DESTAQUE DE LUXO – NELCIMAR PIRES

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Foto Tatiana Gomes.

Estilista de noivas, Coordenador oficial do ‘Miss e Mister Campos, ultimo Hours Concours do Carnaval, destaque da Imperatriz Leopoldinense, Nelcimar Pires de 55 anos de idade, é natural de Campos do Goytacazes, Norte Fluminense do estado do Rio de Janeiro, onde mora até hoje. O campista é um dos principais nomes do segmento Destaques de Luxo no carnaval Brasileiro.

Nascido em meio a ditadura militar, desde criança gostava de comprar revistas e assim acompanhar o que se passava no carnaval carioca. Nelcimar é até hoje mantém o habito e possui edições com mais de cinquenta anos.

Eu era o primeiro a ficar sentado esperando a banca abrir. Comprava tudo que tinha em relação ao carnaval. Eu sou da época das revistas O Cruzeiro, Manchete e Fatos e Fotos. Em especial as duas primeiras, que focavam em concursos de fantasias que era o meu interesse porque eu era apaixonado e achava uma grande arte. Os artistas, sendo ficção ou não, envergavam um personagem. Namorava aquelas fantasias e me imagina ali fazendo como eles.”

A fascinação do estilista veio da curiosidade em saber como os artistas daquela época como Evandro Castro de Lima, Clovis Bornay e Jésus Henrique entre outros, trabalhavam e como colocavam a paixão em verdadeiras obras de arte. Adepto a uma competição, um dos desejos de Nelcimar era receber o tão cobiçado Premio oferecido pela empresa Natan Joias. A empresa, pioneira no lançamento de relógios e hoje incorporada a Monte Carlo, patrocinava os grandes concursos de fantasias nos áureos tempos do evento.

Eu sonhava em ter um daqueles prêmios, nunca pensava em dinheiro e nada além. Eu queria aquele troféu na minha mão. Era maravilhoso com uma máscara retorcida banhada em outro branco e toda cravejada em pedras brasileiras. Era uma corrida atrás deste troféu, cada um lutando da sua forma para tentar um”

Outros artistas, como Evandro de Castro Lima, Wilza Carla, Jésus Henriques, Violeta Botelho, Walkiria Miranda, Mauro Rosas, Marlene Paiva, também foram nomes marcantes dos concursos. Com muitas vitórias acumuladas, Clóvis Bornay foi declarado, em 1961, “hors-concours’ que quer dizer fora da competição, excelentes. E ganhou o direito de se apresentar nos concursos sem ser julgado.

Os bailes no Municipal terminaram em 1972. Os desfiles continuaram em outros clubes como o Hotel Gloria e o clube Monte Líbano.  Às seis horas da noite do sábado ia todo mundo para a frente da TV ver o início do concurso de fantasias. O do Hotel Gloria abria o carnaval do Rio. Nestes concursos pouquíssimos dos concorrentes entre os citados, já mostravam suas criações na condição de “hors concours”. Não queriam ver a sua arte comparada a de nenhum outro competidor, por isso apenas se mostravam como ícones.

O campeão dos campeões reunia todos os vencedores de outros concursos em uma competição no clube Sírio Libanês. Fundado em setembro de 1936, é o mais antigo clube da comunidade árabe do Rio de Janeiro. Atualmente, o imóvel está localizado na Estrada do Pontal, 6625, no Recreio dos Bandeirantes.

Eu queria saber o que era hors concours, ai eu descobri que o candidato deveria ganhar cinco anos consecutivos e dai não poderia mais concorrer para dar lugar aos outros. Outros pensam que era bobagem, mas para quem fazia não. Eram gastos que valiam a pena”

Vindo de família tradicional, para dar o primeiro passo ele precisou se desvencilhar dos velhos preconceitos que até hoje são usados para destruir sonhos.

Eles diziam que aquilo era coisa de viado, não eram palavras menos chulas que isso. Meu pai era da roça eu entendo, mas ele, que faleceu há 35 anos, me apoiava em tudo. Eu sou homossexual mas nunca dei motivo, nunca fui de rua. Eu nunca me senti uma vergonha para eles. Sempre fui reservado.”

Tendo os grandes nomes como referencia, Nelcimar iniciou sua trajetória de fato em 1980, através de suas criações, no município de São João da Barra, Norte Fluminense. “Posso dizer que hoje também sou desta cidade que eu amo. São anos de trabalho social lá, estes trabalhos acarretaram no titulo de cidadão São-joanense. Eu tenho eternizado na parede o certificado recebido pela prefeita“.

Neste município existia um famoso evento da alta sociedade local. Foi ali que Nelcimar confeccionou para sua irmã Katia Pires seu primeiro figurino e está época, relembra os antigos carnavais vividos naquela cidade.

Peguei minha irmã com oito anos de idade na época e fiz a primeira fantasia dela, As ferragens eram feitas pelo meu pai e minha mãe ficava maravilhada. Copiávamos os figurinos das revistas. Lá aprendi com outros já experientes a fazer meu carnaval. Tinham reuniões nas varandas e ficávamos sentados aprendendo fazer chapéus. O curioso é que nesta época não existia esplendores (costeiros) que ali foi criado no final de 70. Eram tiras de mochila, trabalhado com papelão aramado. Daí se colocava as plumas coladas com cola cascorez, a unica da época. Colocávamos sacos de arroz para segurar e fixar com ventilador em cima. Prendia naftalina nas penas para não dar traça. Tudo ficava montado para esperar o carnaval. Mas antes dos desfiles tinha o corso. Que eram bugres e carros antigos que desfilavam em São João. A cidade toda decorada e estes corsos faziam as inauguração da festa. Ali começou minha alma e eu fui fazendo as roupas da minha irmã.

Em janeiro de 1985 o pai que era influente fornecedor local, faleceu de infarto e com 20 anos, Nelcimar assume a responsabilidade de cuidar da mãe, do irmão do meio e da irmã mais nova. Após frustrações com aproveitadores e tentativas em vão de levar os negócios, a família teve que vender os bens. Tratores e carretas, alem da plantação de cana de açúcar, que abastecia a usina do local, foram desfeitos. Com o pouco que restou, em 1987 ele resolve fazer para si a primeira roupa, a fantasia era “O Imperador Bizantino” e foi desfilar na Escola de Samba Congos da Cidade de São João da Barra, onde mais tarde viria a se tornar carnavalesco da instituição.

“Antes era tudo muito trabalhoso, hoje em dia é muita cola. Estica-se o tecido e poucas pessoas trabalham ali. Não falo de roupa de ninguém, digo que a modernidade deu prática a você fazer um traje de gala. Agora pegam um tecido, se joga um galão, enchem de broches chineses batissismos e vai chapando. Não tem a coisa de antes, onde se amarrava, entrelaçava a roupa com pontos de crochê e ia criando a situação para acontecer no final.”

“ IMPERADOR BIZANTINO “ primeira fantasia onde desfilou pela escola de Samba Congos da Cidade de São João da Barra em 1987

O paetê roxo era uma novidade, ai eu tingi aquelas penas e plumas em uma banheira velha que tinha em casa. Joguei varias garrafas de álcool e anilina (corante alimentar), jogando as penas brancas que tinha até chegar no tom roxo. Estava aprendendo e fui aprimorando, hoje não tinjo mais minhas penas, tem a Ciça que é uma grande amiga que hoje facilita pra mim colocando o tom que eu quero.

Em 1998 o saudoso Seu Bené diretor da ala Paz na Portela o convidou para ir desfilar em ala comercial com a irmã e a prima na águia de madureira. O enredo era “Os Olhos da noite” de Ilvamar Magalhães“.

Eu vim atrás do abre alas, e ficava olhando para o carro, lá estavam Wanda Bastista e Pedrinho Fernandes. Fiquei encantado, seu Bené chegou perto e me perguntou se estava gostando. Só agradecia pela realização do sonho. Então falei que o maior deles ainda conquistaria, que era estar lá no alto de uma alegoria na Sapucaí. Seu Bené sem entender, me pediu para ligar depois, que conversaria comigo. Liguei sim e ele me apresentou ao presidente da Portela Carlinhos Maracanã, que viria me dar a minha primeira oportunidade no Rio

A estreia como destaque nas grandes escolas cariocas viria em 1999, na Portela que homenageava Minas Gerais no enredoDe Volta Aos Caminhos de Minas Gerais também de Ilvamar Magalhães. E lá foram foram dez carnavais como Destaque na azul e branca.

Sai da Portela devido a divergência com outro destaque que prefiro não citar o nome. Quando ganhei o Titulo no hotel Glória, a pessoa enciumada pensou que eu poderia ter tirado o premio dela lá e decretou que na Portela eu não ficaria, assim sai injustamente quase escorraçado de lá”.

“Em 2000 no Glória, cheguei e não tinha lugar para ficar. Fui para um canto tentando arrumar minha roupa, em instantes vinha um e gritava que ali era o lugar dele. E foi assim até a terceira tentativa em arrumar um espaço. Meu motorista, o Ralf que é chefe no corpo de bombeiros, deu um grito e falou que eu ia ficar ali sim, ameaçou que estava vendo irregularidades no local e ia cancelar o evento. Foi a hora que os organizadores Belino Mello e Arnaldo Montel ficaram assustados. Os destaques se calaram. Foi meu primeiro premio, fui menção honrosa aquele ano. Tem pessoas que eu não quero mais do meu lado, são pessoas ruins.

O ultimo Hors Concours do Carnaval do Rio de Janeiro em 2008. No ano seguinte, o Hotel foi vendido. Foi o fim aos concursos do Glória com a roupa “ O FEITIÇO DE ÁQUILA “

Nelcimar que viria a se tornar Pentacampeão do Gloria, trocou a Portela pela Imperatriz e como também desfilava no Acadêmicos da Rocinha pelo acesso, Mauricio Mattos, presidente da escola fez o convite para o estilista se apresentar em Toronto no Canadá com o espetáculo Brazilian Carnival Ball, onde ficou sete anos em turnê. Neste período foi convidado a estar em vários países nos eventos como a inauguração do MGM Grand Macau, maior cassino do mundo, localizado em Macau, região autônoma na costa sul da China continental. Assim como esteve em Cingapura através de convite do produtor Omar Montenegro e também em Lausanne na Suiça com a caravana de artistas coordenados por Milton Cunha. Com as oportunidades surgindo, Nelcimar foi abrilhantar o carnaval de Noting Hill, Londres/Inglaterra.

Nesta foto fazendo Show em Toronto Canadá no Brazilian Carnival Ball

Através dos shows e já na Imperatriz Leopoldinense, o nome do artista já havia se tornado famoso no maior carnaval do mundo. Sua estreia na Rainha de Ramos, a Imperatriz, foi em 2006 com a Fantasia de Luiz XV. Nesta época todo mundo carnavalesco conhecia a qualidade das confecções do metre Nelcimar Pires.

Luiz XVI, O Rei Sol Tetra Campeã no Gloria em 2006

As fantasias possuem história, eu tiro pelas minhas. Quantas pessoas ficaram bordando seu manto? Cada um com uma parte conversando, jogando conversa fora, isso era o mais bonito que eu vivi. Não sentia a maldade que vejo hoje. Para as confecções eu fazia café, bolo e tive grandes senhoras bordando paetês, miçangas. Infelizmente boa parte delas já se foram.

Eu pensava que nunca iria para Imperatriz, nunca mais repito esta frase, que por si já é pesada demais. Hoje eu amo cada canto daquela escola. Não me vejo longe da Imperatriz e o dia que eles não me quiserem mais, eu vou sofrer um pouquinho. Tive muitos anos de Salgueiro, Viradouro, Porto da Pedra, Rocinha, Estácio, Vila Isabel além de Portela, mas não me vejo fora da Imperatriz

Atualmente Milton Cunha é o nome citado entre todos os destaques por ser a figura quase solo na luta pelo reconhecimento e respeito a arte destes ilustres personagens, e Nelcimar não esquece tem ciência da importância do ex carnavalesco e comunicador na divulgação do seu trabalho.

Milton é um querido, amado que eu amo. Uma pessoa que transformou nossas vidas. Hoje vejo o destaque ter mais respeito muito pelo trabalho dele. Antes alguns sofriam porque tinham que diminuir a roupa devido a uma mulher nua e famosa que viria ali perto na alegoria. Eu graças a Deus nunca passei por isso, mas sei que existia. Se fosse comigo eu sairia da escola sem polêmicas, amo carnaval mas não vivo de carnaval. Nunca brigaria por espaço

Sobre custos, tempo e dedicação Nelcimar pensa que tudo na arte é movido por amor e por apoio de quem aposta nesta arte.

“Antigamente tinha mais apoio, principalmente após você ter um nome no meio. Eu mesmo, ganhava caixa de cola, linha dez para fazer franjas. Os camuchões? Na época os broches eram feitos de carpete, feltro, algodãozinho. Tudo costurado para fazer uns trezentos. Íamos bordando com strass para fazer o desenho em alto relevo. Ai chegávamos em um broche grande para aplicar na roupa sem cola, e sim costurado. Apesar do peso era uma arte escandalosa.”

Em 2020, a fatalidade do costeiro que caiu na alegoria não apagou a majestade da roupa que vinha representando um arlequim no desfile da Imperatriz em homenagem a Lamartine Babo, unica escola que Nelcimar Pires não abre mão de desfilar. Feliz no Rio, o destaque campista lamenta a decadência do carnaval de sua cidade, que outrora já foi muito famoso.

Hoje não desfilo mais em Campos, o carnaval daqui tenta se erguer, mas o povo pensa mais em dinheiro do que trabalhar com arte. Não me interessa mais o carnaval campista, desfilo quando me pagam para desfilar, a verdade é esta. Não existe credibilidade, o que é uma pena, pois Campos é um celeiro de artistas. Já fui negado por uma escola de samba do Rio só por ser de Campos, é a falta de credibilidade do artista local. Não esqueço deste episódio até hoje.”

Muito apegado a família,xxxxxxxxxxxx mãe de Nelcimar é sua modelo exclusiva, e o acompanha dos desfiles de carnaval até hoje. Sempre vestindo criações do estilista, a matriarca que antes tinha o sonho de viajar de avião, já fez ensaio fotográfico em Londres. Muito religioso repeita as tradições que aprendeu ainda criança.

Mesmo envolvido no carnaval, sou católico e sempre respeitei a quarentena. Saio dos desfiles e respeito minhas limitações alimentares. Paro de comer carne e só volto no meio dia do Domingo de páscoa. Sou bastante religioso e respeito outras religiões. Quando viajo, a primeira coisa que pergunto é a crença do lugar para ir até eles e conhecer. Em Tóquio no Japão eu quis conhecer o budismo e fui lá, fiz tudo que mandava a tradição, gostei muito mesmo sendo católico”

No futuro para resgatar o carnaval de antigamente eu acredito que vamos ter limite de esplendor e proibição dos carrinhos. Todos vão ter que levar a fantasia no ombro. Irei bater panelas pela iniciativa, e não palmas. Será um carnaval mais compacto, com custos controlados. Ali vai se ganhar o melhor na cultura da arte de fazer fantasia com verdadeiros bordados e história

Estilista renomado e famoso, ele mantém seu atelier em campos vestindo as noivas da alta sociedade campista. Suas criações são famosas pelo requinte e toque de alta costura nos figurinos de casamento e cerimoniais.

Pentacampeão do Hotel Gloria, Pentacampeão do premio Sambanet, hexacampeão do Plumas e Paetês. Nelcimar Pires é hoje um dos mais importantes destaques do carnaval carioca.

“Infelizmente eu prevejo que esta fase de ouro no segmento vai passar, faltam talentos que realmente querem sentar, bordar e fazer. Não penso que a vida de um destaque é deixar tudo em cima da hora e sair colocando qualquer coisa para desfilar

 

Por Waldir Tavares / Produção Henrique Sathler

 

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