A morte de Evandro de Castro Lima e as confusões no enterro do “Pai dos Destaques de Luxo”

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Evandro de Castro Lima foi o Rei das Fantasias de Luxo. Foram 26 anos de glórias nas passarelas e avenidas pelo Brasil, mais de 500 primeiros lugares, se levarmos em consideração conquistas de outros que vestiram suas criações. O Destaque do Império Serrano se despediu da vida em 24 de Fevereiro de 1985, em pleno período carnavalesco.

Evandro de Castro Lima

QUEM FOI EVANDRO DE CASTRO LIMA – Resumo da vida artistística

Nascido em família tradicional do estado da Bahia, estudante de Direito, que não terminou o curso mas acabou por formar-se em Letras Neolatinas, Evandro se aventurou na dança, onde se apresentou na apresentar na lendária casa noturna “Tabaris Night Club“. Deixou Salvador aos 20 anos, contra a vontade dos pais. No Rio, atuou como bailarino e cenógrafo na companhia de Walter Pinto. Enquanto se aperfeiçoava na dança, passou a se dedicar em aprender alta costura. Com ajuda da Primeira Dama argentina, Eva Perón, passou a estudar dança no país do tango, chegando a se apresentar no badalado Teatro Colón de Buenos Aires. No inicio dos anos 60 retornou ao Rio de Janeiro, exatamente quando se dava a popularização do carnaval, para iniciar sua trajetória de belos figurinos, pedrarias, penas, brilho, luxo e títulos. Sua estreia, em concursos na cidade maravilhosa, se deu em 1959, no Teatro Municipal, com a fantasia “Netuno, Rei do Mar”. Sua primeira vitória foi em 1962. Em 1970 já era o protagonista nos concursos de fantasias. Sendo, ao lado de Clovis Bornay, um dos concorrentes de Concursos de Fantasias mais premiado do Brasil. Para muitos dos atuais Destaques de Luxo, Evandro de Castro Lima foi o “Pai de todos“.

MORTE – Cronologia dos Fatos –  Fevereiro de 1985

Dias antes de falecer, Evandro se preparava para disputar o concurso de fantasias do Hotel Gloria (o templo sagrado das fantasias), com a Fantasia “Tributo a Vaidade“. A fantasia, muito comentada no pré carnaval, tinha 500 metros de strass rebordados com paetês e miçangas, duas mil penas de pavão e uma calda de plumas. Antes do concurso já existia uma polemica, pois seu eterno rival, já ostentando um titulo de Hors Concours (aquele que não precisa mais competir), Clovis Bornay, desfilaria com a fantasia “Apoteose à folia, confeccionada pelos badalados figurinistas dos históricos shows da extinta Boate Plataforma, Ricardo Aquino e Luiz Fernandes.

Seu eterno Rival, Clóvis Bornay prometia a guerra das penas de Pavão em 1985 – Acervo Marcelo Guirelli/Tantos Carnavais

A Fantasia de Bornay nada mais era do que uma homenagem a bela ave que Evandro apostava no seu figurino, o Pavão! Ao Jornal O Globo/05.Fev.1985, Clovis declarou “Todos usam penas de pavão deliberadamente, eu serei a própria ave e isso causará furor no publico“. A disputa ainda contava com o pentacampeão do Clube Monte Líbano, Geraldo Sobreira.

A maravilhosa fantasia “Tributo a Vaidade”

O Concurso foi realizado no dia 16 de Fevereiro de 1985. Reportagens da época contam que na entrada do Hotel Glória um grande numero de pessoas estavam presentes para acompanhar a chegada das estrelas naquele que era o 9º Baile Oficial da Cidade do Rio de Janeiro. A euforia era tanta que o empresário Chico Recarey havia solicitado liberar o andar inferior para uma grande festa após a apresentação das fantasias. Na categoria Luxo Masculino não deu para ninguém. Evandro de Castro Lima espantou todas as personalidades presentes devido a riqueza da Fantasia “Tributo a Vaidade“, feita somente para concursos, vencendo com justiça. Clovis Bornay, ciente do superioridade do rival, declarou na época, “Ele sempre procura saber o que eu faço, para fazer melhor“.

Rivais lado a lado em 1985

Em 17 de Fevereiro, Evandro desfilou no Acadêmicos do Salgueiro, com a fantasia “A Justiça Alada“, criação sua, que foi apresentada no Glória por Humberto Canalli, turista italiano que desfilava no Salgueiro por muitos anos. Evandro substituíra Humberto, que teve que voltar para a Itália às pressas e não desfilaria no Salgueiro. Neste desfile Evandro passou mal em plena avenida e teve que ser retirado às pressas da alegoria.

No dia 18 de Fevereiro de 85, Evandro volta a disputar no concurso do Clube Federal, onde também foi campeão. Na madrugada desta mesma segunda feira (18), desfilou pelo Império Serrano, com uma fantasia “Osíris“, toda negra com acabamento em prata, no desfile assinado por Renato Lage – “Samba, Suor e Cerveja, o Combustível da Ilusão”. Na tarde de Terça (19), se dirigiu ao Clube Monte Líbano para vencer e se tornar Hors Concours daquele concurso. Naquela tarde, Evandro de Castro saiu do Clube se sentindo mal novamente. Na Quarta feira de Cinzas (20), como prevenção, foi ao Hospital Pró Cardíaco, em Botafogo. Mesmo com a orientação dos médicos em interná-lo, o artista não concordou e voltou para casa, intencionado a se cuidar após o carnaval.

No dia 23 de Fevereiro de 1985 (sexta feira), Evandro se apresentou no Clube Ginástico Português, mais um sucesso naquele que parecia ser um ano glorioso na carreira do figurinista. No dia 23 desfilou no Clube Naval ao lado de Wilza Karla (então grávida de seis meses) e Clóvis Bornay, com quem tinha feito as pazes dias antes. Foi outro sucesso no final do carnaval de 85. Após a apresentação com os amigos, Evandro chegou em seu apartamento em Copacabana às duas da manhã sentindo dores no peito, com isso decidiu tomar um comprimido. De acordo com declarações de Antônio Sperandini (GLOBO de 25.02.1985. ), seu braço direito nos últimos dez anos, na madrugada deste Sábado, tomou mais um comprimido e foi dormir. Na manhã de 24 de Fevereiro, um Domingo, Evandro de Castro Lima pediu socorro à Sperandini, pois estava passando mal. Após a primeira parada cardíaca em casa, a ambulância chegou às seis da manhã. A segunda parada ocorreu no caminho para o Hospital. Na UTI, Evandro sofre a terceira parada. Tentaram choque elétrico, mas o coração do “Pai do Destaques de Luxo“, havia parado de vez. Aos 65 anos, Evandro de Castro Lima morre em 24 de Fevereiro de 1985 em consequência do infarto.

A poderosa dupla – Clóvis Bornay e Evandro de Castro Lima em 1976 – Arquivo Revista Cruzeiro

Avisado, Clovis Bornay foi um dos primeiros a chegar no Pró Cardíaco. Bornay teve a honra de vestir seu eterno rival de disputas pelos salões. Clovis colocou em Evandro um terno escuro, uma gravata azul marinho e camiseta branca. Evandro não bebia e nem fumava, apenas acompanhava jogos do seu time do coração, Flamengo, além de não deixar de estar nos concurso  de fantasias. Em suas mãos, foram colocadas rosas e a camisa do clube Rubro Negro. Para cobrir o caixão, a bandeira do Império Serrano.

O ENTERRO E A EXPLUSÃO DE MARLENE PAIVA 

O enterro do mestre do luxo não poderia ser nada diferente das disputas e polêmicas nos bastidores de concurso de fantasias. A despedida foi no Cemitério São Joao Batista – Sepulcro 718/quadra 22 – em 25 de Fevereiro de 1985. Várias personalidades estavam presentes, entre elas, os Destaques Mauro Rosas, Wilza Carla, Ana Maria Sagres, Esther de Almeida e o carnavalesco friburguense Elói Machado. Justamente estes protagonizaram uma cena que de tão inusitada, foi parar na Revista Manchete e jornais como o JB e o próprio Globo. Já circulava que no pré carnaval, a Destaque da Mocidade Independente de padre Miguel, Marlene Paiva, havia falado mal de Evandro nos bastidores e o mesmo soube através de telefonemas anônimos. Este episodio, digno de novela assinada por Janete Clair e aos moldes dos bastidores dos concursos da época, causou tristeza no artista. Após a fatalidade isso foi o suficiente para a rivalidade sair dos salões e ir parar no Cemitério. Um grupo de Destaques estava no velório pronto para o barraco.

Foto histórica no carnaval de 1972 – Evandro, Marlene Paiva e mauro Rosas – Arquivo Marcelo Guirelli/Tantos Carnavais

O corpo chegou ao local aplaudido por um publico de cerca de 300 pessoas. Segundo reportagens da época, Clovis Bornay sentou-se ao lado do caixão e recebia os cumprimentos como a estrela do funeral, fato que incomodou alguns presentes. Até que Marlene Paiva chegou bem maquiada, de óculos escuros, toda vestida de roupa de grife e acompanhada do marido. “Peça perdão“, disse Esther de Almeida aos gritos. “Fora daqui judas“, disse Elói machado. Wilza Carla também hostilizava Marlene, em coro com Paulo Varelli.

Antônio Sperandini, vestindo Evandro em 1981 – Acervo Marcelo Guirelli/Tantos Carnavais

Falas como “Fora daqui“, começaram a ecoar na capela. Os amigos de Evandro queriam expulsar Marlene Paiva do velório, afirmando que foram as maledicências de Marlene que fizeram o Destaque passar mal. De acordo com matéria do Globo, houve ordens do tipo “Antônio, bata nela” – O tal Antônio era o Sperandini, amigo próximo e ajudante de Evandro desde 1970, que tentava agredir Marlene Paiva enquanto era contido por amigos – O Globo 25.02.1985.

Marlene, que desde 64 desfilou com fantasias criadas por Evandro, chegou a declarar aos jornais, “Não entendo esta revolta, Evandro é um homem a que devo muitas das minhas glorias e meu nome“. Na primeira tentativa do casal Paiva ter acesso à capela, Esther de Almeida bloqueou a escada, com a justificativa que era um desejo de Evandro impedir Marlene de estar ali. Na segunda tentativa, Marlene Paiva só conseguiu entrar levada por uma sobrinha e duas primas de Evandro, que reclamavam da “falta de respeito com o velório do parente“.

Foi preciso Clovis Bornay, ao ver a confusão armada, gritar “Eu fecho este caixão e acabo com a fofoca toda“. Neste cenário Marlene foi embora e os ânimos se acalmaram. Passada a confusão, a despedida do Grande Evandro, já coroada por um bom bafafá de bastidores de concursos, pode  continuar. Bornay ficou com a incumbência de fazer as ultimas homenagens ao grande artista. “Evandro, a arte não morre e você foi nossa arte. Este é um adeus sentido de uma cidade que lhe deu o titulo de cidadão honorário“. O enterro ocorreu sob outros olhares ilustres, como da multi artista Rogéria, a “cinderela negra” Pinah, Aerton Perlingeiro (Pai do atual presidente da LIESA) e da atriz imperiana Mirian Pérsia.

A Grande Dama Marlene Paiva faleceu em Janeiro de 2015, aos 80 anos, mais de dez títulos e um “hours concours.

O LEGADO DE UM MITO

O primeiro desfile que Evandro de Castro Lima participou, em 1956 ainda Bahia, foi um acontecimento. Só mulheres participavam na época. Ele foi de malha colada no corpo, escamas prateadas, plumas rosas, máscara de aigrettes rosa corbeille e venceu vestido de “Ave do Paraiso“, sob o protesto de todas as mulheres participantes. Passou pela fase de mostrar o corpo, ainda nos anos 60 para depois adaptar suas fantasias ao tipo físico de sua idade – a fase dos faraós. Do inicio na carreira, sob protestos, até seu funeral “bafônico”, Evandro de Castro Lima viveu e partiu como um verdadeiro Rei. Contrariando a tradição, a coroa deste nunca foi herdada por ninguém.

Não é preciso ter 18 anos para fazer as coisas que se quer, mas é preciso ter talento para aos 80 anos não querer ter 20″, uma das ultimas declarações do artista.

1974 – Hotel Nacional – 1º lugar em Luxo Masculino (Poseidon, Rei do Mar) – Acervo Marcelo Guirelli/Tantos Carnavais Evandro se apresentando no primeiro concurso de fantasias realizado no Hotel Nacional. No corpo de jurados, a presença ilustre de Liza Minelli, ao lado de Miele.

Em 1986, o extinto Bloco União de São Brás, de Engenho de Dentro, homenageou o Destaque em seu desfile. Seis anos após sua morte, a Portela desfila com o enredo “Tributo a Vaidade“, uma clara referencia ao nome da ultima fantasia usada por Evandro de Castro Lima.

Nunca existiu um concorrente igual à Evandro de Castro Lima

*Artigo baseado em reportagens da época

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