DESTAQUE DE LUXO – O PERFORMÁTICO NABIL HABIB

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O destaque de luxo do carnaval carioca Nabil Samir Habib, nasceu em Beirute, capital do Líbano e com apenas três anos de idade veio com sua família para o Brasil, fixando residência na cidade do Rio de Janeiro, inicialmente instalando-se no bairro de Botafogo, onde cresceu, vindo posteriormente a residir em Copacabana, onde mora até os dias atuais.

Desde criança Nabil assistia ao desfile das escolas de samba pela televisão, passando madrugadas, nos dias de carnaval, na frente da tv, maravilhado com tudo aquilo que passava na avenida, mesmo que às vezes até dormisse deixando a tv ligada. Com cerca de dez anos de idade, Nabil recorda-se de seu interesse crescente em participar daquele espetáculo, genuinamente brasileiro, mas o desejo do menino era estar sob uma das alegorias que cruzam a passarela da Marquês de Sapucaí todos os anos.

“Meu interesse começou desde os meus 10 anos que assistia pela televisão a transmissão. Virava a noite e as vezes até dormia com a TV ligada. Mas não tinha interesse nenhum nas alas… Gostava mesmo era dos Carros Alegóricos e os Destaques em cima. Ficava doido e sempre dizia: Um dia estarei lá em cima! ”

Nabil nunca desfilou em ala, iniciando sua trajetória no carnaval carioca já como composição de alegoria, inicialmente desfilando na Caprichosos de Pilares, no carnaval de 1988, quando a agremiação, através do trabalho dos carnavalescos Renato Lage e Lilian Rabello, apresentou na Marquês de Sapucaí o enredo “Luz, câmera, ação”, desfile este com o qual a agremiação conquistou a oitava colocação.

Já para o carnaval carioca de 1989 Nabil solicitou um figurino de destaque para novamente desfilar na Caprichosos de Pilares, que permaneceu com os mesmos carnavalescos do ano anterior, desta vez com o enredo “O que é bom todo mundo gosta”, tendo com este desfile a escola conquistado a décima segunda colocação no grupo de elite do carnaval do Rio.

Nesse mesmo carnaval de 1989 Nabil ainda desfilou como destaque de luxo na Unidos de Vila Isabel, que vinha de um campeonato no ano anterior e prometia para esse carnaval um grande desfile, desta vez com o enredo “Direito é Direito” desenvolvido pelo trio de carnavalescos Paulo César Cardoso, Orlando Pereira e Ilvamar Magalhães, tendo a escola terminado com a quarta colocação.

Nabil já desfilou por várias agremiações cariocas, tanto no grupo de elite quanto nos grupos intermediários, sempre recebendo convites de amigos para desfilar, mas ele mesmo afirma que as confirmações por parte dele só acontecem depois de acertada a ordem de desfile, já que sua prioridade é a Estação Primeira de Mangueira, onde desfila desde o carnaval de 1993.

A chegada de Nabil a Estação Primeira de Mangueira se deu no carnaval no qual a escola apresentou o enredo “Dessa fruta eu como até o caroço” do carnavalesco Ilvamar Magalhães, que esteve à frente da escola de 1992 a 1995, obtendo o quinto lugar de 1993 como a melhor colocação da escola nesse período.

Nesse seu primeiro desfile na Mangueira, Nabil veio com figurino representando o bobo da corte, na alegoria da escola que trazia menção a manga espada, fazendo dupla com Eduardo Leal que vestia o mesmo figurino.

Referindo-se ao sentimento de um destaque de luxo com relação ao investimento que é realizado para colocar uma bela fantasia na avenida, por um curto período de tempo, que leva a escola para atravessar a pista de desfile, Nabil fez a seguinte afirmação:

“Quem em sã consciência gasta uma fortuna de $$$ e tempo, para em 50min com uma fantasia pesada e que sempre se machuca de alguma forma e ainda, tem que se empoleirar no alto de uma alegoria, que Deus sabe se é segura ou não e ainda se sacudir e cantar o samba? Só louco mesmo…

Mas isso é um vício grande… Quem experimenta um ano, com certeza, vai querer repetir no ano seguinte e seguinte e assim vira o vício!”

Nabil na Beija Flor de Nilópolis – Carnaval de 2004

Perguntado sobre como se organiza durante o ano com vistas ao próximo carnaval e execução do figurino para o desfile, Nabil confidencia que é ele próprio quem faz todas as suas fantasias, com exceção da parte da costura, atividade que é delegada à uma profissional da sua inteira confiança. Já a decoração da roupa é toda ela executada pelo próprio Nabil, que já a partir do mês de setembro começa a mentalizar a fantasia com a qual vai desfilar no ano seguinte.

Nabil se declara ser um autodidata e sempre contou com o auxílio de grandes amigos, também destaques do carnaval carioca como João de Deus (In Memorian), Santinho, Fábio Barreto, Celso Lemos e hoje em dia, quem o auxilia e ensina muito em como executar suas fantasias, é seu grande e querido amigo Edmilson Lima, sendo esse o responsável por todos os chapéus usados por Nabil, que os tem guardado desde o ano de 2001, sendo Edmilson um mestre na arte da confecção de fantasias de luxo.

Nabil desfilando na São Clemente

Nabil sempre laborou na área de turismo, tanto aqui no Brasil quanto no exterior, já que até mesmo residiu por quatro anos em Nova York, onde chegou naquela época a perder seu emprego, já que queria estar aqui no período de carnaval. Recorda ele que trabalhando aqui no Brasil sempre aproveitava todos os feriados para estar no serviço, pois desta forma no carnaval conseguia folgar e aproveitar toda a folia, nunca tendo trabalhado em período de carnaval.

Indagado sobre sua relação com os carnavalescos das escolas de samba por onde já desfilou, Nabil considera que o carnavalesco da agremiação é quem dá o ponta pé inicial através do figurino que concebe e entrega a quem de fato vai concretizá-lo. Relata ele que já conhecendo o tipo de roupa que se adequa melhor ao desfilante, o profissional facilmente o encaixa no personagem do enredo criado por ele para a escola de samba.

“Todo carnavalesco quando entrega um figurino a um destaque, tem a confiança de que este fará a roupa a altura do desejado ou melhor… Eu muitas das vezes modifico o figurino, mas sempre para melhor. E eles, carnavalescos, sempre depois do carnaval, com toda modéstia a parte, agradecem e comentam que ficou além do desejado. ”

Nabil nos conta que se enxerga como numa grande boca de cena de um teatro, ao desfilar numa alegoria. Basta que o carro faça a curva da avenida Presidente Vargas e entre na área de concentração da Marquês de Sapucaí, para que o personagem que representa com sua fantasia tome conta dele até a praça da apoteose.

Para o carnaval carioca de 2010, quando a Estação Primeira de Mangueira apresentou o enredo “Mangueira é música do Brasil” dos carnavalescos Jaime Cezário e Jorge Caribé, Nabil veio numa alegoria representando o cantor Ney Matogrosso. Para esse desfile Nabil solicitou aos carnavalescos vir vestido com o próprio representado, daí ele mesmo copiou o figurino usado por Ney num de seus shows no Canecão, apenas adaptado na cor rosa.

Nabil ainda nos conta que pode acontecer sim da ideia de o figurino que vai ser usado partir do próprio desfilante, liberdade esta de criação que de vez ou outra o carnavalesco da agremiação permite.

Indagado sobre como Nabil lida com o apego com a roupa e com a ideia dela ser efêmera por conta do desfile que dura poucos minutos efetivamente na passarela de desfile, ele diz que:

“Eu tenho muito carinho com meu material de Carnaval. Todos esses anos fizeram eu ter um grande acervo, pois sempre que viajo ao exterior compro mais e mais… Algumas fantasias minhas, eu vendi para um colecionador belga, Alain Taillard que faz exposições na Europa de Fantasias de Destaque do Carnaval carioca. Outras roupas ainda as tenho. Mas os chapéus tenho todos  ainda guardados e embalados. Tenho muito apego a eles, pois foram criados pelo Mago dos Chapéus Edmilson Lima e decorados por mim com o melhor do que tenho de cristais e broches.”

Alain Taillard, de origem belga, acabou tornando-se também um destaque no carnaval carioca, sendo que suas fantasias são confeccionadas por Nabil.

Uma das coisas que caracteriza Nabil no carnaval é o uso de calças de franjas de canutilhos, item este que o desfilante já confeccionou para suas roupas praticamente em todas as cores básicas, acreditando ele já ter confeccionado mais de dez desses itens, sendo que sempre que isso é possível às utiliza nos seus figurinos.

“Para se eternizar, tem que ter uma marca registrada sua, que independente da sua vontade… Hoje em dia se você falar em Calça de canutilhos ou de qualquer tipo de franja, as pessoas associam comigo. Tem concursos no Rio de Janeiro que quando o concorrente entra com qualquer peça de franja de canutilho, a galera conhecida do salão tida se vira para mim… Acho engraçado… O que faz um Destaque se distinguir dos demais é sua performance, seja na avenida ou nos salões… Cada um tem sua luz própria e sua forma de se expressar com sua fantasia! relata Nabil”

Questionado se existe alguma fantasia ou fantasias pela qual Nabil sempre é lembrado ou que tenha se tornado inesquecível para as pessoas, ele destaca a fantasia “Carcará”, confeccionada e apresentada por ele na Estação Primeira de Mangueira, no ano em que a escola apresentou o enredo “Maria Bethânia: A Menina dos Olhos de Oyá”, desfile este que o primeiro lugar a agremiação verde e rosa.

“Essa roupa era toda com pontinhas de penas e as pessoas acharam que fosse mais de 3.000 Faisões e não tinha mais de 1.000 unidades. Quando eu sacudia, a galera entrava em Delírio…”

NABIL SAMIR HABIB UMA ESTRELA NA SAPUCAI !!! – Aconteceu virou manchete
Nabil da Estação Primeira de Mangueira – Carnaval de 2016

Outra característica própria de Nabil Habib é o fato deste trazer o resplendor da fantasia encaixado nas costas do desfilante e não o resplendor vir encaixado na alegoria, como acontece atualmente de uma forma muito frequente

“Isso sempre foi assim comigo… No começo não existia essa história de prender o resplendor na alegoria, era nas costas mesmo do desfilante, mas com o tempo esses resplendores cresceram de tamanho, já que muitos destaques gostam de ostentar, daí começaram a prender na alegoria. Eu não gosto. Acho que perde o balanço e caimento da arte plumária.”

O costume de Nabil é somente trazer como resplendor da fantasia aquilo que efetivamente consegue carregar preso às suas costas, mesmo que ache de muita beleza esses enormes resplendores que se vê hoje em dia, inclusive com esculturas e arte plumária em grande tamanho e quantidade.

NABIL HABIB TOMBOU NO DESFILE DA MANGUEIRA | Aconteceu virou manchete
Nabil na Estação Primeira de Mangueira – Carnaval de 2018

Indagado sobre como se dá a relação do destaque com a comunidade da escola de samba onde desfila, Nabil afirma que se estabelece em muitas vezes quase que uma relação de idolatria, já que as pessoas gostam muito de olhar a fantasia de perto e ficam muito fascinadas com o luxo que cada roupa apresenta para embelezar e enriquecer o desfile da agremiação na passarela do samba. Seria quase como se faz quando se vê uma obra de arte num museu, mas no caso das fantasias de luxo, a riqueza e os detalhes que cada roupa apresenta deixam as pessoas impressionadas e cheias de gratidão.

Nabil na Estação Primeira de Mangueira – Carnaval de 2019

Nabil já mostrou o luxo de suas fantasias fora do carnaval carioca, já que se apresentou no carnaval de Vitória, capital do Espírito Santo, mas diferentemente do que ocorre o Rio, em Vitória seu desfile se deu no chão, até porque segundo o próprio desfilante, é preciso ter respeito aos destaques do carnaval capixaba, sendo injusto chegar no dia do desfile e querer ocupar um lugar de destaque numa das alegorias das agremiações do lugar.

Desfilando em Vitória, Nabil já foi até capa do jornal A Gazeta no ano de 2014, quando desfilou pela Novo Império naquela oportunidade.

Desfilar na capital paulista fica fora das aspirações de Nabil, já que em São Paulo os desfiles acontecem nos mesmos dias dos desfiles na Marquês de Sapucaí, já que Nabil aprecia muito assistir ao desfile do grupo de acesso carioca, isso quando não desfila, assim como já aconteceu em várias oportunidades nesse grupo uma vez que já aconteceram carnavais onde Nabil desfilou em duas escolas por noite nas três ou quatro noites de desfiles no sambódromo carioca.

Nabil na Caprichosos de Pilares – Carnaval de 1995

Indagado sobre os grandes concursos de fantasias, Nabil aprecia muito assistir aos concursos e aplaude muito os amigos que desfilam com suas belas e luxuosas fantasias na disputa que se estabelece, nas diversas categorias de fantasias, mas confessa não ser esta “a sua praia”, preferindo sim o calor e o aplauso da Marquês de Sapucaí, onde sua principal intenção é se divertir antes de tudo, sempre fazendo o seu melhor para a agremiação onde apresenta suas fantasias.

Nabil na Unidos da Tijuca – Carnaval de 2016

Nabil já embelezou com suas fantasias de luxo os desfiles da Beija Flor de Nilópolis, Acadêmicos do Salgueiro, Império Serrano, Unidos da Tijuca, Mocidade Independente de Padre Miguel, São Clemente, Lins Imperial, Estácio de Sá, Unidos da Ponte e Arranco do Engenho de Dentro, Acadêmicos do Grande Rio, Acadêmicos da Rocinha e Arrastão de Casca Dura, isso no carnaval da Cidade Maravilhosa.

Para o próximo carnaval carioca Nabil afirma estar é claro com sua vaga garantida para desfilar na sua Estação Primeira de Mangueira no grupo de elite do carnaval do Rio e também acertado para desfilar na Estácio de Sá no grupo de acesso carioca, quando a escola vai reeditar seu desfile sobre o Clube de Regatas do Flamengo, uma paixão carioca e nacional.

Mas fora dos desfiles carnavalescos Nabil também faz questão de brilhar nos eventos em que participa, tendo em seu currículo participação na parada gay de Nova York nos anos noventa e também é figura presente no Gala Gay.

 

Nabil na Parada Gay de Nova York

Por Sidnei Louro Jorge Júnior

 

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