Descendente de Portugueses e Italianos, neta de vedete do Teatro de Revista, as plumas, brilhos e paetês estão no DNA da empresária na gestão de facilities, Ivete Pugliese. A grande Dama Paulistana, que assim como a avó que brilhou nos palcos, brilha nas alegorias das Escolas de Samba pelo Brasil.

Foi vendo fotos das performances da avó Valery Martins, que desde pequena Ivete se encantou com os personagens vividos por ela. Os figurinos de bruxas, rainhas e todo universo do gênero teatral que marcou o gosto popular e teve importância na história das artes do Brasil até meados do século XX, foram cruciais para a base artística de uma das mais importantes Destaques de luxo do carnaval do nosso país.

A bela fantasia de 2018 – “Tributo a Carmem Miranda”, na Vai Vai

O pai, Carmine Pugliese levava a pequena Ivete, com sete anos junto com as irmãs Silvia e Neli, aos bailes de salão e matinês na cidade de Franco da Rocha, município localizado na Região Metropolitana de São Paulo. E ali Ivete percebeu que gostava, e precisava participar da grande festa chamada Carnaval.

Já adolescente e inserida na maior festa popular do planeta, a futura Destaque passou a fazer suas próprias roupas, que eram baseadas em odaliscas, colombinas, tigresas e etc. Tudo costurado por sua bisavó. Ficaria em Franco da Rocha até os seus vinte e dois anos, para se juntar aos pais que já haviam se mudado para a capital do estado quatro anos antes. Nesta época passou acompanhar os concursos de fantasias através das antigas revistas do grupo Bloch, Fatos e Fotos e Manchete.

Aquilo me encantava. Se tinha um amigo que me chamava para provar uma roupa, na hora ia. Sempre fui assim, adoro  vestir uma fantasia. Alguns dizem que quando me visto , eu mudo. Isso me despertou para o carnaval

Em 1977, já estabelecida em São Paulo/Capital, um namorado da época convidou Ivete para assistir um desfile extra oficial das escolas de samba Vai Vai e Sociedade Rosas de Ouro. O cortejo ocorria na Rua Doze de Outubro, bairro da Lapa paulistana. Apesar da grande apresentação da roseira, foi o grupo de notáveis sambistas no bairro do Bixiga, pertencente ao distrito da Bela Vista, que mexeu com o coração de Ivete Pugliese. A partir dali, nem ela sabia, mas a Vai Vai ganhava uma nova sambista que teria esta escola como a sua de coração.

Foto Mauricio Coutinho

Quando eu vi a Vai Vai passar foi uma coisa enlouquecedora, por que eu nunca tinha visto. Era tudo muito lindo. A Rainha de bateria que passou, era espetacular. Nem sei se era a rainha mesmo ou alguém que veio só para desfilar no bairro. Fiquei encantada. Falei para esse meu namorado da época que um ainda iria desfilar naquela escola

No mesmo ano Ivete começou a trabalhar na TV cultura, ambiente propício para contato com o universo da televisão, artistas e consequentemente com o carnaval.

Eu morava perto da Rosas de Ouro. A rigor eu não me dizia ser Vai Vai por que não conhecia a escola de perto. Só tinha visto aquele ensaio de 77. Como na época morava na  na Freguesia do Ó, eu me dizia Rosas de Ouro“.

Aos vinte e três anos, Ivete se casou pela primeira vez, e ao declarar para o marido que gostava de carnaval, surpresa: Ele era Vai Vai! O mesmo sacramentou: “Se quiser desfilar tem que ser na Vai Vai“. O marido viria falecer anos depois, porém ali começaria uma relação que se perpetua até os dias de hoje. O casamento que já dura trinta e quatro anos, entre Ivete e Vai Vai.

Meu primeiro desfile na Vai Vai foi de ultima hora. Peguei meu figurino de destaque de chão e quem fez esse destaque foi a Dita. Desfile pela primeira vez, aquilo me encantou, saí da avenida com a metade do salto de um pé, dançava para um lado eu não sabia se tava fazendo correto ou não, mas foi uma coisa intuitiva, eu amei.

Em 1986 visita a sua escola do coração e passou a desfilar pela Vai Vai com de roupa de vedete. Novamente sua avó seria forte influencia no estilo adotado. A paixão pela dança faz Ivete viajar pelo mundo, onde vai morar no Japão por anos. Nesta época Pugliese fica afastada do carnaval.

De volta ao Brasil, em 1993, a primeira coisa que faz é voltar a quadra da Vai Vai. Ali conhece uma grande personalidade da escola do Bixiga, Clarício Gonçalves, hoje gestor da escola. Clarício proporcionaria Ivete consegui seu primeiro figurino de destaque estético, o enredo era “Nem tudo que reluz é Ouro, a escola se tornaria campeã.

No ano seguinte já estava no Abre Alas como destaque lateral em um desfile debaixo de um temporal que destelhou praticamente toda cidade de São Paulo. A Vai Vai cantava “Inã-Guê: pegando Fogo“, o desfile marcou os torcedores e componentes da escola.

O vento me levantava, o vento batia nas minhas as assas e meu pé sai do chão. Acho que foi ai que tomei medo de altura“.

Em 1995 o abre alas da Vai Vai trazia a figura de Criolé, Personagem símbolo que passou a acompanhar os desfiles da Vai-Vai desde outrora, e lá ao seu lado estava Ivete Pugliese. O vídeo abaixo mostra Ivete vestida de preto mandando beijos para a câmera da transmissão oficial.

Naquela época, não queria nada grande, nada coberto, queria era um biquine. Neste ano a parte de cima quebrou no meio do desfile. Eu fui segurando os seios para tapar, até o final“, explica.

Dali em diante o carnaval ganharia um presente, Ivete Pugliese não iria medir esforços para abrilhantar a festa com figurinos fantásticos e premiados nos grandes salões no Brasil e no mundo. Em 96 além da Vai Vai, abrilhanta as alegorias do Unidos do Peruche e da Prova de Fogo, escola oriunda do bairro da Vila Mangalot, em Pirituba que desfila no grupo de acesso paulistano.

Ivete personificava a figura mulher vedete nas alegorias, algo tão comum nos anos 80, 90, e extinto nos dias atuais. Vera Benévolo, um dos maiores destaques da história da Mocidade foi a grande personagem simbolo deste estilo onde a bela mulher usava pequenos trajes no corpo, enfeirados por costeiros ricos de arte plumária.

No inicio dos anos 2000, vem a transformação e com advento da idade, chegava a hora daquele palco fazer justiça aquela história. As minusculas peças associadas a beleza desta mulher foram a formula do sucesso. Porém chegava a hora de cobrir o corpo com verdeiras jóias que ficaram eternizadas e se superavam a cada ano.

Aos 45 anos a oportunidade do primeiro concurso de fantasias, onde inspirada no glamour de Hermínia Paiva, ela adaptou o estilo sexy ao luxo,  vindo a se tornar a grande destaque dona de estilo único, Ivete Pugliese.

Vindo logo após a era de ouro dos Destaques de Luxo, Ivete Pugliese ainda conseguiu ter a oportunidade de participar de quatro dos grandes e quase extintos concursos de fantasias.

Concorreu e foi bicampeã em Poços de Caldas, em 2005 e 2007. No primeiro ano, no dia da apresentação montou a roupa cedo, porém alguns contratempos foram necessários para fazer jus aquele triunfo.

No dia da apresentação a roda do carrinho quebrou, eu fiquei louca. A minha sorte é que levei o Maurício serralheiro. Procuramos uma rodinha pela cidade toda, até que encontramos. Desfilei e foi meu primeiro campeonato. Como eu não podia ensaiar com a minha roupa por que a minha fantasia sempre fica pronta uma semana antes do carnaval, não tinha tempo nem espaço para ensaiar com maquiagem e toda a estrutura. Marcava mentalmente pela musica o que ia fazer no meu desfile que tinha apenas 4 minutos de apresentação no concurso

No segundo ano na hora do desfile eu mudei o sapato. Minha roupa era uma gruta que mostrava um pouco as pernas . Eu pus uma sandália toda feita de franjas de canutilho. E foi o meu horror. Troquei o sapato, entrei para desfilar e torci o pé. Quebrei a evolução. Fique em segundo lugar. Para esses desfile eu assistia fitas k7 que meu amigo também destaque, João Pasqua possuía. No desfile tinha Valquíria Miranda, Ieda e Hermínia Paiva. Esta ultima foi uma inspiração pra mim”.

Em 2012, Ivete Pugliese recebeu o Troféu Nota 10 como melhor destaque de alegoria pela escola Perola Negra.

Entrega do Troféu Nota 10, na sede do Diário de São Paulo em 2012

Além de desfilar na sua escola do coração, Ivete Puglise é requisitada e disputada por carnavalescos no eixo Rio x São Paulo. Em 2016 pode estar na Marques de sapucaí a convite de Chico Spinoza, que assinou Salve Jorge! O guerreiro na féna Estácio de Sá. Neste desfile Ivete representou Ana Bolena, a rainha decapitada da Inglaterra, em fantasia magnifica decorada com pérolas. Também passou por Peruche, Mocidade Alegre, Vila Maria, Tatuapé, Mancha Verde, Morro da Casa verde, Sapopemba, Barroca da Zona Sul, Tom Maior, Imperador do Ipiranga, Prova de fogo, Imperio Lapeano e Perola Negra.

A cada ano eu surto para ter a roupa cada vez grande. Hoje eu só tenho desfilado no Vai Vai por opção minha. Sempre fui criticada por algumas pessoas, por eu desfilar em outras escolas, mas eu sempre achei que 20 ou 30 minutos não são o suficiente.O investimento  nem falo por que é muito dinheiro investido para passar na avenida

Lamento que não tenha mais os concursos de fantasias, quando eu participei do meu primeiro concurso aquilo me deixou tão plena que foi a realização total. Por que é muito interessante, a confecção da sua roupa, a sua historia, o que você vai contar daquela roupa no concurso, a sua musica. Tenho a característica de desfilar com musica de impacto. Graça a Deus fui campeã 02 vezes, 01 vice-campeonato foi quando eu torci meu pé e fique com o vice campeonato. É uma coisa plena, você não é um grãozinho no oceano. Ali é você por você é tudo por você, então isso me deixou muito plena”.

Fiel a Vai Vai até mesmo no acesso, Ivete esteve no desfile campeão de 2020 onde aquele publico pode se aplaudir mais um dos seu esplendidos figurinos.

A mesma já usou figurinos dos mais renomados carnavalescos do Brasil, como Chico Spinoza, Renato Lage, Fabio Borges, André Machado, Ilvamar Magalhães, Raul Diniz, Lane Santana, Flavio Tavares, Alexandre Louzada, Cahê Rodrigues, Dalmo de Moraes, Hernani Siqueira, entre outros. No ano de 2017, veio representando um pássaro africano (Oxonronga) que emite um som onomatopaico de onde provem seu nome. A fantasia era “O pássaro de Eleyés“, deslumbrante criação de Andre Marins e confecção Nilson Lourenço (Nilsinho).

Nilsinho é o responsável por confeccionar todas fantasias de Ivete Pugliese, uma parceria que já dura vinte e quatro anos.

2017 – Destaque na Vai Vai , fantasia “O pássaro de Eleyés”

Já desfile no abre alas, segundo carro, terceiro carro, ultimo carro. Prefiro o segundo e o terceiro carro, eu não gosto de abre alas, nem do ultimo. Tenho problemas com altura. Nas outras escolas eu aviso, mas na Vai Vai eu tenho um acordo por escrito onde existe um acordo onde explica que eu não venho no alto. Passou de quatro metros, já entro em parafusos. Uma vez eu fui desfilar no Morro da Casa Verde e pedi para vir em um lugar baixo, quando eu cheguei e vi a altura, falei que não ia dar. Porém subi no carro com ajuda dos bombeiros. Foi quando iam me colocar, falei para descer porque não iria. Naquele momento tomei pavor e desci por que meu medo de altura é muito grande. Passei a fantasia para outra pessoa que usou no meu lugar e eu não desfilei

Quando a gente não volta nas campeãs é uma tristeza tão grande uma frustração. Usou só aquele tempinho. Há muitos anos não acompanho mais a montagem da fantasia pois fico muito nervosa. Pode ter algo que não da certo no ateliê e nem na avenida, São Paulo sempre chove no carnaval. Nenhum destaque quer entrar na avenida com as penas molhadas, uma coisa é você desfilar de baixo de chuva. Ta chovendo na hora que você monta, na hora que desfilou faz parte, agora chover antes, na armação?  A nossa estrutura em São Paulo para montar é muito boa, mas é importante a disponibilidade dos apoios de destaque, sem meus apoios não sou nada. Para eu conseguir montar preciso dos apoios”

Para a nova geração de destaques eu digo, tudo é muito caro. Precisamos ter muito amor, principalmente a sua agremiação. Amo vestir minha roupa. Acho inconcebível pegar um figurino e não fazer a fantasia e escola fica sem ter ninguém para colocar no lugar. Tem que ter responsabilidade e comprometimento com a personagem e fantasia. Economizar e ir comparando os materiais durante o ano”.

Ivete e Luiz Mattos, seu maior fã, marido e amigo

Quando passa o carnaval, Ivete Pugliese vai junto com seu atual marido e fiel escudeiro, Luiz Mattos, para a chácara do casal, situada na Serra da Mantiqueira. O local possui muitas cachoeiras e montanhas. Lá a grande artista renova as energias e fica pronta para recomeçar tudo de novo. Inclusive, Ivete garante que no próximo carnaval estará novamente defendendo as cores da sua escola de samba de coração, a poderosa escola de samba paulistana Vai Vai que retornou ao grupo de elite do carnaval paulistano.

Luiz Mattos inclusive ilustrou boa parte desta matéria, onde através de fotos mostrou seu orgulho e contribuiu para eternizar tantos bons momentos vividos por Ivete Pugliese.

Por Waldir Tavares e Henrique Sathler

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