Adiar ou cancelar? O impacto econômico da pandemia no Carnaval de 2021

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Foto: Marcelo Brandt

A pandemia provocada pelo novo coronavírus parou setores de serviços, comércio e indústria e o reflexo desta paralisação ainda deve ser visto até a aprovação e ampla distribuição de uma potencial vacina contra a COVID-19.

Não diferente, o Carnaval — a maior festividade do Brasil — também sente o baque da pandemia. Neste ano, ao menos R$ 8 bilhões foram movimentados durante o carnaval na economia do país. Um aumento de 48% em comparação ao ano anterior e um recorde segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC). Uma maior previsão sobre a movimentação econômica para o setor do turismo em 2021 fica comprometida, já que a OMS declarou a situação de pandemia mundial pelo coronavírus em março, em sequência ao Carnaval no Brasil.

Foto Wigder Frota

Sem a comercialização de uma vacina que imunize a população, as cidades sedes do evento ainda discutem sobre o cancelamento ou adiamento da festividade. Bahia e Rio de Janeiro ainda não definiram sobre o destino dos desfiles das escolas de samba e dos blocos de rua em 2021. Em São Paulo, o prefeito Bruno Covas divulgou o adiamento do Carnaval em 2021: Em vez de fevereiro, para o final de maio ou começo de julho, descartando assim o cancelamento. Tanto a Liga das Escolas de Samba da capital como representantes de grandes blocos de rua participaram da decisão.

Foto: Fábio Tito

Os números levantados no Sambódromo do Anhembi são mais modestos, porém, relevantes: em 2020, R$ 227 milhões foram movimentados, contra R$ 220 milhões em 2019 e R$ 180 milhões em 2018.

Sambódromo Anhembi/SP – Foto Divulgação

No Rio, a Liga Independente das Escolas de Samba (LIESA) deixou a decisão para este mês de setembro sobre adiar ou cancelar os desfiles do Carnaval. Para os representantes das Escolas de Samba do Grupo Especial, o evento só deve acontecer se as autoridades sanitárias confirmarem o uso de vacina ou medicamento que elimine o perigo de contaminação pela covid-19. “Continuaremos sintonizados com os Governos Federal, Estadual e a Prefeitura do Rio de Janeiro, aguardando instruções oficiais quanto aos procedimentos a serem adotados nos próximos meses” – declarou o presidente da LIESA, Jorge Castanheira.

Jorge Castanheira, Presidente LIESA – Foto Divulgação

Até agora, oito escolas do Rio já anunciaram os enredos. A Vila Isabel, que homenageará Martinho da Vila, está com seu barracão fechado e trabalhando em sistema home-office desde o início da pandemia. Em entrevista à revista EXAME, o presidente da Vila, Fernando Fernandes, foi categórico: “Sem vacina, sem carnaval. Temos que priorizar a saúde da população”. Segundo ele, em um calendário normal, este seria o momento em que a escola estaria na fase de montagem, produzindo o protótipo das fantasias.

Martinho da Vila, presidente de honra da Vila Isabel é um dos enredos mais esperados para 2021 — Foto: Alexandre Durão

Mesmo trabalhando remotamente, algumas etapas já foram concluídas como as plantas dos carros, a sinopse do samba e a criação das fantasias. Há menos de sete meses da data oficial do Carnaval, Fernandes afirma que a Vila Isabel está pronta e estruturada para entrar na avenida se existir uma vacina até lá.

Por ainda não haver uma definição sobre o Carnaval em 2021, a Prefeitura do Rio vem estudando alternativas para diversos cenários e avançado nas questões que independem da realização do evento. “Sendo o Carnaval um feriado nacional, envolve também outras esferas, e não apenas a municipal, sendo, portanto, uma discussão muito mais ampla, que inclui resultados de estudos científicos e a criação de uma vacina”, disse a Riotur. O uso do transporte público também é motivo de atenção, já que aumenta o volume de uso nos dias de comemoração.

Foto Wigder Frota

Segundo a Riotur, a capital carioca movimentou R$ 4 bilhões durante o Carnaval deste ano. Já em 2019, foram R$ 3,78 bilhões, uma alta de 26% em relação a 2018. Considerando os blocos, megablocos, Sapucaí, Intendente Magalhães (carnaval de base para as escolas do grupo de acesso do sambódromo) e os 77 palcos populares distribuídos pela cidade, 10,7 milhões de pessoas participaram dos eventos carnavalescos do Rio em 2020, sendo 2,1 milhões de turistas – 77% brasileiros e 23% vindos do exterior. Um crescimento de 31,2% se comparado com o mesmo período do ano anterior.

O tradicional Cacique de Ramos desfila vários dias durante o Carnaval do Rio de Janeiro

Cerca de 66 estabelecimentos de hospedagem, entre hotéis, hostels e albergues, estão com operações temporariamente suspensas na capital carioca. Ao mapear uma previsão de retomada do setor de hospedagem, estudo aponta que a maioria dos empreendimentos apurados, 56,06%, não trabalha com previsão de data; 25,76% pretendem reabrir as portas no mês de agosto; 10,60%, em setembro; 1,50%, em novembro; e 6,08%, em 2021.

Turistas na cidade do Rio de Janeiro no ultimo carnaval – Foto Marcia Folleto

A pesquisa faz parte do IPH-RJ – Índice de Performance da Hotelaria do Rio de Janeiro, elaborado pelo sindicato, porta-voz oficial da hotelaria e responsável pela divulgação de dados do setor. O setor teve 93% de sua ocupação total no último Carnaval.

Em entrevista ao portal Money Report, o presidente do Hotéis Rio (Sindicato dos Meios de Hospedagem do Município do Rio de Janeiro), Alfredo Lopes, afirma que a pandemia tem causado um prejuízo gigante para o setor, e que a reabertura deve ser avaliada diariamente, já que uma retomada precipitada dos serviços pode ser pior. “Imagina abrir todos os hotéis e em pouco tempo temos um lockdown?”, pondera.

Alfredo Lopes, Presidente da Hotéis Rio – Foto Divulgação

A retomada deve ser lenta, e deve acontecer com famílias viajando em seus carros até por receio do vírus nos aeroportos; porém, acredito que o mercado nacional irá reagir magistralmente quando conseguir retomar às viagens. O próprio turismo interno irá dar um empurrão. Como o que aconteceu na Argentina”, disse Lopes.

Ainda segundo ele, na questão do Carnaval, um cenário menos ruim seria o adiamento, e que dificilmente as escolas de samba conseguiriam se mobilizar com seus barracões se a data fosse mantida como no calendário oficial.

Carnaval de rua em Sao Paulo – Foto divulgação

Já em São Paulo, o reflexo da pandemia não deve impactar substancialmente o setor hotelerio, apesar de ser esperada uma eventual retração na ocupação se o Carnaval viesse a ser cancelado, afirmou a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do estado de São Paulo (ABIH SP). Durante os feriados prolongados de Carnaval e Réveillon, os destinos turísticos mais procurados no estado de São Paulo são as estâncias turísticas.  A expectativa é que após a pandemia, a maioria dos hotéis do litoral e do interior do estado mantenham a histórica taxa de ocupação (que varia de 90% a 100%) registrada em anos anteriores.

Enquanto isso em Salvador, uma das capitais mais tradicionais para o carnaval brasileiro, também há expectativa do adiamento da festa. O prefeito da capital baiana, ACM Neto, disse em recente entrevista coletiva que “se não houver vacina ou clareza em relação à imunidade coletiva até o mês de novembro, então pode ser que a prefeitura não tenha elementos de segurança para manter o carnaval”.

Em 2020 a cantora Ivete Sangalo comandou três dias o famoso Bloco Coruja

A estimativa é que tanto o comércio como o turismo movimentaram R$ 2.2 bilhões durante o Carnaval desse ano, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo e também do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis da Bahia – ABIH-BA, os cinco dias de Carnaval representam um faturamento de 156 milhões de reais (média dos últimos 3 anos) para o setor, com ocupação de 95% e picos de até 100%. Este valor representa entre 12% e 13% do faturamento do ano, sendo o período mais lucrativo.

Adiar ou Cancelar?

Com mais de 133.300 mil vidas perdidas para o coronavírus até esta quarta-feira (16), deve ter gente achando inapropriado falar disso neste momento. Acontece que há muita coisa em jogo e, por mais que muitos não vejam desta forma, existe um setor que se movimenta o ano inteiro em função do carnaval.

Foto Divulgação

Falando especificamente das escolas de samba, elas já estariam, nessa época, com as quadras cheias nas disputas pelo hino do próximo ano, os barracões preparados para, em 15 dias, começar os trabalhos de confecção de fantasias e alegorias.

Há muitos profissionais parados: seja os que oferecem mão de obra para o carnaval como aqueles que fazem dele o seu sustento. Estamos falando do vendedor de bebidas e comidas durante ensaios, time de eventos e fornecedores de matérias-primas.

Foto Divulgação

O carnaval está muito ligado à identidade do brasileiro. Ou seja, não existe retomada, novo normal ou algo do tipo se não tiver a festa. Após um ano de sacrifícios, perdas e lutos, muitas dificuldades econômicas e psicológicas, pintar a cara e ir para a rua não será só folia. Mas algo fundamental para a população se reerguer após a pandemia de covid-19.

Foto Reprodução

Independente da decisão tomada, quando tudo isso passar vamos estar diante daquele que pode se tornar o maior carnaval da história. Será o carnaval da libertação. Como diz o próximo enredo da Unidos do Viradouro, “Não há tristeza que possa suportar tanta Alegria”. E não haverá mesmo.

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