos tempos de outrora.

Sobre a desvalorização, o Destaque deixou de ser um devido Destaque por muitas coisas que acontecem, tipo a entrada dos artistas dentro das escolas de samba. Não estou me referindo as composições, pessoas que são ligadas a agremiação e sempre fizeram parte desse contexto. Acho que hoje, talvez por imposição dos próprios dirigentes que acham que colocar um artista por sua representatividade no meio global, vão trazer ibope para escola. Quando eu falo global não estou falando de Rede Globo não, global generalizado. Tem escolas que só trabalham com artistas, mas muitas outras ganham carnaval sem artista nenhum. Acho que o uso exagerado de mulheres tipo musas com pouca roupa seja mais interessante (para eles) do que manter um Destaque ate mesmo de chão. Colocam essas pessoas que não fazem fantasias, exibicionistas corporais que cobrem a figura dos Destaques de Luxo. Lugar do destaque sempre tem, mas o grande lance é a transmissão. A vaidade do Destaque de estar ali lindo todo arrumadão, preparado em cima de um carro, hoje é diminuída devido a este fato“.

A nossa desvalorização não esta em um destaque ser melhor do que o outro, e sim no uso de pessoas demais nos carros alegóricos. Destaque esta ali também e quer ser mostrado, expor sua fantasia, mostrar a beleza do trabalho, da arte plumária, os bordados, essas coisas, e acabam sendo destruídos por um biquíni. Vir uma pessoa como um personagem ao nosso lado, não deixa de ser entendível e correto, é logico que esse lugar será bem aceito por todos. Mas na maioria das vezes o famoso glamour do destaque será “En passant”, uma pequena aparição e já mostram uma mulher rebolando em algum canto. Esse que é o problema, talvez deu ibope para as emissoras, maior não sei”

No universo com tanto glamour, existem as vaidades, Paulo Robert com seus quase 40 anos de carnaval, conta que “tira de letra”, qualquer problema no âmbito pessoal.

Por um outro lado acho que todos destaques se curtem, gostam de ver a beleza do outro, existem uma competição sim, mas acaba sendo uma competição saudável e de reconhecimento (É a fantasia é linda a cor é linda , ta tudo bonito, deu tudo certo). Espero que meu relato sirva para que todo mundo pense: Será que eu estou sendo egoísta? Será que eu não posso ajudar? E é por ai. Não vejo a minima distinção entre os destaques, acho que todos se esforçam muito para fazer suas fantasias lindas e também não existe fantasia feia, existe fantasia menor ou maior

Teve um fato engraçado porém triste. Certa vez ganhei um concurso de fantasias, a televisão entrevistava todos após o resultado. Na bagunça dos bastidores, eu seria o ultimo a ser entrevistado por ser o primeiro lugar, foi quando percebi que o Destaque que tinha ficado em segundo lugar estava revoltado, me xingando muito, falando coisas feias, falando que não era para eu ter ganho e blá blá blá. Eu atrás dele e ele não me viu,  tive a coragem de virar e perguntar: Você esta falando de mim? Ele respondeu: Não! eu te amo eu te adoro não é com você é com o jurado. Foi uma situação engraçada! Hoje nos damos super bem e rimos dessa historia

Seria bom diminuir um pouco o nariz em pé de muita gente e que as pessoas pudessem se unir no sentido de fazer troca de materiais com essa crise que estamos passando. Quem usou uma pluma, pode emprestar para o outro aproveitar no próximo ano. Queria que fosse algo muito verdadeiro e aberto entre todos, que as pessoas se ajudassem, sem o atual egoísmo a flor da pele. Eu creio que um dia todos possam cooperar, inclusive cedendo suas fantasias para escolas menores”.

Em 2014 na Mocidade com o amigo e também Destaque João Batista Dos Santos Filho

Estamos em meio a incerteza para o próximo carnaval, devido a crise sanitária que o mundo passa, é chegada hora de todo sambista refletir sobre o futuro e os rumos que a festa tomou. Paulo Robert com sua vasta experiencia, cita o distanciamento da folia com grande parcela da população.

O carnaval deveria ser mais palpável para todas as pessoas. O artista (do carnaval) deveria ser reconhecido em qualquer lugar deste mundo, como é o reconhecimento de um Miss Brasil. O sambódromo, que é a nossa casa e nosso teatro, poderia ser mais flexível, onde todas as pessoas pudessem participar de uma forma mais barata em todos os setores da Sapucaí. Os gringos que ficam nos camarotes e frisas só assistem ate a segunda escola e depois não aguentam e vão embora para suas casas. Com exceção do setor 1, estes espaços ficam vazios. Poderiam voltar a ter eventos além da Sapucaí. Na minha época de concurso você saia do salão e ia se apresentar na Cinelândia para mostrar ao povão nossas fantasias. Os premiados iam todos para que todo mundo pudesse ver não só o luxo mas também a originalidade. Outra coisa… O concurso do hotel Gloria e também os outros, fazem muita falta“.

Para os novos destaques eu gostaria que eles mantivessem a arte que é tão bonita, importante e requintada. Que as pessoas continuem a bordar, continuem a fazer um trabalho em cima de pesquisa, que eles revejam os materiais que possam ser substituídos por outros mais baratos e que pareçam caro. Como é um arte  cheia de detalhes, as pessoas estão se distanciando disso. Sinto falta da presença das mulheres. Que renasça mais mulheres, esta cada vez esta menor a presença delas, faltam as vedetes no carnaval, fantasias mais abertas. Chegamos ao ponto que um madrinha de bateria ou musa do carnaval seja tão ou mais importante quanto. Elas estão de verdade abafando as vedetes do carnaval que são aquelas pessoas que fazem fantasias mais ousadas, porém  requintadas. Entre os homens da nova geração destaco, Rodrigo Leocadio e Cristiano Moratto”

O artista Paulo Robert fez Fantasias e produção para varias famosas, como Raíssa Machado (atual Rainha de bateria da Viradouro), Luma de Oliveira, Paula Burlamaqui, Isabel Filardis, Fernanda Keller entre outras.

Raíssa Machado Rainha da Bateria da Viradouro em 2015, vestida by Paulo Robert

O Destaque também assina a decoração vários apartamentos no Estado do Rio de Janeiro. Em 2016, lançou sua linha de produtos masculinos e o seu próprio perfume masculino.  Neste mesmo ano Paulo Robert deu uma pausa de dois carnavais nos desfiles de escola de samba para tratar de assuntos profissionais, voltando em grande estilo na Unidos de Vila Isabel. Repetiu a dose em 2020 e pretende permanecer na escola de Noel no próximo carnaval, mesmo ainda morando fora da capital do Rio de Janeiro.

Quando você mora em cidade pequena, não só no meu caso como no caso do Nelcimar Pires, que é um destaque maravilhoso, pudemos ter um sonho vendo os nossos antecessores, e hoje não tem mais isso nas revistas. Falta mídia, os espaços são poucos. Na televisão não é mais transmitido os poucos concursos pelo Brasil. Penso que talvez o sonho de muita criança seja outro, ou não temos mais tantos campeões para se tornar ídolos. A arte talvez seja abandona pela falta de audiência que essas pessoas tem. Eu tive, o Nelcimar e outros tiveram este momento. Para sonhar o hoje, você tem que ter tido um sonho ontem. Não se vive o momento do nada, vivemos o agora através de passado presente e de futuro“.

Paulo Robert
Waldir Tavares e Henrique Sathler

7 COMENTÁRIOS

  1. Que maravilha de história ! Orgulho p nos , niteroienses e para nós , amigos. Está trajetória eh isto mesmo ! E muito mais o ser humano especial, que Paulo Robert é. Parabéns sempre !

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