DESTAQUE DE LUXO – A MANGUEIRENSE TÂNIA ÍNDIO DO BRASIL

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No mundo do carnaval brasileiro, muito são os personagens que marcaram seu nome ao logo da história dessa festa tão brasileira, mas poucos sobreviveram por tanto tempo no auge da fama.

Tânia Índio do Brasil é o exemplo e a certeza de que o carnaval sabe muito bem perpetuar o nome e a história de todos aqueles que souberam tão bem ocupar o seu lugar e honrar as cores da escola de samba do coração, onde a cada ano emprestam o seu talento e o seu brilho para um desfile de sucesso, seja em qual passarela isso aconteça.

Tânia Índio do Brasil – Estação Primeira de Mangueira – Carnaval de 2011

Nossa personagem notabiliza-se por ostentar com muito orgulho o título de baluarte da Estação Primeira de Mangueira, escola pela qual desfila desde o carnaval de 1959, sendo ainda considerada  o “Destaque de Ouro” da agremiação verde e rosa carioca, vinte vezes campeã da folia da Cidade Maravilhosa.

Tânia Índio do Brasil  por muitos é considerada uma mulher admirável,  com uma história de amor, devoção e recorde de desfiles pela Estação Primeira de Mangueira, onde suas muitas fantasias, ao longo dos anos, expressaram a paixão por sua agremiação do coração, situação que a faz ser também um destaque como ser humano ímpar que é.

Tânia Índio do Brasil

Quando se indaga a respeito de sua trajetória, de pronto Tânia Índio do Brasil faz referência à figura materna, Dona Regina, uma índia da tribo dos Kanamari, no Amazonas, que em sua infância costumava aproveitar as águas do rio Juruá para brincar até que num determinado momento acabou literalmente sendo laçada e levada para trabalho escravo numa casa de família no estado do Pará. Com isso teve sua infância roubada, afastada da família, dos amigos e da vida saudável.

Anos depois, Regina conseguiu fugir daquele verdadeiro cativeiro vindo fixar-se na cidade do Rio de Janeiro, onde acabou contraindo matrimônio com o boêmio Bartho Brasil, que inclusive foi autor de composições juntamente com Nelson Cavaquinho, tendo com Bartho tido duas filhas.

Tânia Índio do Brasil – Estação Primeira de Mangueira – Carnaval de 1998

A paixão de nosso personagem pela Estação Primeira de Mangueira iniciou quando foi levada por um grupo de amigas, na década de sessenta, para conhecer a agremiação notadamente conhecida pelas suas cores oficias, o verde e o rosa, cores estas dadas à escola por um de seus fundadores, Cartola, em referência ao Rancho do Arrepiado, frequentado por seu pai, quando morava no bairro de em Laranjeiras.

Tânia Índio acompanhada de outros destaques de luxo do Rio

No princípio Tânia Índio do Brasil passou a desfilar na verde e rosa como integrante de ala, tendo posteriormente feito parte do “Grupo das Loiras”, onde desfilava com Marlene Arruda, sendo que pouco tempo depois se tornou um dos destaques da agremiação do coração de Dona Zica e tantos outros.

Naquela época, ela ainda não desfilava do alto. “Saía no chão, como figura de enredo”, explicou. “Éramos um grupo de amigas, todas loiras falsificadas.” Nos ensaios da Mangueira, chegou a sentir preconceito por ter a pele branca. “As pessoas até esbarravam em mim, de propósito.” Com o tempo, ganhou a confiança da agremiação.

(https://piaui.folha.uol.com.br/materia/luxo-reciclado/)

Tânia Índio do Brasil iniciou a desfilar como destaque num tempo em que não haviam alegorias como se tem atualmente, num passado do nosso carnaval onde os destaques desfilavam no chão, exibindo suas fantasias de luxo e ao mesmo tempo tendo que apresentar samba no pé e muito fôlego para atravessar toda a passarela de desfile, carregando a própria roupa.

Tânia Índio do Brasil

Puxando pela memória nossa personagem refere que foram exatos sessenta e um desfiles num total de sessenta e dois anos de muito amor e devoção a sua Estação Primeira de Mangueira.

Dona Marcília Lopes, que ostenta com muito orgulho o título de “Mãe dos Destaques”, com muitos anos de participação nos desfiles da Portela, mandou para nossa homenageada a seguinte mensagem:

Tânia também participou de outros desfiles em agremiações coirmãs sempre que houve uma homenagem à sua Mangueira, ou quando a agremiação não concorria com sua escola do coração.

Nossa personagem estava presente no desfile da Estação Primeira de Mangueira, no ano de inauguração da nova pista de desfile da Marquês de Sapucaí, ocasião na qual a verde e rosa foi a campeã dentre as agremiações que desfilaram na segunda-feira de carnaval, colocação esta que a habilitou a brigar pelo supercampeonato que foi realizado no sábado seguinte, tendo a Mangueira conquistado o inédito título de supercampeã, na apresentação do enredo “Yes, Nós temos Braguinha” do carnavalesco Max Lopes.

Esse carnaval mangueirense de 1984 é destacado por Tânia como seu desfile inesquecível, por tudo o que representa para a nação que torce pela Mangueira, assim como para a história da folia carioca.

Tânia Índio nesse desfile vinha no carro que encerrava o primeiro setor do desfile, numa representação da bela época.

Tânia Índio do Brasil – Estação Primeira de Mangueira – Carnaval de 1984

Tânia Índio do Brasil por anos exerceu a nobre função de servidora pública  tendo se aposentado quando atuava no Detran.

No final da década de oitenta, no auge da explosão da AIDS, nossa personagem muito se compadeceu com o sofrimento dos seus amigos atingidos pela nova doença, até ali pouco conhecida, e passou a abrigar em sua casa quem era excluído pelas famílias ao descobrirem estarem infectados pelo vírus e para quem não morava com ela, Tânia providenciava medicação, acompanhava nas consultas médicas, arrecadava alimentos e roupas através de ações por ela organizadas, fazendo tudo aquilo que estava ao seu alcance.
Por este trabalho silencioso realizado em prol de amigos e terceiros, nossa personagem acabou recebendo o reconhecimento, especialmente da comunidade LGBTQIA+, com todo o merecimento por todas as ações dirigidas especialmente aos infectados pelo vírus do HIV.

No ano de 2008 aconteceu a fundação da Associação dos Destaques das Escolas de Samba do Rio de Janeiro – ADERJ, tendo nossa personagem naquela ocasião ocupado o posto de presidente da entidade recém fundada.

Superação também é uma das muitas características positivas cultivadas por nossa  personagem, que mesmo submetida a uma delicada cirurgia para retirada de um tumor no cérebro, não se afastou dos desfiles de 2008 e 2009 da sua amada Estação Primeira de Mangueira.

No ano em que a Mangueira apresentou o enredo ““100 anos do frevo, é de perder o sapato. Recife mandou me chamar…” do carnavalesco Max Lopes, Tânia estava recém operada, para retirada de um tumor na cabeça, havendo por isso muita preocupação por parte da verde e rosa com relação a participação de Tânia no desfile, mas ela queria estar na passarela com sua escola do coração. Daí a presidente da época, Chininha, decidiu que ela desfilaria na última alegoria que trazia também a  velha guarda, pois nesse carro haviam recursos médicos. Por todo esse contexto foi um desfile que ficou na memória da nossa homenageada, visto as circunstâncias delicadas em que se encontrava, mas mesmo assim foi ovacionada em sua passagem pela Sapucaí.

Em sua trajetória de muito sucesso como destaque de luxo do carnaval carioca, Tânia Índio do Brasil em muitas oportunidades recebeu convites para participar de eventos com suas fantasias em vários países ao redor do mundo, mas sempre dispensou essas oportunidades por conta de não querer afastar-se da mãe D. Regina, a qual também participou de desfiles da Mangueira como componente de sua ala de baianas.

D. Regina – Mãe de Tânia Índio do Brasil desfilando na ala de baianas da Mangueira

Depois destes muito anos de desfiles, quando indagada sobre as personalidades que destacaria nesse mundo do carnaval, Tânia Índio do Brasil não titubeia em citar os nomes de Laerte Rafael, Zinha e Cotinha, mangueirenses de “quatro costados”, notadamente solidários com todos aqueles outros destaques da escola, quando era realizado o intercâmbio de materiais entre todos para a confecção de suas fantasias e a obtenção do melhor resultado possível, tudo com o objetivo maior de elevar cada vez mais o nome da Estação Primeira de Mangueira no cenário do carnaval brasileiro.

Tânia Índio do Brasil

Sobre o processo de confecção das muitas fantasias que usou ao longo desses anos de carnaval, Tânia relembra que sempre contou com a ajuda de muitos amigos para o processo de tirar do papel a roupa de desfile nas diversas etapas desse processo, sempre contribuindo com sua opinião para que o efeito alcançado fosse aquele almejado pelo carnavalesco da escola quando da criação do traje. Nossa personagem destaca que esses amigos sempre ajudaram na confecção da sua fantasia por amor à Mangueira e por amizade a ela, já que a “gostavam de ver bonitinha”, nas palavras da própria Tânia.

Tânia Índio do Brasil

Todos os carnavalescos com os quais Tânia interagiu nesses muitos anos de desfile, foram sempre de muito respeito e consideração para com ela, segundo relato da nossa personagem.

Tânia Índio do Brasil – Carnaval de 1991 – nessa foto com Clóvis Bornay

Dentre aqueles imprevistos que podem muito bem acontecer, frente ao nervosismo quando chega a hora de brilhar sob os holofotes da Marquês de Sapucaí, Tânia nos conta da vez que chegou à concentração da  escola onde iria desfilar, nesse caso a Unidos da Tijuca,  e justamente a cabeça da fantasia foi esquecida, não havendo tempo da mesma ser recuperada para o desfile que estava próximo de acontecer.

Na época desse acontecimento, seu apoio acabou usando um adereço da mesma fantasia e improvisou uma cabeça na hora, para que a peça faltante não fosse motivo para despontuar a agremiação no julgamento do desfile e assim nossa personagem passou pela avenida sob aplausos geral, não deixando transparecer o ocorrido.

Tânia Índio do Brasil

Tânia participou em duas edições do concurso de fantasias do Hotel Glória/RJ, um dos eventos mais tradicionais do carnaval carioca no passado, mas confessa que essa “não era a sua praia”, já que sua preferência eram e ainda são os desfiles nas escolas de samba. Nessas suas duas participações na realidade Tânia serviu como modelo, pois as fantasias que vestiu não eram suas, já que nunca gostou de publicizar a roupa que iria brilhar na avenida, antes de entrar na passarela com a sua Mangueira.

Tânia Índio do Brasil emprestou toda a sua beleza e seu prestígio como destaque de luxo para abrilhantar o desfile de outras agremiações cariocas, além de também ter desfilado fora dos limites da Cidade Maravilhosa.

Nossa personagem participou, por exemplo, do inesquecível desfile da Unidos da Tijuca de 1999, quando a escola foi campeã do grupo de acesso da época, com o enredo “O Dono da Terra”, desfile este no qual Tânia vinha no alto do último carro da agremiação do Borel, numa fantasia predominantemente amarela e verde, desfile este que na época foi transmitido pela Rede Bandeirantes de Televisão.

No ano de 2008 a convite do presidente do Paraíso do Tuiuti, Renato Thor, nossa personagem ocupou o posto de diretora de destaques da agremiação carioca, tendo formado um grupo para o desfile da agremiação no ano de 2009, ano em que a escola  levou para a Sapucaí a magia e a nostalgia do Cassino da Urca como enredo, do carnavalesco Eduardo Gonçalves, desfilando pelo grupo de acesso na época.

Tânia Índio do Brasil

Além da Unidos da Tijuca, Tânia também desfilou na Caprichosos de Pilares, Lins Imperial, Em Cima da Hora, União de Jacarepaguá, tendo no carnaval capixaba desfilado pela Mocidade Unida da Glória (MUG) no carnaval de 2014, quando a escola apresentou o enredo “Tapetes – Do Paraíso Mágico ao Santuário da Fé: Castelo!”.

Mais recentemente, no carnaval carioca de 2016 a vida e a trajetória de nossa personagem virou enredo da escola de samba Tupy de Brás de Pina, desfilando na passarela Intendente Magalhães, no grupo E, enredo este desenvolvido pelos carnavalescos Marcio Perrota, Gabriel Haddad e Leonardo Bora com o título de “Tania Índio do Brasil – Destaque da vida e do carnaval”.

Terminada a apuração das notas dos jurados que avaliaram os desfiles na Intendente Magalhães a Tupy de Brás de Pina alcançou o vice-campeonato, colocação esta que possibilitou a escola ser promovida para  o grupo logo acima no carnaval seguinte, situação esta que não acontecia desde o carnaval de 1997 da escola desfilar no grupo D.

Tânia Índio do Brasil

Como o samba não tem fronteiras Rodrigo Leocádio, destaque de luxo da Mocidade Independente de Padre Miguel fez questão de deixar sua mensagem para Tânia Índio do Brasil:

Para o carnaval carioca de 2018 Tânia desfilou como Baluarte da sua Estação Primeira de Mangueira pela primeira vez, título este que recebeu antes do carnaval daquele ano como uma grande honraria frente aos muitos anos dedicados a agremiação de Cartola, Nelson Cavaquinho, Dona Zica, Alcione, Beth Carvalho e muitos outros torcedores ilustres.

Tânia Índio do Brasil como Baluarte na Estação Primeira de Mangueira

Para o próximo carnaval carioca Tânia tem como desafio de novo ocupar a direção de destaques de uma agremiação, desta vez a Lins Imperial, onde vai dividir o posto com Jully Malafaia, a convite do presidente Flávio Melo, tendo as duas a incumbência de formar um time forte de destaques para abrilhantar o desfile da escola, que mais uma  vez busca a promoção ao grupo principal das escolas de samba do Rio.

O primeiro destaque de luxo da Unidos de Vila Isabel, Ednelson Pereira, que também desfila como destaque na Estação Primeira de Mangueira, muitos carnavais ao lado da nossa homenageada, fez questão de deixar uma mensagem à Tânia:

Por fim importante destacar a participação decisiva do esposo da nossa homenageada, Renato Índio, para a realização dessa matéria.

Por Sidnei Louro Jorge Júnior

1 COMENTÁRIO

  1. Muito bonita essa homenagem a nossa querida Tânia Indio. Merecedora parabéns a todos pela participação e deixando suas mensagens pra nossa querida

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